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Crítica | Não Olhe Para Cima

O melhor clickbait de 2021.

por Kevin Rick
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Imagine um filme de desastre misturado com sátira política e você começa a definir Não Olhe Para Cima, a mais nova obra do cineasta/roteirista Adam MckayO diretor usa o famoso subgênero de catástrofe globais do sistema hollywoodiano, normalmente povoado por patriotismo estadunidense e heróis de colarinho azul – fantasticamente satirizado com a figura militar machista e preconceituosa interpretada por Ron Perlman -, vide Armageddon Independence Day, para tocar em temas como negacionismo, o estado disfuncional da política e da mídia, alienação social e a cultura online superficial e facilmente distraída das redes sociais. O diretor parece querer almejar a obra-prima de Dr. Fantástico em um contexto contemporâneo, mas acaba ficando mais qualitativamente próximo de Idiocracia, o que não é um demérito, apenas uma constatação que seu filme está longe de ser uma sátira de excelência como a crítica de Kubrick ao militarismo e à guerra, mas que contém uma boa dose de risadas na chacota da estupidez humana.

Primeiramente, acho interessante como McKay conversa com sua denúncia social na maneira como ele anuncia sua obra. Não Olhe Para Cima é um clickbait com seu elenco estelar, desde seus protagonistas ganhadores de Oscar até os coadjuvantes que embarcam lendas do Cinema, comediantes e celebridades do meio musical. E então temos a premissa absurda de dois astrônomos sérios (Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence) que passam muito tempo tentando convencer seu governo, povo e a mídia de que há um cometa voando em direção à Terra. McKay quer chamar a atenção do público da maneira mais ampla e superficial possível, tal qual é a linha mercadológica da atual forma de consumo. Não existe espaço para diálogo, comunicação inteligente, pensamento crítico e discussões aprofundadas. Tudo é propaganda. Se um vídeo do Instagram não prende sua atenção em 5 segundos, ele é passável. Se um post tem mais de um parágrafo, ele é longo. Se não gostamos de alguém, ele vira meme e/ou é cancelado. Se uma pessoa não te interessa, passe para o lado.

É realmente bacana como ele incorpora esse tom superficial da dinâmica social contemporânea na própria linguagem da obra. Muitas das discussões envolvidas no enredo são extremamente explícitas. Não existe muita margem para complexidade dos assuntos. Tanto que DiCaprio e Lawrence precisam explodir para explicar o que é evidente – e os dois são espetaculares em suas respectivas cenas, com um mix de raiva, humor e liberdade.  McKay está bem mais interessado em ser óbvio do que perspicaz. E no meio desse lamaçal de idiotice que vivemos, testificar o óbvio virou rotina – crítico cinematográfico que o diga, tendo que explicar em quase todo texto o que é opinião.

Dessa forma, o autor retorna às suas origens de O Âncora, direcionado para uma sátira escrachada e que preza o humor ridículo, do que sua pegada de dramédia, tom educativo e auto-importância de A Grande Aposta Vice. Em ambos os estilos de McKay, o artista tem um dom para traduzir ideias complexas em situações cômicas simplistas, mas, aqui em Não Olhe Para Cima, o diretor encontra o ápice do absurdo ao emular a realidade com exageros que são assustadoramente autênticos. A obra tem um tom leve e até de farsa em sua aparente ilógica, especialmente no ato inicial, mas à medida que a narrativa avança dentro da premissa maluca, a experiência ganha uma dimensão trágica em sua evidenciação de dinâmicas de poder, fama e comunicação humana. O desfecho chega a ser desolador, como falarei mais à frente.

A narrativa da obra é basicamente um encadeamento de blocos que vão e voltam e se retroalimentam da estupidez um do outro, passando pela administração meio-Trump com Meryl Streep interpretando uma versão feminina e caricata do ex-presidente dos EUA, enquanto Jonah Hill diverte horrores como o filho malcriado e chefe de gabinete; indo também pela clara paródia da Fox News e da mídia americana com Cate Blanchett e Tyler Perry incorporando dois jornalistas falsos – acho intrigante como ele também critica a dissimulação de jornais clássicos em um núcleo infelizmente rápido; até o sarro com milionários egoístas e fingidos com Mark Rylance combinando elementos de Steve Jobs, Elon Musk e Mark Zuckerberg para um efeito irritantemente cômico. Também temos ótimas linhas tangenciais com celebridades vazias, incluindo ótima participação de Ariana Grande, e uma surpreendente trama sobre párias com Lawrence e Timothée Chalamet.

A linguagem audiovisual frenética de McKay está a todo vapor para comprovar o caos. O filme é cheio de cortes rápidos, transições narrativas que trabalham como tiques nervosos, imagens de arquivos da natureza – com um subtexto claro sobre mudanças climáticas e ambientalismo – e também de comentários de redes sociais para dimensionar o efeito manada da internet. É uma montagem extremamente apressada, até porque tem uma quantidade gigantesca de personagens, referências e dramas/comédias para inserir no mosaico do absurdo. Novamente, McKay usa a linguagem cinematográfica para emular a realidade, afinal, o que é internet hoje se não um incontável número de conteúdo vazio?

O meu problema é como todas essas obviedades e superficialidades restringem a sátira até certo ponto. Em determinados momentos, acho o filme seguro dentro de suas críticas, como que batendo em cachorro morto com problemas políticos, midiáticos e sociais que já fazem parte do senso comum. Mas, novamente, testificar o óbvio virou rotina, então consigo ver problemas com o humor em momentos levianos, ao mesmo tempo que enxergo o valor nisso. Partindo de uma interpretação bem pessoal, eu acho que McKay se resolveria melhor com um elenco de comediantes, como seus parceiros Will Ferrell, Steve Carell e Paul Rudd, que têm mais habilidade para criar personagens, maneirismos e improvisação dentro do ridículo. Vejo grandes artistas como Streep, Lawrence e Chalamet sem esse manejo de timing do humor. Notem como Jonah Hill, o único comediante da fita, dá um banho de loja em quase todo mundo. A única exceção seria o DiCaprio que é um ator tão bom, mas tão bom, que ele personifica ansiedade e constrangimento cômico com uma excelência indescritível – aquela cena do banheiro vale pelo menos um Globo de Ouro!

Essa minha crítica paradoxal ao teor superficial da obra só não é mais negativa porque McKay entende que a premissa tem um limite. A obra começa a cansar um pouquinho em meio ao frenético e ao óbvio, e poderia facilmente se esvaziar até o tédio conforme a narrativa se aproxima do desfecho, mas o diretor sabe segurar a experiência ao diluir bons dramas, especialmente para os personagens de DiCaprio e Lawrence, fazendo uma dieta visual de planos-detalhe, close-ups dramáticos e momentos familiares/amorosos com uma delicadeza surpreendente – a cena final da mesa é de um impacto emocional que eu não estava esperando. Além disso, os dois protagonistas têm ótimos arcos narrativos. Ele como um “ingênuo” que vai sendo corrompido pelo sistema, no que acredito ser a crítica mais inteligente do filme. E ela como uma bússola moral e esse reflexo dos párias que entendem melhor o mundo e se importam mais do que os “normais”; os que aderem à vida “modelo” ordinária – percebam como a cena da oração é inteligentemente subversiva nesse sentido.

Não Olhe Para Cima é profundamente perturbador em seu humor negro absurdo que descama bastante podridão humana. Não acho uma sátira perfeita e super inteligente como tenho visto ser caracterizada, até porque McKay é extremamente autoconsciente em seguir uma linha de burrice, exageros e ridículo para fazer um reflexo da sua própria crítica. Ele acaba caminhando uma linha tênue entre apontar o dedo para o superficial e ele mesmo ser superficial no seu humor seguro. Mas existe um cuidado para criar valor nisso, especialmente no zelo da comédia com bons toques dramáticos. Reflexivo em suas obviedades e tematicamente global em sua narrativa focada no meio estadunidense, Não Olhe Para Cima nos apresenta uma gama de paralelos para nossa própria administração, meio de comunicação, círculos de amizade e a nossa relação íntima com a tecnologia. Com um desfecho ultra-cínico, além de totalmente trágico, Adam McKay nos dá uma sátira que é mais catastrófica que a grande maioria de filmes de desastre.

Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up) | EUA, 24 de dezembro de 2021
Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay, David Sirota
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Rob Morgan, Jonah Hill, Mark Rylance, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman, Ariana Grande, Scott Mescudi, Cate Blanchett, Meryl Streep
Duração: 138 min.

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