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Crítica | “Music of the Spheres” – Coldplay

Um cosmos vazio.

por Kevin Rick
1.649 views (a partir de agosto de 2020)

And up there in the heavens
Galileo and those pining for the moon
Know it’s a slow burn
Through Pioneer and Helix
Oumamama, Heliopause, and Neptune
We’re a slow burning tune

Eu gosto de Coldplay. Desde as músicas intimistas de um jovem com violão na mão até o Viva La Vida como celebração global do ser humano, a banda britânica foi experimentando gêneros musicais (rock alternativo, pop-rock, música eletrônica, etc) entre conceitos ora melancólicos (especialmente no início da banda), ora otimistas. Quanto mais sucesso e tours com estádios lotados, mais a banda parecia assumir um conceito positivo e colorido; usar sua plataforma para espalhar amor, união e esperança com suas músicas. Honestamente, é uma linda proposta de Chris Martin e companhia. E certamente melhor do que o pop genérico de sexo e luxo que vemos por aí, como na (artisticamente) decadente Maroon 5.

Entretanto, a trajetória de Coldplay também vem com seus altos e baixos. Inicialmente uma banda com um rock bastante introspectivo e canções com ótimas letras, o grupo acabou aderindo a um estilo comercial superficial em alguns de seus álbuns, em especial o fraquíssimo A Head Full of Dreams. Em contrapartida, Everyday Life (2019) marcou a obra mais experimental e intrigante da banda desde Viva La Vida, mergulhando em um world music que conceitualmente faz muito sentido com a mensagem de comunhão e otimismo do grupo – sendo, infelizmente, o maior fracasso comercial da banda, o que diz muito do grande público.

Chegamos, então, em Music of the Spheres, novo disco que traz um interessante conceito melódico de cosmos, corpos celestes e uma viagem astral e metafórica sonora inspirada em Star Wars – palavras de Chris Martin. É uma proposta que faz bastante sentido para Coldplay, pois desde Yellow Martin invoca as estrelas e os planetas na parte lírica, enquanto busca sentimentos universais para autodescoberta e relações humanas. Com a ajuda do superprodutor Max Martin, Music of the Spheres é uma espécie de space music (nos arranjos) que conversa com a humanidade e problemas mundanos (nas letras). Mantendo o mesmo discurso positivo e colorido que virou identidade da banda, agora com uma proposta mais metafísica, o nono álbum de Coldplay soa arriscado e curioso no papel; apenas no papel…

A partir do momento que High-Power Humankind, os dois principais singles da obra, abrem a tracklist, nos vemos dentro de uma encarnação pop explícita que nada oferece de épico, metafísico ou ópera espacial como a tal “inspiração” em Star Wars de Chris Martin. O que temos é uma melodia de sintetizadores e constantes gritos em falsetto de Martin tentando dar algum tipo de profundidade melódica para um arranjo completamente vazio de nuance ou sentimento. As canções ficam piores quando notamos a letras extremamente pouco inspiradas de Martin, como, por exemplo: “We’re only human / But we’re capable of kindness / So they call us Humankind” – traduzam e irão ver uma frase que parece ter saído de um pôster da 4ª série.

A faixa que segue os dois singles (após um curto interlúdio instrumental nomeado com um emoji…), se chama Let Somebody Go, parceria com Selena Gomez, que mesmo não fazendo qualquer sentido sonoro com o conceito do álbum (é um pop mais taciturno e intimista), é a segunda canção que mais gosto no disco. Uma balada adulta contemporânea sobre a melancolia (e gentileza) de relações humanas, a canção lembra as primeiras faixas de Chris Martin, contendo uma emoção pungente no dueto em midtempo. Human Heart é outra faixa que acompanha uma sensação mais humanista (mas, aqui, um tanto etérea com vocais distorcidos de Martin, a dupla de irmãs de R&B We Are KING e Jacob Collier), iniciando semelhante a um coral à cappella fantástico antes de se aventurar em acústicas esparsas.

Infelizmente, após duas boas canções soturnas, Music of the Spheres retoma o caminho apático de pops enérgicos e batidos, cheio de synthpops e as letras mais cafonas possíveis sobre bondade e amor humano, com o trio People of the PrideBiutyful (uma música com uma distorção vocal de Martin extremamente desagradável) e, claro, o hit My Universe, comercialmente calculado com a (desnecessária) participação de BTS, ainda que a banda coreana ironicamente consiga dar um tantinho de emoção para um Coldplay totalmente desmotivado e sem emoção. Ainda temos a completamente bizarra Infinity Sign, que oferece um synthpop frio em cima de uma gravação baixa do canto “Olé Olé Olé” por razões que desconheço, já que não se encaixam conceitualmente, harmonicamente ou em qualquer outro aspecto no disco – talvez um interlúdio para as massas latinas? Não faço a menor ideia.

Então, simplesmente do nada, o álbum fecha com Coloratura, um final épico de dez minutos totalmente transcendental, levando os ouvintes em uma jornada progressiva centrada no piano dramático de Martin, cordas etéreas, solos e riffs crescentes, e sintetizadores dando uma base atmosférica e não engolindo a melodia como acontece no restante do disco. É uma canção grandiosa, quase toda instrumental, com algumas inserções vocais de Martin, traduzindo musicalmente a pegada astral e de ópera espacial que a banda promete. No final do épico sonoro, eu me senti com raiva. Raiva por não entender por que raios o álbum todo não é assim? Claro que eu já tinha a resposta: após o desastre comercial de Everyday Life (2019), Music of the Spheres vem dentro de uma cartilha pop milimetricamente pensada para um público mais do mesmo – e está funcionando.

No fim, acaba sendo um resumo da trajetória de Coldplay, com traços de genialidade e experimentalismos, mesclados com a necessidade de seguir costumes bobos da indústria pop. Music of the Spheres parte de um intrigante conceito, com umas três boas canções e um excelente desfecho em Coloratura, mas que no conjunto da obra traí sua própria proposta com arranjos genéricos de pop sintetizado e algumas das piores letras da história do grupo em um cosmos (quase) vazio.

Aumenta!: Coloratura
Diminui!: Humankind, My Universe
Minha canção favorita do álbum: Coloratura

Music of the Spheres
Artista: Coldplay
País: Estados Unidos, Reino Unido
Lançamento: 15 de outubro de 2021
Gravadora: Parlophone, Atlantic
Estilo: Pop, pop-rock, space music

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