Número de temporadas: 1
Número de episódios: 160
Período de exibição: 13 de março a 12 de setembro de 1972
Há continuação ou reboot?: Não.
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Mais sensível do que parece, Na Idade do Lobo esconde, sob a fachada de trama sobre um bon vivant mulherengo, machista e mimado pela mãe que chega aos 40 anos sem qualquer responsabilidade (nem consigo, nem com as pessoas ao redor), uma construção dramatúrgica refinada que explora a crise existencial masculina de uma forma inesperada para uma novela brasileira de início dos anos 70. A Rede Tupi exibiu, entre março e setembro de 1972, os 160 capítulos desse folhetim escrito por Sérgio Jockymann e dirigido pela dupla Walter Avancini e Carlos Zara, numa abordagem que, sob a tutela de um dramaturgo gaúcho conhecido por suas peças satíricas, explorava a dualidade entre a futilidade da vida burguesa e a redenção através do amor. Falando assim, parece mais uma noveleta convencional sobre homem rico que troca a noiva por uma jovem pobre do Exército da Salvação, mas este primeiro capítulo mostra um encaminhamento cuidadoso com o conteúdo e seus significados, além de uma exploração rica da mise en scène, com direito a longas cenas externas num momento da TV nacional em que quase tudo era filmado em interiores. Avancini, que naquele mesmo ano estrearia na TV Globo com Selva de Pedra, demonstrava mostrava na Tupi uma obsessão por linguagem visual sofisticada — ainda que tenha exagerado nos planos longos de Fernando retornando bêbado para casa, sequência que, contudo, jamais se torna ruim porque está acompanhada da bela e melancólica Passing Years, do grupo britânico de rock progressivo Mainhorse, e porque a montagem trabalha bem a simultaneidade entre a chegada de Fernando e a de Carina à casa, criando um paralelismo que antecipa os encontros e desencontros entre os personagens.
Os conflitos familiares aqui são bem sinceros (em sua temática e diálogos), livres de situações ou conflitos que não dão em nada. A sequência da festa de aniversário de Fernando (destaque para a atuação de Carlos Alberto) é um dos pontos altos do capítulo: começa com o protagonista desfilando entre convidados numa performance que mistura elegância, afetação e humor; avança com a leitura da mão feita por uma cigana (momento em que o próprio título da novela recebe sua explicação, transformando a expressão popular sobre homens quarentões em prenúncio de transformação e solidão), e se encerra com uma sensação de vazio que Carlos Alberto interpreta com delicadeza, espanto e uma pitada de sedução. O elenco jovem impressiona, entregando performances que são o verdadeiro oposto daquilo que vemos em grande parte dos elencos jovens hoje em novelas, onde apenas uma fração consegue sustentar cenas com a mesma densidade, o que se explica não só pela diferença de talento individual (afinal, bons atores sempre existiram em qualquer época), mas principalmente pela formação teatral rigorosa que essa geração recebeu e pela raridade de textos minimamente desafiadores nas produções atuais.
A última sequência, acompanhada por Futurível, de Gilberto Gil (canção composta em 1969 durante o período em que o tropicalista esteve preso pela ditadura militar, e que propunha um futuro possível através de sua própria construção experimental das emoções), serve de reafirmação do novo momento de Fernando: a câmera o acompanha acordando da bebedeira em uma casa diferente da dele, sem os luxos que teria e com a ideia de que ele está na idade do lobo e que encontraria a sua Chapeuzinho Vermelho. O teor e o sentido da letra de Gil, especialmente a parte sentimental, fazem todo o sentido para a sequência. Praticamente não há texto, apenas dois personagens (e um deles dormindo!), mais uma ótima canção e movimentos de um homem que se dá conta de que está realmente só e que, talvez por um capricho do destino, também pode (inexplicavelmente, do seu ponto de vista) se apaixonar.
Basicamente, só sobreviveu este primeiro capítulo de Na Idade do Lobo, que está disponível gratuitamente no Banco de Conteúdos Culturais da Cinemateca Brasileira. E digo a vocês: vale muito a pena conferir. É uma estreia que questiona a masculinidade burguesa, que faz escolhas visuais muito bacanas para a época e que tem uma trilha sonora e uma montagem que ajudam muito a criar tensão, expectativa e um senso de urgência ao longo da projeção. Os exageros na duração das sequências e as pequenas travadas de fluidez entre os blocos não conseguem tirar do episódio a sua estrutura geral muito boa. Esta é uma das mais antigas novelas, até o momento, que eu conferi para o nosso projeto aqui do Plano Crítico (ao lado de Uma Rosa Com Amor, do mesmo ano) e posso dizer tranquilamente que entendo por que esta forma de drama televisivo se tornou tão popular e tão prestigiada aqui no Brasil. As histórias, o elenco, o texto e a maneira como se produziam a maior parte desses folhetins eram um verdadeiro ímã de público por sua qualidade e força!
Na Idade do Lobo – Capítulo 1 (Brasil, 1972)
Criação: Sérgio Jockymann
Direção: Walter Avancini, Carlos Zara
Roteiro: Sérgio Jockymann
Elenco: Carlos Alberto, Bete Mendes, Irene Ravache, Maria Isabel de Lizandra, Dênis Carvalho, Mauro Mendonça, Stênio Garcia, Yolanda Cardoso, Marisa Sanches, Tony Ramos, Older Cazarré, Maria Aparecida Baxter, Márcia de Windsor, Wilson Fragoso, Ivan Mesquita, Lélia Abramo, Geórgia Quental, Pepita Rodrigues, Jacques Lagoa, Marcos Plonka, Graça Mello, Silvana Lopes, Carlos Alberto Riccelli, Abrahão Farc, Cyl Farney
Duração: 50 min.
