Home FilmesCríticas Crítica | Nardjes A. (2020)

Crítica | Nardjes A. (2020)

por Michel Gutwilen
162 views (a partir de agosto de 2020)

Curioso é o caso do filme que parece funcionar melhor quando não está focando na protagonista que carrega o seu título e quando também se afasta de uma certa tendência autoral de seu diretor — e quem diz isso é um grande entusiasta da política dos autores e também fã de Karim Aïnouz. Mas o que então seria o autorismo de Karim? Um cinema sobre pessoas perdidas, tanto mentalmente quanto espacialmente, em busca de uma identidade e vagando por espaços que definitivamente não são suas casas. Ou seja, uma filmografia do nomadismo e de imigração (o que não só se dá em ambientes macros, mas também no micro, como é o caso de Alessandra Negrini perdida pelas ruas do Rio de Janeiro no sensacional O Abismo Prateado), o que curiosamente reflete essa dubiedade de um diretor brasileiro que também busca suas origens argelina. 

Eis que todas essas características parecem surgir em Nardjes A., com Karim querendo contar a história narrativa desta mulher, mas é justamente esse personalismo que despotencializa o filme político que o diretor quer realizar. Engraçado que ele até começa com um plano do povo, de cima, como um único organismo, além de encerrar com um colagem de diferentes argelinos protestando, mas não é esse o caminho seguido por boa parte do longa. Não se trata de uma defesa daquele puritanismo eisensteiniano de que um filme revolucionário não pode ter um protagonista (para Eisenstein, o cinema individualista é o da burguesia). A questão é que há casos e casos — uma outra obra no Festival Olhar sobre ebulição social que possui um protagonista bem definido e isso funciona é Cabeça de Nêgo.

Não há problemas a priori com narrações subjetivas de ares poéticos, não se trata de uma implicância com isso. Mas, o que exatamente significa acompanharmos, depois de uma longa sequência extremamente intensa de protestos, Nardjes ir a um bar e trocar risadas? Karim parece ter como prioridade este seu cinema mais focado no ser em busca de uma identidade, que, nesta situação, não funciona, porque isso acaba indo na contramão de todo o êxtase social provocado anteriormente. Quase como se a admissão por parte do cineasta que tudo acaba em festa.

Aliás, é precisamente por isso que Nardjes A. mais funciona quando a câmera está no meio do protesto, nas costas de Nardjes e a protagonista é menos uma pessoa individualizada e mais uma espécie de receptáculo vazio, de fácil identificação, no qual nos transportamos para dentro daquele movimento. Assim sendo, é um filme que funciona melhor quando Karim esquece que tem uma protagonista a seguir, interessando-se pela própria manifestação em si, ou até lhe enquadra, mas seguindo uma lógica de cinema gameficado no qual o espectador se integra à narrativa. 

Destacados tais problemas, agora há de se ressaltar quando Nardjes A. brilha, por meio de momentos impactantes. É um cinema que está diretamente na rua, no meio do povo, vibrando com ele, o som aqui possui um elemento realmente importante que faz parecer mais um estádio de futebol do qualquer outra coisa. Sente-se a sintonia no meio daquela heterogeneidade de argelinos em prol de um sentimento que quer mudar o status quo vigente. Muito interessante é um momento específico que se passa dentro do túnel no qual diferentes grupos vão cruzando o caminho da câmera e dão continuidade aos cânticos entoados por Nardjes. De mesmo modo, há um interessante contraste gerado pelas ruas pulsantes lotada de pessoas, durante o dia, clamando por revolução e, posteriormente, durante a noite, esses mesmos lugares estão vazios, agora não ocupados por pessoas, mas apenas sirenes e carros de polícia, agentes repressivos estatais. Se Nardjes dentro dos protestos era parte de uma forte organismo impregnado pelo otimismo e o senso de mudança, na calada calada da noite ela é apenas um única cidadã, que sozinha está indefesa e frágil. No fim, ironicamente, as próprias imagens acabam falando que o cinema individualista aqui não era a melhor opção.

Nardjes A. (Argélia, França, Alemanha, Brasil, 2020)
Direção:
Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz
Elenco: Nardjes Asli
Duração: 80 mins.

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