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Crítica | Mythic Quest: Raven’s Banquet – 1ª Temporada

por Ritter Fan
25 views (a partir de agosto de 2020)

Séries cômicas que se passam fundamentalmente em apenas um ambiente de trabalho precisam ter roteiros cuidadosos para evitar a repetição, um elenco afiado para prender o espectador e personagens carismáticos para tornar irresistível o espaço confinado. Não é uma tarefa fácil sob qualquer ótica e, mesmo com a popularização dessa “subdivisão” das sitcoms com The Office (a versão original e a americana), são raras as que realmente consegue diferenciar-se.

Para minha completa surpresa, porém, Mythic Quest: Raven’s Banquet é uma delas. Lidando com os bastidores da empresa desenvolvedora do muito bem-sucedido massive multiplayer online role-playing game – ou MMORPG – Mythic Quest que, no começo da temporada, ganha sua primeira grande expansão, Raven’s Banquet, os nove rápidos episódios brincam genialmente com estereótipos, constroem hilários personagens que carregam características verossímeis apesar de todo o tom cômico e tornam o cotidiano de mentes criativas algo tão viciante quanto o jogo em si, que é uma réplica genérica de qualquer outro da vida real como World of Warcraft.

Co-criado por Rob McElhenney, criador e ator da longeva It’s Always Sunny in Philadelphia, juntamente com Charlie Day e Megan Ganz, ambos produtores executivos de IASIP, com Ganz tendo também contribuído para o sucesso de Community, Modern Family e The Last Man on Earth, Mythic Quest já nasce com pedigree e não faz nem um pouco feio, muito ao contrário, conseguindo reunir o que de melhor cada nome por trás de seu desenvolvimento trouxe, ao mesmo tempo que mantendo-se sempre fresca e diferente do que já vimos antes. Ainda que McElhenney faça em tese o papel principal, o narcisista egomaníaco Ian Grimm, criador do jogo e seu diretor criativo, com direito a uma sala que fica acima de todos os demais reles mortais, os roteiros criam um excelente equilíbrio para todo o elenco.

E isso é essencial para que MQ:RB funcione como funciona. Afinal, a rotina de Ian como o gostosão que não aceita opiniões de ninguém e que precisa ser bajulado o tempo todo, além de ser sempre o único a ter ideias é algo que potencialmente envelheceria muito rapidamente se o personagem não tivesse o apoio necessário. Na verdade, minto, pois é muito mais do que apoio. Por exemplo, a engenheira-chefe Poppy Li, vivida pela encantadora australiana Charlotte Nicdao, é tão importante quanto Ian, basicamente dividindo a tela com ele como um contraponto que exala inteligência por ser a efetiva executora das ideias do chefe, além de conseguir resolver todos os problemas técnicos diários do jogo e comandar uma equipe de programadores bem menos eficientes que ela. Ao mesmo tempo, Li é o retrato da mais absoluta frustração justamente por ficar sempre à sombra de Ian, algo que é marcado desde o primeiro segundo do primeiro episódio com seu orgulho por ter criado uma pá para a mecânica de escavação do jogo, somente para ser podada pelos constantes momentos de ebulição mental de Ian.

Mas a relação de amor e ódio (por parte de Li apenas, pois Grimm nem sequer consegue conceber que ele pode ser odiado) entre Ian e Poppy é apenas um elemento da série. Ao redor deles orbitam outros excelentes personagens, começando pelo David Brittlesbee (David Hornsby), produtor executivo do jogo e em tese o manda-chuva, mas cuja personalidade conciliadora o impede de ter qualquer semblante de voz, passando por Brad Bakshi (Danny Pudi), responsável pela área de monetização que, claro, só pensa em dinheiro e chegando em C.W. Longbottom (F. Murray Abraham), um escrito premiado de ficção científica que vive de reminiscências do passado, muita bebida e uma completa ignorância sobre basicamente tudo ao seu redor. Em uma terceira camada, vemos a hilária (e assustadora) Jo (Jessie Ennis), que em tese é a assistente de David, mas que, na verdade, idolatra Ian e não esconde isso, além de suas tendências ditatoriais, além da simpática dupla de testadoras do jogo Dana (Imani Hakim) e Rachel (Ashly Burch), que emprestam um pouco de doçura às personalidades impossíveis dos demais.

Esse ecossistema funciona de maneira muito azeitada, com o roteiro não só tendo tempo e cuidado em desenvolver cada um dos personagens, como também polinizando-os com outros que entram e saem na medida em que são importantes para impulsionar a narrativa, notadamente o irritante “influenciador” de 14 anos Pootie Shoe (Elisha Henig) que tem papel recorrente e decisivo na história, a emburrada programadora rebelde Michelle (Aparna Nancherla), o repugnante testador de jogos mais velho Lou (Craig Mazin), Carol (Naomi Ekperigin) a diretora de RH cuja função ninguém verdadeiramente entende ou aprecia e, finalmente, a detestada Sue (Caitlin McGee), responsável pelo relacionamento com o cliente e que sensacionalmente tem uma sala sem janelas no subsolo.

Mesmo com uma estrutura de “problema da semana”, o ritmo da série é rápido e pulsante, com roteiros que sempre trazem assuntos relevantes e com um pano de fundo sócio-econômico importante como a dificuldade das mulheres se firmarem na indústria de jogos, o papel da sindicalização, a importância do reconhecimento do trabalho de seus funcionários e assim por diante. Além disso, claro, apesar do humor constante, há muito fundo de verdade sobre a própria indústria de games, com a Ubisoft tendo servido não só de consultora nesse quesito, como, também, de desenvolvedora do jogo fictício que literalmente é usado como cutscenes de transição entre cenas, em mais uma boa ideia dos showrunners. E, como bônus, vale destacar o episódio 1X05A Dark Quiet Death, que conta uma história acridoce separada do restante sobre o ciclo de vida de um jogo eletrônico, de sua criação com visão artística utópica até seu completo desvirtuamento, em uma poética estocada em praticamente toda a Indústria do Entretenimento, além do extremamente simpático e divertido episódio especial da pandemia de Covid-19 que traz de volta a equipe completa em uma produção exemplar.

Mythic Quest: Raven’s Banquet é um tiro na mosca e mais um grande acerto de Rob McElhenney, Charlie Day e Megan Ganz. Pode não ser a série mais comentada por aí, mas a 1ª temporada é um primor de humor sofisticado no estilo “sitcom de ambiente de trabalho” que encantará igualmente gamers e não gamers e que, como os melhores jogos, trará enorme satisfação – mas com um misto de tristeza – quando os créditos do último episódio começarem a rolar. Que venha a nova expansão!

Mythic Quest: Raven’s Banquet – 1ª Temporada (EUA – 07 de fevereiro de 2020)
Criação: Rob McElhenney, Charlie Day, Megan Ganz
Direção: David Gordon Green, Todd Biermann, Rob McElhenney, LP, Pete Chatmon, Catriona McKenzie
Roteiro: Charlie Day, Megan Ganz, Rob McElhenney, David Hornsby, John Howell Harris, Katie McElhenney, Aparna Nancherla, Ashly Burch
Elenco: Rob McElhenney, Charlotte Nicdao, David Hornsby, Danny Pudi, F. Murray Abraham, Jessie Ennis, Imani Hakim, Ashly Burch, Elisha Henig, Craig Mazin, Naomi Ekperigin, Caitlin McGee
Duração: 282 min. (nove episódios + um especial de quarentena)

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