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Crítica | Não Há Mal Algum

por Iann Jeliel
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Não Há Mal Algum

Se o homem foi condenado à morte, ele deve ter feito algo para estar ali. Não Há Mal Algum

Ao se deparar com as quatro histórias contadas em Não Há Mal Algum, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2020, é bem possivel de imaginar que elas se tratam de outras realidades de um mesmo homem, tamanha a semelhança que encontra os dilemas de seus quatro protagonistas para lidar com peso da “responsabilidade” de matar alguém. O diretor iraniano Mohammad Rasoulof usa sua câmera como denuncia a política carcerária de seu pais de origem que abraça a pena de morte como a máxima sentença, mas pela sua articulação cinematograficamente irretocável, a temática transcende o ambiente especifico que lhe é inicialmente concebido e atravessa uma universalização dramática ao questionar essa moral sobre a perspectiva humana de quem precisa fazer o serviço sujo, algo poucas vezes demostrado no cinema.

O primeiro dos contos é aparentemente o mais deslocado dos demais, pois sua construção dramática é quase como uma antítese a frontalidade das próximas. Acompanhamos a rotina de um homem, que leva uma vida boa, socialmente falando. Consegue pagar as contas regularmente, possui uma relação saudável com a esposa, é atencioso com a mãe e carinhoso com a filha, lhe dando até uns mimos de vez em quando. Contudo, entre olhares distantes e uma fala seca, é possível enxergar que algo o atormenta. O tal “algo”, é revelado no twist ao final do capítulo que dará o start a discussão. Por ter uma condução bem introspectiva, talvez falte esse capítulo uma abordagem mais direta do tormento ao personagem, com pistas um pouco mais escancaradas, pois fica a impressão de que ele só está ali para introduzir a temática, o que acaba desvalorizando a história isoladamente, partindo dessa vista mais universal que obra consegue atingir como um todo.

Contudo, ao olhá-lo sobre a lente mais especifica e local, fica claro que é uma ironia sobre a recompensa de “boas” condições de vida prometidas a quem pacificamente serve ao sistema. Ainda assim, isso só fica perceptível quando se tem o panorama dos outros contos, onde outros personagens são chantageados a fazerem o mesmo serviço de executor sobre uma oferta de falsa liberdade a constituir uma família. Creio, que o filme poderia ter, ao seu final, retomado esse primeiro conto e proposto algo novo ali que fechasse o raciocínio do filme sem deixá-lo tão à mercê de complementos implícito por outros. Falo isso porque os dois consecutivos funcionam sem essa dependência e se completam entre si na mesma ideia de modo potencializador. O último, apesar de melhor, também se encaixa nessa problemática de desprendimento, uma vez que cria o mesmo tipo de mistério sobre a origem do drama, que a está altura já havia ficado claro qual seria.

Fora que ele sugere uma conexão com um dos outros capítulos que confunde um pouco o espectador e o pode fazê-lo acreditar numa conexão macro entre as histórias para além da temática, o que não se concretiza. De qualquer forma, esse último capítulo consegue fechar muito bem a logica interna da crítica específica e metaforiza ela num centro de interesse que proporciona a universalização da temática. Algo planejado pelo primeiro diálogo inicial do segundo capítulo, o meu favorito, por demostrar versatilidade da mão do cineasta para cinema de gênero, misturando drama na ação com suspense, motivada por uma premissa de comédia romântica. A expositividade e urgência do primeiro diálogo  combinará com a ação do personagem que não aceitará servir a penitenciaria ao fazer a execução que eticamente não acredita.

A sequência é filmada sobre vários planos longos extremamente precisos que valorizam o suspense no “ao vivo”, onde qualquer intempérie pode acontecer e mudar completamente o destino do personagem de executor, para executado. Enquanto esse, luta para conseguir ver sua amada sem renunciar à sua ética, o outro do terceiro capítulo abriria a mão dessa ética para conseguir ver a sua, mas consequentemente, acabaria sofrendo da mesma forma. É um espelhamento tão bem feito que faz com que esses dois capítulos realmente se comuniquem como se realidades distintas de um mesmo homem, o primeiro que arriscou confrontar, o outro que não confrontou. Fora que em diretrizes estruturais, impede que o mesmo tipo de “mistério” implementado sobre as origens do problema sejam direcionados para entre os personagens apenas e não, para nós como público.

Dessa forma, mantém-se a frontalidade do drama do capítulo anterior e a torna ainda mais impactante pensando na premissa do arco, onde literalmente, a celebração do nascimento de uma vida converge com a perda precoce de outra. É capítulo em que Não Há Mal Algum demonstra sua maior força dramática ao tema, tanto em fase específica ao ambiente quando aponta o dedo para a obrigatoriedade de treinamento militar no Irã, como em fase de ética universal, por explicitar que esses traumas não poderão, nunca, serem desviados. Qual é a diferença entre aquele que é executado por crime de assassinato, para quem os executa-os? Afinal, seria assassinato do mesmo jeito não? Quando se humaniza o outro lado da moeda, se explicita ainda mais um contexto geral do ciclo de violência humana, onde as tentativas de controlá-lo, só o descontrolam para cada vez mais violência.

Não Há Mal Algum (Sheytan Vojud Nadarad / There is No Evil | Alemanha – República Tcheca – Irã, 2020)
Direção: Mohammad Rasoulof
Roteiro: Mohammad Rasoulof
Elenco: Baran Rasoulof, Mohammad Seddighimehr, Mahtab Servati, Mohammad Valizadegan, Ehsan Mirhosseini, Zhila Shahi, Kaveh Ahangar
Duração: 151 minutos

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