Crítica | Não Olhe (2018)

“Nós temos uma garota estragada. Ela não tem amigos.”

Com a nossa imagem refletida em um espelho, enxergamos a nós mesmos. Ou, ao menos, uma versão que temos de nós mesmos, nossos olhares particulares sobre a figura duplicada, mas invertida. Consequentemente, um pensamento do eu acerca de si. Ora uma visão positiva, ora uma visão negativa, um reflexo humano pode ocasionar muitos sentimentos, desde a frustração pessoal até a vaidade incontrolável. “Isso não é cachimbo”, diz um certo quadro de um cachimbo. Então, por que aquela imagem é um ser humano, e não apenas uma projeção, tão frágil por não ser a vida por si só. A mesma coisa acontece com o olhar dos outros, uma ilustração do que lhe é externo e não o que lhe é externo propriamente dito. Do que sofre Maria (India Eisley)? Justamente do olhar.

Não Olhe, em seus momentos mais coerentes, até que consegue pensar as aparências dos seres humanos como farsas. O longa propõe um contraponto entre os pensamentos oriundos do ser, sobre quem ele se aparenta, com as verdades do ser, sobre quem ele é. Será que se definem pelas suas deformações, se é que possuem deformações? Assaf Bernstein não está mexendo, porém, em territórios nunca explorados. Os horror já brincou com reflexos em espelhos anteriormente. Mas existe uma premissa realmente potente nesse projeto do autor, pensando o olhar do ser humano como sendo o seu principal antagonista. Os nossos pensamentos internos como sendo o motor para uma guinada impulsiva – então, aparente – que não é de fato procurada.

Uma pena que a premissa estagne-se após conquistar o interesse do espectador, diante do estabelecimento do contexto aos personagens. Termina principiando possíveis caminhos críticos mais competentes à obra, porém, não os executando. Esses contornos mais profundos se confundem com um enredo fantasioso em demasia, que explora, contrariando áreas promissoras, uma ordinária “possessão” espiritual, comum aos filmes de horror. Não Olhe encara como sendo verdadeiramente séria uma jornada um tanto quanto risível na verdade. Surge a mãe de Maria, na proposta de Bernstein, como uma personagem que é supostamente importante, apesar do longa-metragem ordenar para o papel do pai, interpretado por Jason Isaacs, uma função mais engajante.

Não Olhe também prefere, ao mesmo tempo, recorrer aos caminhos mais fáceis no núcleo escolar que norteia o cotidiano de Maria. Os personagens são estereotipados e unidimensionais. O mundo, realmente machista – e que fomenta um certo olhar nocivo ao corpo da mulher -, é explorado, contudo, de um modo maniqueísta, retirando um pouco a credibilidade e a verossimilhança, que são necessárias à obra. Já quando a jovem começa, nos primórdios de uma reviravolta na trama, enxergar uma versão de si mesma no espelho, uma versão com vontades escondidas, o filme engrena. Não Olhe poderia, portanto, ser um dos horrores mais substanciais em como explora a mentalidade humana e as nuances envolvidas em termos de conflitos internos, mas prefere o raso.

Bernstein, em uma outra instância, cisma com a nudez da protagonista – problematicamente, por ser uma nudez gratuita. Em contrapartida, reparem como a última cena em que a garota aparece nua é mais chocante, por entrar numa zona narrativa com real intenção dramática. Já as outras renegam possivelmente colocar Maria para se examinar  – um narcisismo entristecido ou um auto-julgamento -, pensar o que ela vê e o que os outros vêem da sua existência. O cineasta, por fim, até que emprega um comando mais requentado na sua direção. Cinematograficamente, percebe-se tons soturnos no conjunto para, juntamente com a ambientação invernal, formar uma atmosfera desconvidativa, como os espelhos. Mas tudo é, ironicamente, só aparência para uma semi-paródia.

Não Olhe (Look Away) – Canadá, 2018
Direção: Assaf Bernstein
Roteiro: Assaf Bernstein
Elenco: India Eisley, Jason Isaacs, Mira Sorvino, Penelope Mitchell, Harrison Gilbertson, John C. MacDonald, Kristen Harris, Kiera Johnson, Michal Bernstein, Ernie Pitts, Adam Hurtig
Duração: 103 min

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.