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Crítica | Nascidos em Bordéis

por Leonardo Campos
8 views (a partir de agosto de 2020)

Fotografar é a arte do olhar. Expor é a arte do olhar. E interpretar. Por detrás das imagens oriundas das fotografias expostas para a nossa contemplação ao longo dos 85 minutos de Nascidos em Bordéis, documentário lançado em 2004, dirigido por Zana Briski e Ross Kauffman. Na trajetória da dupla, somos apresentados ao projeto realizado por meio de oficinas durante dois anos em que a fotógrafa esteve em Calcutá, no Distrito da Linha Vermelha, reduto de pessoas drogadas, mulheres em prostituição para conseguir o básico da sobrevivência e crianças nascidas da desesperança de um determinismo que as define mesmo antes da chegada ao mundo. No desenvolvimento das situações apresentadas, editadas por Nancy Baker, em parceria com Kauffman, em mais de uma função, conhecemos pelos depoimentos da direção, a experiência que os levou até aquele local. Na linha de produção focada na intervenção social, a produção expõe os destinos já selados destas crianças, a burocracia das instituições despreocupadas em resolução, bem como as famílias ignorantes e a persistência dos realizadores em dar continuidade ao que é apresentado brevemente no documentário.

Responsável pelo projeto “Crianças com Câmeras Pelo Mundo”, a gestora da iniciativa observa o ato de fotografar como “registro do comportamento humano”. No bairro selecionado para a realização de suas ações, a fotógrafa inglesa Zana Briski busca, por meio da imagem, permitir que algumas crianças envolvidas no projeto possam ressignificar os símbolos que gravitam em torno de suas existências ameaçadas pela miséria social, pela descrença no lúdico e pelo trabalho já na infância como uma das únicas estratégias de emancipação no mapa da fome. Sem o sentimentalismo que poderia atrapalhar o discurso crítico de Nascidos em Bordéis, as fotografias das crianças são apresentadas de maneira afetuosa, curiosamente eficazes nos quesitos estéticos, mesmo com a limitação dos equipamentos de Briski, mergulhada num espaço físico com pouquíssimas possibilidades tecnológicas para fazer algo mais grandioso. Ainda assim ela segue com sua iniciativa de filosofar com as imagens, numa empreitada que capta e problematiza tudo que está ao seu redor, potência para reflexões de tipos variados.

A fotografia ao longo da narrativa funciona como uma espécie de consolo para um grupo de crianças alijadas de qualquer direito humano básico. Em determinado momento do documentário, uma das crianças produz uma imagem apontada como “muito bonita, mas que transparece muita tristeza”, algo dito como difícil de olhar, “mas que tem que ser contemplada, pois essa é a realidade”. E de fato, pelo que a produção nos apresenta, é apenas uma ilustração dos problemas maiores enfrentados não apenas durante o período do projeto, mas no cotidiano dessas pessoas ainda em processo formativo. Para as crianças, tudo é muito complicado. Arrumar uma escola que os aceitem é adentrar numa jornada exaustiva, percurso que já pede aos participantes a desistência desde os primeiros movimentos negativos de quem não concede espaço para meninas e meninos que possuem uma chance remota de educação, tendo em vista espantar a prostituição e as drogas de suas vidas futuras. É um trabalho árduo, com cenário desanimador.

No percurso com as crianças que lhe permitiu a elaboração do documentário, ela é a mentora de alguns que conseguem oportunidades e outros que infelizmente não gozam dos mesmos privilégios e ficam para trás, engolidos pelos processos já mencionados anteriormente no que diz respeito ao seu intervencionismo social. A cada clique, as crianças interpretar os elementos que gravitam em torno de suas respectivas existências, alegorizadas pelas imagens, um toque de ludicidade diante da realidade amarga, parte das desigualdades sociais que já sabemos, definem o mundo capitalista, etc. Em suma, um problema crônico que até se torna clichê quando precisamos falar sobre, haja vista a quantidade de reflexões sobre o mesmo problema, realizadas através de uma longa trajetória do cinema documental. Ademais, em sua proposta de intervenção, a fotógrafa aguça a sensibilidade do olhar destas crianças que vivem num universo de relações ásperas. Zana Briski não quer mudar o mundo, mas fazer a parte dela enquanto cidadã. Isso já importa. E usar a arte para isso, então, é ainda melhor.

Nascidos em Bordeis (Born into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids) — Estados Unidos, 2004
Direção: Ross Kauffman, Zana Briski
Roteiro: Ross Kauffman, Zana Briski
Elenco: Ross Kauffman, Zana Briskin
Duração: 85 min.

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