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Crítica | Mythic Quest – 2X06: Backstory!

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as demais críticas.

Aparentemente, os showrunners de Mythic Quest querem criar a tradição de cada temporada da série conter um episódio flashback que se conecta de alguma forma com o presente. A Dark Quiet Death foi um sensacional retorno aos anos 90 contando a bela, mas ao mesmo tempo dolorosa história do desenvolvimento de um videogame indie cuja empresa que seria eventualmente formada ocupou o mesmo prédio da atual. Agora, com Backstory!, C.W. Longbottom, o personagem de F. Murray Abraham obcecado por backstory, ganha sua própria backstory com um retorno para um passado ainda mais longínquo, precisamente 1972, no nascedouro da indústria de games.

No entanto, o foco da história, que conta com Josh Brener vivendo o jovem C.W. novamente (ele apareceu no piloto), ou melhor, Carl Longbottom, é a jornada sobre como um aspirante a escritor que começa a trabalhar como um dos três copidesques juniores para a Amazing Tales, uma editora de ficção científica que publica obras de gigantes como Isaac Asimov (Chet Grissom), Ursula K. Le Guin (Nicole Ghastin) e Ray Bradbury, torna-se “um dos maiores autores” do gênero no universo da série. O roteiro de Craig Mazin, que também atua como Sol Green, o dono da editora, não tem o menos brilhantismo e melancolia do primeiro episódio flashback, mas ele consegue criar uma narrativa muito convincente que estabelece com propriedade a personalidade egocêntrica, irascível e um tanto quanto doentia do futuro C.W., algo que a direção de Rob McElhenney amplifica pela perfeita ambientação setentista do capítulo que vai desde os figurinos e penteados, até o clássico filtro sépia.

Logo firmando amizade com dois outros copidesques e aspirantes a escritores que começam a trabalhar no mesmo dia que ele, a trinca passa a ser inseparável, especialmente no que se refere a um ler e comentar o trabalho do outro. Mas é aí que os problemas começam a aparecer. Enquanto A.E. Goldsmith (Shelley Hennig) e Peter Cromwell (Michael Cassidy) exultam o trabalho um do outro, sempre com comentários construtivos e precisos sobre os detalhes que deveriam ser melhorados, ambos tem críticas cada vez mais amplas e duras – ainda que educadas – ao conjunto do que Carl escreve, aos poucos fazendo a conexão entre eles ficar corroída e tornando o protagonista ainda mais obcecado com seu trabalho.

Apesar de inicialmente aceitar as críticas, Carl começa a entender que elas só existem porque A.E. e Peter se gostam e se protegem, deixando-o de lado. Fica tristemente evidente que Carl, apesar de escrever bem e amar ficção científica, não consegue se conectar com ou mesmo entender o mundo real, o que esvazia seus textos e cria uma poderosa crítica aos criativos das mais diferentes áreas. Sem compreender o mundo ao redor, qualquer texto tende a soar vazio, hermético e com enorme qualidade apenas na mente de seu autor e é isso que Carl não consegue sequer perceber justamente por encontrar-se em um casulo muito particular que começa pela forma mais empolada como fala, a formalidade com que se veste e assim por diante.

É doloroso ver quando ele, já completamente desesperançoso com seu Tears of the Anaren, pede para Asimov lê-lo, recebendo de volta sua própria obra completamente reescrita pelo mestre que, em um curto bilhete, deixa entrever que o que ele escrevera simplesmente não presta, que o autor precisa recomeçar. Mas é nessa desesperança e com base em sua incapacidade de ler nas entrelinhas, que Carl então parte para publicar a obra de Asimov como sua, não exatamente em um ato de plágio, mas certamente algo que no mínimo seria classificado como desonestidade intelectual, desonestidade essa que, mesmo não na superfície de seus pensamentos, parece explicar sua decadência literária não muito tempo depois, sendo redescoberto por Ian, já como um homem de idade em 2015 (esse momento marca a primeira vez desde o final da 1ª temporada que Abraham atua “ao vivo” na série, vale notar).

E é também doloroso notar que sua verdadeira “criação” – ou talvez seria melhor dizer visão -, ou seja, o videogame de narrativa, seja algo tão a frente de seu tempo que seus colegas e seu chefe não conseguem também nem de longe captar o que ele diz, o que enterra o brilho de seus olhos de vez e o leva à absorver os “comentários” de Asimov em seu texto e ganhar o prêmio Nebula de autor iniciante. Ou seja, é possível entrever o homem brilhante que está soterrado debaixo de um homem socialmente problemático que, com o tempo, só vai ficando pior.

Backstory! é um enorme desvio narrativo, sem dúvida, e um desvio feito maior ainda considerando o quão pouco o personagem de Abraham apareceu na temporada considerando as limitações que o ator teve em relação à pandemia. Mesmo assim, como aconteceu com A Dark Quiet Death, por seu turno bem menos conectado com a história principal, ganhamos mais um capítulo sensacional que amplifica nossa visão sobre o backstory da série e oferece espaço para experimentações.

Mythic Quest – 2X06: Backstory! (EUA, 04 de junho de 2021)
Criação: Rob McElhenney, Charlie Day, Megan Ganz
Direção: Rob McElhenney
Roteiro: Craig Mazin
Elenco: Josh Brener, Michael Cassidy, Shelley Hennig, Craig Mazin, Susan Berger, Chet Grissom, Nicole Ghastin, Rob McElhenney, Charlotte Nicdao, F. Murray Abraham
Duração: 37 min.

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