Crítica | Nas Garras do Vício

Nas Garras do Vício (1958) plano critico

Nas Garras do Vício foi o primeiro filme dirigido por Claude Chabrol, que também escreveu o roteiro e deixou claro, na sua forma de guiar o filme, que abraçava de bom grado as liberdades estéticas propostas pela Nouvelle Vague, iniciada verdadeiramente quatro anos antes, com La Pointe Courte, de Varda (segundo abordagem de Georges Sadoul), o que difere de outras visões sobre o movimento, que dá ao presente longa a titulação de ser “o primeiro” da Nova Onda.

Seja como for, a estreia de Chabrol é um verdadeiro espetáculo de variações estéticas, contando-nos uma história até que bastante simples em seu núcleo, mas que aos poucos vai ficando complexa, refletindo sobre o passar do tempo e as mudanças pelas quais os indivíduos e os lugares passam no decorrer dos anos. Em certa medida, o título em português (diferente do original, que é O Belo Serge) chega a enganar um pouco em relação ao tipo ou a variedade de vícios envolvidos, mas termina dando uma boa noção sobre o verdadeiro sentido da obra, falando de alguém que volta para a pequena cidade onde cresceu (esse é François, interpretado por Jean-Claude Brialy) e que acaba sendo bombardeado por uma realidade opressiva, disfuncional, quase hostil, tirando dele a possibilidade de cumprir o principal motivo de seu retorno: descansar, após ser acometido de uma séria enfermidade.

O curioso do roteiro é que o motivo para esta viagem de François acaba ganhando ares dúbios no decorrer do longa, especialmente quando o diretor explora a camada homoafetiva que marca a relação do protagonista com Serge (Gérard Blain),  o ímã tóxico que atrai quase todos para si, e não se contenta com a autodestruição através do álcool, procurando também destruir aos outros com maus tratos, agressão e desprezo. O “belo Serge” do original é o estabelecimento de uma casca atrativa que está totalmente entregue aos horrores do mundo em que cresceu e que mesmo tendo sentimentos, temores e arrependimentos, nunca procura real ajuda ou demonstra gostar das pessoas que o amam.

É por isso que este filme é difícil de assistir. Ele nos enraivece porque o roteiro explora uma ciranda de podridão moral e sentimental que faz de todos refém, que vampiriza o que as pessoas tem de melhor e, exceto no caso de Yvonne (Michèle Méritz) transforma até os bem-intencionados em vampiros sociais. O diretor acompanha essa jornada através de uma imensa variedade de planos e ângulos, colocando a câmera nos lugares menos prováveis possíveis e, especialmente no caso de Serge, explorando as muitas formas que o espectador pode se colocar moral e emotivamente em favor ou contrário a um personagem. Nós simpatizamos e odiamos Serge ao longo do filme e terminamos com uma nota de esperança que tem um inesperado toque lírico em seu seio: uma nova vida trouxe (possivelmente) a mudança que essas pessoas precisavam.

Inspirado em A Sombra de uma Dúvida, de Hitchcock, Nas Garras do Vício lança os ingredientes básicos da filmografia de Chabrol, com direito até a um McGuffin (a mala de François e todo o mistério inicial em torno dela, reforçado com gosto pela trilha sonora), a situações-limite que colocam o espectador em intenso julgamento pelo que está acontecendo (a maneira como os protagonistas lidam com a ocorrência do estupro de uma jovem de 17 anos é uma dessas situações) e a um elemento humano inesperado na resolução do caso. A primeira impressão que temos é que o turbilhão de relações abusivas terminará por engolir a todos, visão que a abordagem mais ou menos documental (ou cronista) da “estadia de François” jamais nos deixa esquecer e que a chegada pesada do inverno simbolicamente confirma. Mas é no mais improvável dos cenários e na mais fria das estações da vida que a beleza de Serge pode deixar de ser apenas algo do rosto e do corpo, e tornar-se também algo da alma. Quem sabe assim os vícios serão extirpados. Pelo menos a risada histérica e desesperada do personagem, pela primeira vez, torna-se uma risada de felicidade.

Nas Garras do Vício (Le beau Serge) — França, 1958
Direção: Claude Chabrol
Roteiro: Claude Chabrol
Elenco: Gérard Blain, Jean-Claude Brialy, Michèle Méritz, Bernadette Lafont, Claude Cerval, Jeanne Pérez, Edmond Beauchamp, André Dino, Michel Creuze, Claude Chabrol, Philippe de Broca, Christine Dourdet, Géo Legros
Duração: 98min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.