Crítica | Na Teia do Destino

PLANO CRÍTICO NA TEIA DO DESTINO The Reckless Moment

Embora encontremos um filme americano de 1950 (Vendetta) co-assinado por Max Ophüls, sua despedida dos Estados Unidos aconteceu de fato em The Reckless Moment, de 1949. A participação do diretor em Vendetta durou apenas uma semana e meia em agosto de 1946, quando foi demitido do cargo, sendo o primeiro de cinco diretores que assinariam um pedaço do filme, lançado, como já dito, apenas em 1950. Em sua curta carreira nos Estados Unidos, o diretor nos deixou dois filmes memoráveis, o primeiro, Carta de uma Desconhecida (1948); e o segundo, Na Teia do Destino, objeto da presente crítica.

Baseado na história The Blank Wall, escrita por Elisabeth Sanxay Holding para o Ladies Home Journal, o filme explora um conflito ético e moral de uma forma bem distinta daquela que normalmente se espera de um noir, primeiro pelo foco dramático colocado em uma mulher — a mãe de família e não femme fatale Sra. Lucia Harper, interpretada maravilhosamente por Joan Bennett — e depois pela forma despreocupada com que o diretor explora o problema central, que começa com um ato de rebeldia da filha mais velha e termina com a mãe tendo que resolver todos os problemas sozinha, numa situação em que escala rapidamente para problemas secundários derivados de um momento imprudente.

Max Ophüls sabe trabalhar com primazia o seu elenco de apoio, dando-nos um grande contraste entre o que parece ser uma família feliz e a possibilidade de sua dispersão por conta da morte de um homem. É a partir desse cenário bem estruturado (semelhante à família de A Sombra de Uma Dúvida, silenciosamente ameaçada pela chegada do tio Charlie) que acompanhamos os afazeres de todos no dia a dia, e tendo o conhecimento dessas ações comuns é que passamos a temer cada chegada de um novo indivíduo em cena, pois ele pode trazer uma ameaça para essa normalidade. Dos coadjuvantes da casa, o maior destaque é do caçula da família, David (David Bair), mas todos possuem uma boa interação e bons diálogos, criando uma espécie de contraste duplo: o caráter realista da vida dos Harper tem como antítese a direção de arte meio barroca para as internas na casa, e esse “estranho par” tem um contraste ainda maior quando há um crime que o ronda e ameaça.

No derradeiro ato, o dilema moral toma conta e o filme deixa às claras o seu objetivo: expor a hipocrisia do pensamento das instituições como um todo, especialmente da família. A primeira discussão surge em torno de permitir ou não que um homem seja culpado por algo que ele não fez (mesmo tendo feito muitas outras coisas ruins) e termina tocando em outras questões como a fidelidade no casamento e condições ou aceitação de escalas da justiça — quer a lei tenha conhecimento dos “crimes domésticos”, quer não. Na Teia do Destino é um filme simples. A montagem salienta o tom de crônica e a discussão maior vem no final, após algumas sequências sugerirem um desvio para algo menos interessante, como a investigação direta do assassinato que dá origem a tudo. Mas o texto volta a atenção para a família e é nela (e no veneno em seu seio) que permanece até o fim, talvez sentimental demais em torno do personagem de James Mason no desfecho, mas ainda assim, sustentando o seu imenso valor dramático e valorizando sua abordagem diferente para um gênero tão cheio de possibilidades como o noir.

Na Teia do Destino (The Reckless Moment) — EUA, 1949
Direção: Max Ophüls
Roteiro: Henry Garson, Robert Soderberg (baseado em história de Elisabeth Sanxay Holding)
Elenco: James Mason, Joan Bennett, Geraldine Brooks, Henry O’Neill, Shepperd Strudwick, David Bair, Roy Roberts, Frances E. Williams, William Schallert, Kathryn Card
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.