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Crítica | Na Cabine de Exibição

por Michel Gutwilen
156 views (a partir de agosto de 2020)

Há dois temas cruciais ao debate sobre Na Cabine de Exibição: o espectador e a imagem, ainda que este longa possa cruzar infinitas tangenciais em uma análise crítica. Trata-se de um experimento, um filme-tese, um metafilme ou seja lá o que se quer chamá-lo. Sobre o ato de assistir ao outro assistindo a um filme — tal qual o excelente Assistindo a Dor dos Outros, também de 2020. Neste exercício, o diretor israelense Ra’anan Alexandrowicz grava a jovem americana Maia Levi olhando e reagindo a vídeos que envolvam a questão entre Palestina e Israel.

No caso desta obra, a palavra “diretor” nunca fez tanto sentido e foi levada de modo tão literal, uma vez que Ra’anan é um personagem que se faz presente na diegese fílmica,  sendo ele a pessoa que ordena o modo como a estudante deve reagir. “Verbalize o que você está sentindo ao ver essas imagens”, diz ele. Em uma primeira camada, já se enxerga uma narrativa sobre atuação e direção. Desde o primeiro momento, já não há mais plana espontaneidade e autonomia, uma vez que Maia faz o que é o pedido. Ao longo de sua projeção, Na Cabine de Exibição abordará a seguinte indagação: a imagem é manipulável? Aliás, essa questão não vale apenas para vídeos que Maia assiste, mas para o próprio filme que nós, espectadores, estamos assistindo. 

Ou seja, já existe este paradoxo proposital de imediato que, inclusive, será confrontado no terço final do longa. Afinal, não estaria Ra’anan criando manipulações ao escolher sob que planos filmar aquela mulher? Nossa visão dela é limitada a dois planos: um frontal, em plano médio e um fora da sala, na qual ela está enquadrada pela janela). O que há para além dela? Será que somos levados a desgostar (ou gostar) de Maia influenciados pelas escolhas de decupagem?

O segundo grande paradoxo gerado pela narrativa é o fato de que, enquanto Maia julga aqueles vídeos a partir de uma interpretação daquilo que enxerga, nós também vamos criando concepções sobre aquela menina apenas por sua imagem, ainda que nada saibamos dela. Eis aqui uma dupla camada interpretativa. Assim, os tópicos da subjetividade e da relatividade entram em questão. A interpretação de Maia diante daqueles vídeos só é possível a partir de sua experiência prévia e criação cultural; assim como nossa percepção sobre ela também dependerá de certas filiações políticas — no meu caso em específico, foi difícil não odiá-la. 

A partir deste debate, naturalmente, é possível desembocar em um outro aspecto da teoria cinematográfica: a imagem que se vê não é objetiva, mas interpretativa, uma vez que depende do seu receptor. Por isso, é fundamental que Ra’anan não tenha ficado com a sua câmera só em Maia, mas também haver planos do que ela assiste, uma vez que isso permite o espectador comparar a sua interpretação com a da mulher. De mesmo modo, há de se falar em um outro ponto levado pelas atitudes de Maia, que são suas pausas a cada cinco segundos para fazer algum comentário baseado em um trecho em específico. Ora, existe a possibilidade de tirar significado de uma obra a partir de uma análise fragmentada? É possível imagens paradas de um vídeo em movimento revelarem algo? 

Dito tudo isso, e sem me aprofundar nas questões teóricas apenas levantadas, pois um contexto de cobertura de Festival não permite isso, fica a lamentação por Ra’anan cair em uma certa contradição ao contar diversas dessas reflexões através de uma narração em off (ou discutindo diretamente com Maia), parecendo não confiar que o espectador irá chegar sozinho a todo este raciocínio, além de ferir a própria lógica interna de Na Cabine de Exibição, que reside toda mais no olhar do que falar. 

Na Cabine de Exibição (In the Viewing Booth) — Israel, Estados Unidos, 2020
Direção: Ra’anan Alexandrowicz
Roteiro: Ra’anan Alexandrowicz
Elenco: Maia Levi
Duração: 71 min.

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