Crítica | Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft

Desde que li Nas Montanhas da Loucura pela primeira vez, coloquei-o mentalmente ao lado de O Coração Delator, de Edgar Allan Poe, como duas das mais angustiantes obras literárias que já tive o prazer de ler. E elas continuam bem posicionadas nessa categoria, algo reiterado pela releitura recente das duas, a de H.P. Lovecraft para a elaboração da presente crítica e a de Poe em voz alta para minhas filhas (já grandinhas) como “história de ninar” (he, he, he).

O que Poe esbanja em concisão, Lovecraft usa em construção de mundo e de lendas, com sua novela (mais que um conto, menos que um romance) mergulhada nos Mitos de Cthulhu, cerne de seu famoso “horror cósmico”, mas também distante o suficiente para ela ter vida própria sem qualquer tipo de conhecimento próprio sobre as monstruosidades dos Grandes Antigos. Nas Montanhas da Loucura é, de forma muito semelhante a O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, um desesperado relato em primeira pessoa sobre expedicionários que descobrem muito mais do que esperavam. Mas, diferente do clássico de Doyle, a manutenção do leitor completamente às cegas é o grande triunfo de Lovecraft, que usa a voz do geólogo William Dyer, membro de uma expedição para a Antártica que faz de tudo para que uma nova expedição não seja organizada, como nosso guia pelo continente gelado e inóspito onde o grupo primeiro descobre 14 formas de vida pré-históricas que eles sequer conseguem identificar como animal ou vegetal.

Esse momento inicial, precedido da “criação” de uma Antártica misteriosa e mítica, é apenas o pontapé inicial para novas e mais incríveis descobertas que fazem os cientistas reverem sua noção de mundo e, mais do que isso, temerem pelo planeta. Não pretendo ir além desses comentários sobre a trama, pois Nas Montanhas da Loucura só funciona de verdade sem que se saiba muito sobre a história. É importante – diria vital – que o leitor descubra o que acontece na medida em que os eventos são revelados por Dyer, mesmo que o nome de Lovecraft na capa já imediatamente indique o tipo de abordagem que se espera.

Enganam-se aqueles que imaginam que a manutenção do mistério pelo máximo possível de páginas é artificial ou forçado, pois realmente não é. O relato cauteloso de Dyer é muito bem construído e ritmado, com um prosa nervosa e realista que Lovecraft pontilha por toda a narrativa. Sim, há momentos – especialmente no início – em que a contextualização geográfica e os detalhamentos oferecidos por Dyer parecem estar em descompasso com o objetivo primordial de seu urgente relato, mas essa escolha, tenho para mim, é importante para que o leitor não seja arremessado quase que literalmente no meio de uma história já em andamento, mesmo que seja exatamente isso que aconteça. Afinal, a impressão de começo, meio e fim cronológicos é só realmente uma impressão dada a natureza do documento que é o conto em si, ou seja, algo que aconteceu no passado e que lemos com os olhos de quem está efetivamente organizando a segunda expedição. Sabemos, portanto, do destino do protagonista, assim como linhas gerais do que ele enfrentou mesmo antes de a narrativa engrenar, mas isso nem de longe detrai do resultado final. Ao contrário, essas características reforçam a premência do lemos.

E, de fato, Nas Montanhas da Loucura é o tipo de obra que não dá para simplesmente ler com calma, ao longo de dias. A absorção é completa. O desespero é crescente. A cada página virada, os mistérios se avolumam e o suspense se torna mais claustrofóbico mesmo que pouco do que Lovecraft descreva seja gráfico, já que seu propósito é realmente nos deixar na dúvida, aguçando nossa curiosidade até o clímax “ensurdecedor” como o coração batendo na mente do narrador no citado conto de Poe.

É possível, porém, que alguns leitores sintam insatisfação com o final pelo que pode ser arguido como encerramento abrupto sem maiores explicações. No entanto, o horror cósmico de Lovecraft é assim por natureza. É a visão do homem comum – por mais brilhante que possa ser – em relação a coisas inimagináveis que mudam nossa percepção de mundo. E por isso é que “explicações” são incabíveis para além das suposições, hipóteses e dúvidas que assolam Dyer e, por tabela, o leitor. Sim, é um pouco enlouquecedor, mas não esperaria menos de Lovecraft.

Nas Montanhas da Loucura (At the Mountains of Madness, EUA – 1936)
Autor: H. P. Lovecraft
Editora original: Street & Smith (Astounding Stories)
Data original de publicação: fevereiro, março e abril de 1936 (escrito em fevereiro/março de 1931)
Editoras no Brasil: Editora Hedra, L&PM
Datas de publicação no Brasil: janeiro de 2011 (Hedra), outubro de 2014 (L&PM)
Páginas: 90

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.