Crítica | Nada Santo (Lo Spietato)

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Santo Russo (Riccardo Scamarcio) é um homem insaciável. Natural da Calábria, sul da Itália, e desde a adolescência residente em Milão, este personagem de Nada Santo (Lo Spietato), mostra mais uma jornada de ascensão e queda de um mafioso, desta vez, focado no boom econômico milanês dos anos 1980. Dirigido por Renato De Maria, o longa trabalha de um jeito muito interessante o passado e o presente o protagonista, utilizando todos os ingredientes que já conhecemos do gênero, mas dentro de uma narração em camadas que exige um pouco mais de atenção do espectador no início (quando há a quebra no padrão do texto) e no fim (quando o retorno ao ponto de partida ocorre). O resultado é uma película instigante, com boas sugestões sobre “quem é capaz de fazer o quê” neste mundo de criminosos e, como era de se esperar, alguns passos em falso no meio do caminho.

Scamarcio é quem praticamente carrega toda a tensão dramática da obra nas costas. O ator equilibra bem as nuances de “pessoa simpática e confiável” com as de “bandido cruel e insaciável“, faces que ganham algumas outras denominações no decorrer da obra, à medida que vemos mais coadjuvantes surgirem e a saga de Santo no mundo do crime se estabelecer. Mas para que isso ocorra, antes de tudo, o filme testa até o limite a aceitação do espectador para o que está vendo na tela. Da primeira prisão do personagem à sua soltura e real contato com a máfia, temos uma elipse confusa, que não satisfaz a cobrança do roteiro naquele momento e isto, infelizmente, é algo que se repete para todos os núcleos de contato íntimo do protagonista fora do crime.

O roteiro, que é co-escrito pelo diretor, ao lado de Valentina Strada e Federico Gnesini, dá total atenção ao funcionamento das mais diversas fontes de dinheiro ilícito em Milão no decorrer dos anos (e sendo este o tema do filme, é bom que o texto tenha tido esse olhar), mas não consegue ligar essa parte da obra aos laços familiares e amorosos de Santo, que são bem concebidos internamente, tendem a começar fazendo sentido na a narrativa, mas em pouco tempo começam a destoar. Nenhuma cena familiar do longa é forte o bastante para pertencer a este mundo fora da lei, mesmo com o roteiro batendo na tecla de que “a esposa não sabia de nada“, algo que ela própria desmente em dado ponto da trama.

Quando Annabelle (Marie-Ange Casta) aparece, o espectador começa a ver algum sentido na ligação amorosa de Santo, pois esta é uma relação de mentira que acaba gerando um bom suspense, pelo menos até as colocações artísticas sem sentido que tomam alguns minutos preciosos do público. São essas quebras em blocos inicialmente bons que vão minando a qualidade do texto, o que pode colocar certos momentos do filme a perder, como por exemplo, a “separação” entre Santo e Annabelle, que é feita em elipse e tem uma das motivações mais… estranhas do filme. Todavia, como compensação, pelo menos uma vez observamos algo ruim e indiferente ganhar outro aspecto, como no caso da transformação de Mariangela (Sara Serraiocco) em uma socialite que parece perder todo o seu escrúpulo católico e meio louco, espelhando Santo em atividades onde “controla a grana”. Ou seja, só mesmo quando trabalha com o lado sujo das pessoas é que o filme acerta em cheio.

A boa trilha sonora e um trabalho muito belo da fotografia noturna de Gian Filippo Corticelli (O Segredo de Nápoles) ajudam a conexão atmosférica do espectador com o filme, mesmo em seus momentos de fluidez questionável. Com um final não necessariamente comum para filmes de máfia e um destino curioso para o personagem principal, a obra nos convida a olhar o submundo do crime organizado com outros olhos. Um exercício que termina solidamente acima da média, mesmo com os seus erros de construção e desenvolvimento.

Nada Santo (Lo Spietato) – Itália, França, 2019
Direção: Renato De Maria
Roteiro: Renato De Maria, Valentina Strada, Federico Gnesini
Elenco: Riccardo Scamarcio, Sara Serraiocco, Alessio Praticò, Alessandro Tedeschi, Marie-Ange Casta, Sara Cardinaletti, Angelo Libri, Adele Tirante, Michele De Virgilio, Aram Kian, Sebastian Gimelli Morosini
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.