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Crítica | Mythic Quest – 2X05: Please Sign Here

por Ritter Fan
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Como toda sitcom, especialmente as que lidam com ambientes de trabalho, Mythic Quest trabalha consistentemente com espaços restritos, mesmo que por vezes alguns episódios se aventurem por tomadas externas para criar variedade e verossimilhança. O que Please Sign Here faz é levar a restrição espacial ao extremo (ok, talvez extremo não seja o melhor adjetivo, já que não estamos falando de obras como Enterrado Vivo ou Oxigênio, mas vocês entenderam), mantendo todos os personagens em apenas um ambiente, com a ótima Naomi Ekperigin mais uma vez encarnando Carol, a diretora de RH, que, desta vez, ainda bem, tem o maior destaque.

Portanto, como é de se esperar, o episódio é um exercício quase experimental que comprime as características de cada um dos personagens da série em breves interações comandadas, digamos assim, por Carol, algo que o roteiro de Katie McElhenney faz com grande precisão, sem deixar que barrigas narrativas sejam criadas, algo que a direção da showrunner Megan Ganz amplifica com uma decupagem excelente que não só faz excelente uso do razoavelmente limitado – apesar de tecnicamente grande – espaço dramático e do timing de entrada de personagens, sejam alguns que já estavam ali, mas que espertamente não haviam sido mostrados, seja Poppy, que chega sem aviso. É como uma sessão de terapia para todos dentro da série e um “resumo” do que é a série para nós, que estamos do lado de fora.

Toda a premissa gira em torno de uma pesquisa de personalidade dentro do ambiente de trabalho que Carol precisa que esse grupo assine, já que todos os demais da empresa assinaram. Cada um dos ali presentes – convenientemente o elenco principal completo mais alguns Camisas Vermelhas que logo são “eliminados” só para dar aquele até desnecessário ar de verossimilhança – tem sua razão para não assinar o documento, para desespero completo da diretora de RH que passa, então, a usar toda sua paciência e todo seu treinamento para extrair as concordâncias, por vezes lembrando a estrutura de um game show. E é na lógica por trás de cada recusa que repousa a caracterização exata de cada personagem da série, algo que, claro, não traz exatamente nada de novo à série, mas que funciona como humor recorrente em um episódio que é fundamentalmente um filler, mas um filler dos bons.

Se de um lado temos o egocêntrico Ian, caracterizado na pesquisa, naturalmente, como um leão, recusa-se a assinar porque o “Rei da Selva” precisa primeiro saber como cada um de seus súditos foi caracterizado, além de exigir que Poppy, que recebeu isenção pelo pessoal de Montreal, faça a pesquisa (ou que ele também seja isentado), do outro temos a ativista politicamente correta Dana dizendo não para Carol porque ela considera que a equiparação com animais é reducionismo (e, claro, não ajuda muito ela ter sido classificada como babuíno…). Cada uma das objeções é tratada e resolvida diretamente com a pessoa ou com a interferência da coletividade, gerando uma dinâmica que não cansa nunca, especialmente se considerarmos a originalidade das bases para as recusas.

Peguem, por exemplo, a razão pela qual David não quer assinar. O personagem, que é um dos que estão ali presentes desde o início, mas que só aparece no momento exato em que ele é “invocado”, surge renovado, seguro de si, cheio de empáfia, com penteado novo, figurino de T-Bird, tudo porque o resultado de seu teste o colocou como lobo e um lobo faz o que quer, jamais seguindo os outros. É hilário ver como a personalidade diametralmente oposta de David diz exatamente quem ele é sob outras lentes, algo que ganha a cereja no bolo quando é revelado que ele respondeu tudo ao contrário e que, portanto, seu resultado deveria tê-lo taxado como borboleta, fazendo-o assinar sem demora o documento para não perder o status lupino, tudo para, depois ficar preso no elevador.

Essa brincadeira com os personagens, essa autoconsciência que a série tem sobre o próprio ridículo das caracterizações de cada um de seus personagens é um dos triunfos da criação de Rob McElhenney, Charlie Day e Megan Ganz, com cada um do elenco realmente incorporando suas personas com cometimento, mas, ao mesmo tempo, levíssimas piscadelas para esse autoconhecimento, algo que, por exemplo, fica saliente na forma como Brad e Jo, com a segunda perdendo o respeito pelo primeiro por ele ser um camundongo, iniciam um quase que literal combate de mentes, um tentando derrubar o outro como em um videogame, algo que, aliás, é tematicamente relevante à série como um todo, mas que também é uma decorrência lógica dos eventos de Breaking Brad. O mesmo vale para a estirada final, com a entrada de Poppy que gera conflito direto com Ian, claro, até porque ela também é classificada com leão, o que acaba gerando uma nova aproximação profissional entre eles que, surpreendentemente, é quebrada por um final que os mantém separados criativamente, mostrando que a série não tem intenção alguma de seguir o caminho mais fácil.

Não se pode dizer que Please Sign Here é, de fato, um episódio experimental, pois artifícios semelhantes de confinamento de elenco em um ambiente apenas já foram usados em uma grande gama de outras séries e filmes, mas o importante é ver como a premissa em tese clichê ganha desenvolvimento – que até podemos chamar de autocontido, em razão da natureza mais filler do episódio – e como cada personagem vai revelando seus temores, suas intenções e, claro, suas personalidades aos longo dos bem divididos 20 e poucos minutos. Carol é a regente de uma orquestra muito bem (des)afinada e de mais um hilário episódio de Mythic Quest.

Mythic Quest – 2X05: Please Sign Here (EUA, 28 de maio de 2021)
Criação: Rob McElhenney, Charlie Day, Megan Ganz
Direção: Megan Ganz
Roteiro: Katie McElhenney
Elenco: Rob McElhenney, Charlotte Nicdao, David Hornsby, Danny Pudi, F. Murray Abraham, Jessie Ennis, Imani Hakim, Ashly Burch, Naomi Ekperigin
Duração: 24 min.

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