Crítica | Na Solidão da Noite (1945)

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Devo começar essa resenha confessando que não sou um grande fã de filmes antológicos. Embora existam valorosas exceções, estes filmes em geral não funcionam muito bem comigo, não só pela disparidade de qualidade entre as histórias, mas por eu sentir que raramente elas alcancem algum tipo de coesão narrativa dentro do longa-metragem como um todo. Felizmente, Na Solidão da Noite, filme britânico de 1945 é uma das exceções, com os seus diferentes segmentos funcionando como um bem articulado crescente dramático para a sua história-moldura.

Na trama, Walter Craig (Mervyn Jones) é um arquiteto que é contratado para reformar uma casa de campo, sendo convidado para passar o fim de semana no local para avaliar o trabalho. Mas ao chegar ao local onde o dono Eliot Foley (Roland Culvey) toma chá com convidados, Craig passa a experimentar um forte déjà vu, pois sente que já viu a casa e os presentes no chá em seus sonhos. Intrigados, os convidados passam a partilhar histórias envolvendo o sobrenatural e o inexplicável que vivenciaram, enquanto Craig tem sensação de que algo terrível está para acontecer.

Com segmentos dirigidos pelo brasileiro Alberto Cavalcanti e por Charles Crichton, Robert Hamer, e Basil Dearden (que dirige também a história-moldura), Na Solidão Da Noite destaca-se por sua progressão de tensão, já que a medida em que a atmosfera da história-moldura vai se tornando mais pesada e sombria, o mesmo vai acontecendo com os segmentos. O roteiro escrito a quatro mãos por John Baines e Angus MacPhail é inteligente ao ligar o clima e teor de cada segmento com o seu narrador. Assim, a história contada pela jovem Sally (Sally Ann Howes) possui um caráter mais lúdico; a história contada pelo cético Doutor Van Straaten (Frederick Valk) é a que tem menos abertura para leituras sobrenaturais, e assim por diante.

O primeiro segmento, dirigido por Basil Dearden, sobre um piloto que tem uma visão premonitória sobre um desastre de ônibus, tem uma narrativa ligeira de menos de cinco minutos, destacando-se mais pela estética sombria do que pela história em si. O segundo segmento, dirigido por Cavalcanti, narra o encontro da adolescente Sally com um fantasma enquanto brincava de esconde-esconde em uma festa de natal. Essa história é carregada principalmente pelo carisma de Sally Ann Howes, possuindo uma condução doce e lúdica que só adquire tons mais sombrios em seu desfecho, indicando o que virá a seguir. O terceiro segmento, de Robert Hamer, já adota traz uma natureza mais macabra e violenta, ao acompanhar a história de Joan Cortland (Googie Withers), que conta como um espelho amaldiçoado quase enlouqueceu o seu marido (Ralph Michael).

A história seguinte, dirigida por Charles Crichton e inspirada em um conto de H.G Wells, trata de dois amigos (Basil Radford e Naunton Wayne) que disputam a mesma garota e resolvem decidir o conflito em um jogo de golfe. Embora o ar cômico do segmento faça sentido com o seu narrador, o irônico Sr. Foley, a história acaba soando um pouco fora de lugar, e poderia ter funcionado melhor se colocada mais cedo no longa. O segmento da mal arquitetada vingança sobrenatural de um dos amigos, que morre após ser trapaceado no jogo, não só quebra a atmosfera pesada estabelecida pelo segmento anterior, para prejuízo do filme, como acaba soando datada no geral, sendo o segmento mais fraco da obra. Felizmente, a obra se recupera lindamente com o segmento final, comandado por Cavalcanti, onde o Doutor Van Straaten conta a história do ventríloquo Maxwell Frere (Michael Redgrave) e sua relação doentia com o seu boneco Hugo, que adquire contornos perigosos quando Hugo começa a cortejar outro ventríloquo (Hartley Power). O excelente desempenho de Redgrave como o ventríloquo psicótico, somado a sinistra aparência e risada esganiçada do boneco Hugo, além dos aspectos psicológicos que antecipam obras como Psicose em anos; fazem deste segmento o mais memorável desta antologia.

Como a maior parte das antologias, os segmentos de Na Solidão da Noite variam de qualidade, mas eles ao menos agregam algo aos diferentes tempos dramáticos da história-moldura e, nesse sentido, mesmo a deslocada trama dos golfistas funciona ao agir como um conto de respiro relatado como uma farsa após a história do espelho visivelmente perturbar os personagens. O texto desenha um confronto inteligente entre a racionalidade, representada pelo psicólogo Van Straaten, que sempre procura fornecer uma explicação lógica para os eventos inexplicáveis de cada história, com a credulidade do protagonista, que vai se tornando cada vez mais desesperado pela sensação de que tal como no sonho de que pouco se lembra, algo de muito ruim vai acontecer.

O clímax do filme, onde os medos de Craig enfim se concretizam em uma sequência surreal onde elementos de todos os segmentos surgem para atormentar o protagonista, trazem a derrota da lógica e da sanidade diante do inexplicável, conversando também com os temas trabalhados em todos os segmentos. Seria um fim apropriado para a obra, mas o epílogo vai um passo além, apontando os terrores de Walter Craig como um tormento cíclico em uma conclusão irônica e pessimista.

Ainda que possua algumas escorregadas que impeçam o filme de alçar voos mais altos, Na Solidão da Noite ainda se destaca entre as antologias de terror pela direção elegante do quarteto de diretores que conseguem dar identidade a cada segmento sem sacrificar a coesão da obra, e por um roteiro bem amarrado, que constrói a sua história-moldura como algo mais do que uma mera desculpa para as histórias serem contadas. Vale a pena assistir a este pesadelo de Walter Craig e conhecer este pequeno clássico do cinema de terror britânico.

Na Solidão Da Noite (Dead of Night)- Reino Unido, 1945
Direção: Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden, Robert Hamer
Roteiro: John Baines, Angus MacPhail (baseado em contos de H.G Wells e E.F Benson)
Elenco: Anthony Baird, Roland Culver, Renée Gadd, Sally Ann Howes, Mervyn Jones, Barbara Leake, Mary Merrall, Frederick Valk, Googie Withers, Judy Kelly, Miles Malleson, Ralph Michael, Esmé Percy, Peggy Brian, Basil Radford, Naunton Wayne, Peter Jones, Allan Jeayes, Magda Kun, Milles Malleson, Garry Marsh, Michael Redgrave, Hartley Power, Elizabeth Welch
Duração: 103 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.