Crítica | Nana-Neném: Uma História de Horror Amazônico, de Newton Rocha

O horror e o fantástico não são novidades no bojo da história da literatura brasileira, mas convenhamos, é uma fusão de gêneros menos comum no mercado editorial. Em Nana-Neném: Uma História de Horror Amazônico, adentramos numa zona bem ambientada entre os dois gêneros, com pitadas de aventura e presença do horror ecológico, isto é, narrativas com temática que deflagram os embates entre seres humanos, geralmente destruidores, e as forças da natureza, geralmente em reação ao descaso constante com os seus atributos. Aqui, o horror e a revanche surgem por meio de gigantescos e malignos jacarés. Da espécie jacaré-açu, por sinal, animal com alto grau de periculosidade diante do homem.

Antes de adentrar em termos literários, cabe uma breve descrição da criatura que serve como alegoria para o horror nesta narrativa. O jacaré-açu, bastante presente em relatos jornalísticos sobre a trágica interação em situações incomuns com os seres humanos, é uma espécie de jacaré exclusiva da América do Sul. Tido como predador de topo da cadeia alimentar, tais animais predam onças, jiboias, pumas, sucuris, dentre outros. A espécie quase tornou-se extinta, haja vista o valor comercial de seu couro e de sua carne. Talvez por isso tenha se rebelado ferozmente no conto em questão, calculadamente dramático e com boas doses de suspense e horror.

A história retrata uma família nissei responsável pela administração de uma madeireira em plena selva amazônica. Focada em Amaya, esposa de Yasuichi, um dos representantes do local, ela segue ao local para buscar o filho Ichigo. Ao chegar, percebe que todos desapareceram misteriosamente. A chuva torrencial aumenta a sensação de insegurança e medo. Paulista de procedência oriental, Amaya vai contemplar os horrores da natureza, rebelada contra as ações da multinacional Akusai. Primeiro, ela e o motorista Sérgio sentem que algo está muito errado. Logo mais, são abordados por animais selvagens que destroçaram todos os funcionários da empresa.

Desesperados, o clima mescla aventura e horror em boas doses. A kombi que guia a dupla é sacolejada, atacada por animais descritos de maneira bem macabra pelo narrador. Dentre as passagens, temos: “conforme o engenheiro se arrastava para longe de sua casa, uma cena grotesca o paralisou: algo havia arrancado as pernas do japonês”. Noutros momentos, “outros olhos escarlates cintilantes se abriram nas sombras de todo o centro madeireiro”, “um estranho e gutural bramido ensurdecedor encheu o ambiente, abafando o som da chuva”, “a criatura parou ao lado dos engenheiros e abriu sua bocarra, dois arcos mortais de dentes afiados”, etc. São descrições bem pontuais de puro horror. E o melhor: funcionam bastante.

Dentre os elementos estéticos que merecem destaque, podemos destacar a importante sonoridade do conto, recurso responsável por tornar mais da primeira metade da história, um relato assustador e convincente, bastante cinematográfico. Com traços folclóricos brasileiros, percebemos adiante que há muito mais além dos jacarés-açus que dominam a cena. A própria mãe natureza aparece de maneira personificada, a afirmar que não adianta orar, pois ali é um local onde o “deus cristão” não interfere. Neste momento, os personagens já sabem mais ou menos os seus respectivos destinos, pois Sergio, motorista da kombi, repete constantemente que tudo aquilo é vingança da natureza pela ação do homem, discurso urgente que será pormenorizado à seguir.

Escrito por Newton Rocha e publicado pela Kindle Edition em 2016, Nana-Neném: Uma História de Horror Amazônico, só não é melhor por causa de dois detalhes: os constantes erros ortográficos na diagramação, na verdade, erros de digitação, pois no corpo do texto as mesmas observações surgem grafadas adequadamente, o que denota apenas um problema de revisão. O segundo problema é a urgência com o tema “crítica social” e as explicações dos próprios personagens para os fenômenos que presenciam. É um recurso comum, parecido com algumas narrativas hollywoodianas e suas câmeras intrometidas, a explicar o óbvio. Neste caso, é preciso deixar que o público interprete as mensagens. Assim a leitura fica mais intrigante e desafiadora.

Com escrita inspirada no estilo Lovecraft, o conto é um tratado de horror ao estilo brasileiro. Mestre em Literatura de Língua Inglesa, seus textos dialogam com temáticas ligadas ao horror, ficção científica e fantasia. Só precisaria mesmo dos breves ajustes comentados para ser ainda melhor. Ademais, o ataque de jacarés presente nas primeiras páginas não foge nem um pouco da sensação de horror que nos toma em alguns acontecimentos da vida real. Em 2010, uma menina morreu em Rondônia, após ser atacada por um jacaré-açu enquanto brincava às margens de um rio com os seus irmãos. Outra notícia aterrorizante é a do pescador de 75 anos que teve a sua mão dilacerada numa região próxima ao Rio Madeira, a mais ou menos seis horas de Porto Velho.

Em março de 2019, o Brasil tornou recordista em espécie de jacarés, ganhando até dos Estados Unidos, China e Noruega, locais conhecidos por sua vasta presença destes répteis. Frequentemente citados na mídia jornalística, recentemente encontraram um desses “bichos” debaixo de uma ponte na região do Distrito Federal, aparição com muito potencial para se tornar lenda urbana, bem como narrativa de horror e aventura, isto é, o rentável horror ecológico, haja vista a extensa lista de produções sobre o tema.

E mais: na atual era que vivenciamos, por exemplo, tamanho o descaso estatal e de parte da sociedade civil com zonas como a região amazônica, só para breve ilustração, a probabilidade de subtexto conectado com os problemas de ordem política e ambiental são grandes, o que não impede que novas histórias de horror ecológico, muito comuns na cinematografia estrangeira, também façam parte da nossa história narrativa, independente que o formato seja literário, cinematográfico, televisivo, etc. Histórias com animais predadores em confronto com humanos são adornadas por muitos clichês, no entanto, quando bem trabalhados, conseguem dar conta de entregar algo interessante para nos debruçarmos enquanto entretenimento e crítica social.

Nana-Neném: Uma História de Horror Amazônico (Brasil, 2016)
Autor: Newton Rocha
Editora: Kindle Edition
Páginas: 50

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.