Crítica | Nadal & Federer, de Antonio Arenas e Rafael Plaza

Ao contrário de um significativo número de fãs de tênis, não sou torcedor inveterado nem de Rafael Nadal nem de Roger Federer. Mas, quando me deparei com o livro escrito pelos espanhóis Antonio Arenas e Rafael Plaza – Nadal & Federer: A História da Rivalidade Mais Importante do Tênis –, meu interesse foi imediato. Alguns motivos são um tanto óbvios, haja vista se tratar dos maiores vencedores de Grand Slam da história do tênis e que tenho a sorte de poder acompanhar todos os anos no circuito. Todos os que puderam assistir a essas duas lendas em quadra poderão contar às futuras gerações tudo o que viram. Outro motivo, menos óbvio, mas que também fomentou meu interesse, foi o fato de que a rivalidade entre Nadal e Federer já está praticamente escrita. O suíço ruma para o fim da carreira e é notório que só restam algumas páginas para que essa história chegue ao seu desfecho. Esse fator é o mesmo que torna biografia de Novak Djokovic (lançada em 2013) um tanto precoce para o meu gosto, mesmo eu sendo um de seus fãs mais entusiasmados.

Fato é que me pareceu bastante oportuna a ideia de contar a história de uma rivalidade tão importante e atual, entre duas figuras máximas do Olimpo do tênis. Mas preciso dizer que a condução narrativa dos jornalistas espanhóis não me agradou como eu esperava. Arenas e Plaza acompanham Nadal e Federer em toda a temporada de 2017 e início da de 2018, concluindo seu relato cheio de paixão com o suíço, apelidado pelos fãs de O Leão da Montanha, atingindo o posto de número 1 do ranking da ATP aos 36 anos. Ambos vinham de maus resultados e contusões na temporada de 2016 e todo o livro é a narrativa de sua ascensão de volta ao topo do esporte. Até aí, nenhum problema. A questão é que Nadal & Federer escolhe partir dos momentos mais recentes da carreira dos dois tenistas para fazer flashbacks até os jogos em que se enfrentaram nos mesmos torneios. Assim, as finais entre eles no Aberto da Austrália e no Miami Open em 2017, por exemplo, motivam os autores a voltar às icônicas decisões em 2009 (na Austrália) e em 2004 (a primeira de todas, em Miami).

O ritmo inicial que alcançam é extremamente bom. Sustentá-lo se mostra a grande fragilidade do livro. Fica claro que os jornalistas enfocam muito mais a temporada de Nadal em detrimento da de Federer. Acompanham todos os torneios que disputou em 2017, incluindo a temporada de saibro em que Roger não jogou. E é nesse ponto que o livro começa a patinar. Federer praticamente se ausenta nos capítulos envolvendo Monte Carlo e Madri. Reaparece com algum destaque apenas nos flashbacks de Roma e Roland Garros, onde as páginas da história de sua rivalidade com o espanhol são bem mais interessantes e generosas. Mas, em uma obra que traz em seu título “A História da Rivalidade Mais importante do Tênis”, qual o sentido de dedicar dois capítulos inteiros a torneios em que a dita rivalidade pouco se fez presente? Nesses momentos, Nadal & Federer se torna bastante problemático por não entregar aquilo que promete. Parece mais imbuído em narrar em detalhes toda a temporada de 2017 de Nadal do que em reviver com intensidade todos os grandes momentos da rivalidade entre os dois gigantes das quadras.

A falha não acontece apenas nos capítulos dedicados ao saibro europeu. Em “A Grama é Suíça”, o torneio de Wimbledon de 2017 novamente enseja uma retrospectiva a alguns dos confrontos mais importantes entre o suíço e o espanhol na grama sagrada. Mas é incompreensível que o capítulo se alongue tanto em questões menores sobre os gostos e a personalidade de Nadal e reserve apenas modestíssimos parágrafos para aquele que todos apontam como o maior jogo dessa rivalidade e, possivelmente, um dos grandes jogos da história do tênis – a final de Wimbledon de 2008. Não consigo aceitar que o episódio em que o tenista de Mallorca é apresentado a Robert de Niro em um restaurante londrino ganhe maior destaque que todas as batalhas monumentais que os dois tenistas travaram na quadra central do All England Club. Mais despropositado ainda é o longo capítulo sobre o Us Open de 2017, torneio no qual os dois jamais se enfrentaram.

Novamente, fica claro o intento de Arenas e Plaza – glorificar a conquista de Rafael Nadal naquele ano sobre o piso rápido do Arthur Ashe Stadium. É realmente bom e cheio de emoção todo o relato que se faz acerca da reabilitação dos dois gênios, combalidos e declarados como derrotados um ano antes. O problema é que, em muitos momentos, a paixão evidente dos jornalistas espanhóis pelo tenista da casa acaba atropelando o propósito inicial de reviver a rivalidade em si. O leitor, em vez se sentir toda a atmosfera das homéricas batalhas físicas e mentais que Roger Federer e Rafael Nadal travaram dezenas de vezes, acaba bombardeado por uma série de informações secundárias, como o filme predileto do espanhol ou as dimensões da mansão do suíço em sua terra natal. Isso para não citar a insistência de relatar a paixão de Nadal pelo Real Madrid ao longo de todo o livro, mesmo quando o fato não tinha nenhuma relevância dentro do capítulo.

O livro só se salva parcialmente por conter alguns relatos bastante preciosos e algumas histórias realmente boas acerca dos dois tenistas. O choro tão emocionado de Nadal, ao ver de casa o seu rival conquistando o almejado título no saibro parisiense, é um atestado inequívoco do espírito nobre do espanhol. O diálogo de Federer com uma criança em Roterdã, em que, perguntada sobre seu herói favorito, ela responde prontamente “você!”, também dimensiona bem a grandeza do suíço enquanto exemplo de talento e fidalguia. O livro também é muito feliz quando abraça a oportunidade de desfazer alguns mitos sobre os dois protagonistas. A concentração absoluta do espanhol dentro da quadra não encontra par em sua desatenção no dia-a-dia, perdendo até as credenciais dos torneios. Também o controle emocional inabalável do suíço, eleito como o tenista com melhor conduta desportiva pelos colegas por treze anos, em tudo se opõe à sua rebeldia juvenil, quando fora expulso até da própria federação de tênis.

Mas o momento mais interessante do livro, em minha opinião, fica a cargo de uma auto-análise. Nadal reflete sobre os rótulos que sempre tentaram colar sobre ele e Federer. O suíço como o talentoso e ele como o esforçado. O tenista espanhol é certeiro quando expande o próprio conceito de talento. Se um jogador o tem para bater forehands precisos, outro o terá para se movimentar por toda a quadra sem cessar. Se um é um exímio voleador, o outro terá o talento de imprimir o máximo de peso a seus golpes, tornando seu jogo um verdadeiro pesadelo ao adversário. É de uma sabedoria comovente que Nadal consiga ver para além do que os próprios comentaristas de tênis insistam em repetir. Quando Nadal & Federer sabe tirar proveito desses momentos no escopo de seu relato, Antonio Arenas e Rafael Plaza acertam em cheio. Mas quando se deixam trair pela própria paixão, acabam entregando uma obra visivelmente aquém daquilo que narra – a rivalidade que marcou uma Era não somente no tênis, mas no esporte.

Nadal & Federer: A História da Rivalidade Mais Importante do Tênis – Espanha, 2018
Autores: Antonio Arenas e Rafael Plaza
Editora: Planeta
Número de páginas: 243

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.