Crítica | “Não Tem Bacanal Na Quarentena” – Baco Exu Do Blues

Diante da crise pandêmica que vivemos, o mundo da música optou por escolhas de escape: shows online feitos no conforto da casa de cada artista, além de músicas e álbuns sendo lançados para serem apreciados durante a quarentena. Preso em casa em decorrência da pandemia, Baco Exu do Blues – o rapper baiano que explodiu em popularidade nos últimos anos – resolveu presentear os fãs com um EP de 9 músicas, todo feito em apenas 3 dias durante a quarentena. Assim nasce Não Tem Bacanal Na Quarentena, com o título fazendo referência a seu aguardado álbum, Bacanal, marcado para lançamento no segundo semestre.

Jovem Preto e Rico abre o álbum com um pé na porta com beats pesados e agressivos que já ditam o tom da obra, mesclando crítica social e celebração. Tudo Vai dar certo, com uma base um tanto jazzística, chega logo na sequência, contendo Baco explorando seus dramas pessoais em versos inspiradíssimos, conseguindo soar alarmante ao mesmo tempo que soa bem esperançoso. Ela é Gostosa Pra Caralho mostra o lado mais R&B e romântico de Baco, que se destaca pelo bom instrumental e produção caprichada, junto a uma ótima interação do rapper com a cantora Maya, o que faz relevar qualquer despretensão da letra.

Algo interessante presente no EP é a demonstração do excelente papel que Baco pode exercer como produtor. Um time relativamente muito pouco conhecido recebe holofote através da curadoria do rapper. O maior exemplo fica com Dedo no Cu e Gritaria, talvez a melhor faixa do álbum, onde Baco simplesmente se afasta do microfone e deixa o palco reservado ao trio formado por Young Piva, Celo Dut e Vírus. Com um beat de groove contagiante e que surpreendentemente se encaixa de forma perfeita aos diferentes flows dos três rappers, aqui são desfilados versos inesperados, repletos de metáforas deliciosamente bizarras (“Meu aliado é um demônio vestido de anjo que caga na boca do mundo e cheira o odor do mundano”).

Entre as colaborações também vale destacar o doce R&B da voz de Lellê em Preso em Casa Cheio de Tesão, ainda que o refrão um tanto barato torne esta a faixa mais fraca do álbum. Aisha dá um excelente tom árabe à ótima base cheia de tambores de Sol Mais Quente, o que ajuda a elevar Baco a um outro nível quando este surge indomável com alguns versos brilhantes (“Coronavírus me lembra escravidão/ Brancos de fora vindo e fudendo com tudo”). Dactes entrega ótimos versos junto a Baco na ótima Tropa do Babu, que usa o exemplo do participante do Big Brother Brasil 2020 pra lançar comentários sociais bastante sérios sem perder a sagacidade e exaltando ao máximo a cultura negra.

Amo Cardi B e Odeio o Bozo fecha o EP seguindo uma receita bem parecida, sendo direta e crua sem perder o bom humor, abordando um tema tão pesado quanto a atual crise pandêmica e fazendo críticas diretas ao governo (a icônica “Cardi B fez mais que o presidente” é candidata a versos do ano) por cima de uma base típica do funk carioca. Baco fez uma trilha sonora apropriada para a quarentena brasileira, completamente sem amarras, sem censuras ou papas na língua. É um verdadeiro respiro de liberdade, luta e esperança em meio a tantas crises que vivemos.

Aumenta!: Dedo no Cu e Gritaria
Diminui!: Preso Em Casa Cheio de Tesão

Não tem bacanal na quarentena
Artista: Baco Exu do Blues
País: Brasil
Lançamento: 30 de março de 2020
Gravadora: independente
Estilo: Hip-hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.