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Crítica | Na Terra dos Magos Negros

por Luiz Santiago
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Filho de um meteorologista, explorador e também diretor do Museu Oceanográfico de Mônaco, Jean Rouch cresceu com todos os privilégios de vida e estudo possíveis, desenvolvendo desde muito cedo uma grande paixão por música (especialmente jazz) e cinema. Sua primeira formação foi em engenharia civil, profissão que o levaria, em 1941, a trabalhar em Niamey (Níger), então colônia da França. Sua função ali era coordenar um projeto de engenharia hídrica no Rio Níger, e foi durante esse trabalho que um encontro mudaria para sempre a sua vida.

Presenciando um ritual Songhai que se deu após a morte de 10 operários em uma parte das obras que coordenava, Rouch viu nascer um interesse que logo depois da 2ª Guerra se tornaria a sua única ocupação, aplicada ao cinema: a etnologia. Sua amizade com Damouré Zika, filho de um curandeiro e pescador tradicional do povo Songhai, também contribuiu para isso. De volta à França, estudou com os antropólogos Marcel Mauss e Marcel Griaule, e após uma breve atuação como jornalista na Agence France-Presse, retornou ao Níger em companhia dos amigos Pierre Ponty e Jean Sauvy, com quem realizou uma grande missão de estudos e conhecimento geográfico e étnico, descendo o rio Níger e eventualmente registrando as coisas que via, sendo uma delas a caçada que vemos na primeira parte deste que é o primeiro curta de Jean Rouch: Au Pays des Mages Noirs, lançado em 1947.

Existe um portal dedicado ao cineasta chamado The Jean Rouch Tribute, desenvolvido pela Documentary Educational Resources (DRE), produtora e distribuidora americana, sem fins lucrativos, de filmes e vídeos antropológicos e etnográficos. Fundada em 1968 pelos cineastas independentes John Marshall e Timothy Asch, a DRE tem como missão “promover documentários e mídias instigantes para o aprendizado a respeito de povos e culturas do mundo”. Este portal dá conta de que o real primeiro filme de Rouch foi um curta chamado La Chevelure Magique (O Cabelo Mágico), datado de 1946. Este filme, no entanto, é considerado perdido.

O mesmo site aponta que em 1947 há um curta chamado Chasse Traditionelle à Bangawi (Caça Tradicional Bangawi) que é o corte do diretor para este Na Terra dos Magos Negros, o que me faz entender uma informação cedida pela UniFrance (French Cinema Worldwide), de que a segunda parte desse curta (o banquete e o ritual de possessão) não foi dirigida por Rouch. Trata-se de uma produção arquivada, e aparentemente não assinada, da Actualités Françaises, produtora do filme, que adicionou essa segunda parte sem acordar com o diretor.

Devo dizer, porém, que não tive acesso ao “corte de Rouch”, apenas a versão oficial lançada em 47 e dividida em duas partes: a primeira, um ritual de caça de uma tribo Sorko, no Níger, desde os sacrifícios aos deuses até a finalização da caçada ao hipopótamo; e a segunda parte, um banquete sagrado seguido de uma dança enérgica, onde vemos indivíduos possuídos pelos espíritos da água e das aldeias locais.

A estrutura do documentário é simples, mas muito impactante. O fator de novidade, de conhecimento e contato com essa cultura tem aqui uma visão assumidamente observacional por parte do diretor, fazendo o papel daquele que chega a um espaço desconhecido e se porta como um curioso embasbacado, justamente a impressão que o filme transmite para o público. Anos depois, esse tipo de abordagem geraria algumas discussões interessantes a respeito da linha de documentários que Rouch solidificaria — a etnoficção. Neste seu primeiro filme (conhecido), tal teoria é ainda um embrião, embora o espectador que conheça um pouco o trabalho posterior do cineasta consiga identificar semelhanças.

Na Terra dos Magos Negros é uma visita quase jornalística a um grupo étnico e a visão de um pedaço de sua cultura e hábitos, parte deles já “documentalmente encenados”– uma mescla formal e narrativa de Robert Flaherty com Dziga Vertov, passando por lições de Jacques Becker, que de fato foi um “professor de intensivo cinematográfico” para Rouch) e colocados aqui com uma honesta visão de um curioso homem branco para uma cultura que o interessava. Como disse antes, esse tipo de abordagem geraria inúmeros debates, sendo o mais famoso deles o excelente, respeitoso e rico debate entre Jean Rouch e Ousmane Sembène sobre o caráter representativo, reducionista ou até reafirmador de uma porção de estereótipos que a etnoficção e produções de artistas africanistas fizeram no decorrer dos anos. Isso ressalta ainda mais a importância histórica de Na Terra dos Magos Negros. Estamos olhando para a semente de uma escola cinematográfica e de uma linha futuramente intensa de debates culturais.

Au Pays des Mages Noirs (França, 1947)
Direção: Pierre Ponty, Jean Rouch, Jean Sauvy
Roteiro: Pierre Ponty, Jean Rouch, Jean Sauvy
Duração: 13 min.

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