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Crítica | Natal Sangrento (2019)

por Leonardo Campos
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A tarefa de realizar uma nova versão para o proto-slasher Noite do Terror, já refilmado de maneira irregular, em 2006, foi um desafio dantesco para a cineasta Sophia Takal, também responsável pelo roteiro, escrito numa parceria com April Wolfe. O resultado estético e dramático é satisfatório, mesmo que a bilheteria e a crítica tenham detonado o filme nos Estados Unidos, muito mais por questões polêmicas voltadas aos temas políticos que necessariamente pelo seu conteúdo cinematográfico. Natal Sangrento é uma obra que delineia um momento específico de nossa história. As manifestações críticas femininas são recebidas com resistência por homens que ainda não aceitam determinados locais de fala de uma esfera social que há eras teve seus discursos sublimados pela misoginia ainda existente na contemporaneidade, mas enfrentada por muitas mulheres que assumem os riscos ao adentrar neste campo de batalha acirrado.

Há também a polêmica racial. Não foi por acaso que o nome original, traduzido ao pé da letra nas versões anteriores, teve o vocábulo “negro” substituído por “sangrento”. Para os desavisados, pode parecer “mi-mi-mi” de pessoas que acham problema para tudo, mas é para isso que existem os estudos acadêmicos e uma parte da mídia engajada na revelação de detalhes sobre determinadas expressões e usos de alguns vocábulos que podem até parecer inofensivos, mas historicamente, possuem significados muito mais simbólicos e profundos daqueles que acreditamos ser o tom original. O problema é que as pessoas não querem estudar, compreender, observar analiticamente a luta do “outro”, principalmente quando isso requer abrir mãos de alguns privilégios que nos deixam acostumados desde que temos a noção intelectual da nossa existência e de como nos comportamos dentro do mundo.

As duas questões ocupam o filme, sendo a abordagem feminina, inspirada pelos desdobramentos do movimento #metoo, a mais saliente e criticada. Mas, afinal, Natal Sangrento é um filme tão ruim como dizem? Fui conferir para tirar as minhas próprias conclusões. E o resultado, pelo que observei, é um grandioso não. Sophia Takal rege bem o seu elenco que não fica devendo nada aos demais slashers produzidos anualmente. A supervisão de maquiagem de Catherine Maguire contempla as mortes de maneira convincente, num roteiro mais clean, tomado por alguns momentos de assassinatos em off, sem derramar, talvez, a quantidade de sangue esperado pelo público do segmento. O design de produção de Mark Robins também faz a sua parte, ao criar o clima ideal de noite natalina, com a direção de arte e cenografia em simbiose visual eficiente na construção dos espaços por onde circulam os personagens devidamente trajados pela figurinista J. Watson. A trilha sonora da dupla Brooke e Will Blair é genérica? Sim, mas nada que atrapalhe a condução da história e a sua classificação numa condição de miséria artística. Com imagens captadas pela direção de fotografia de Mark Schwartlbard, Natal Sangrento trabalha bem a sua iluminação, movimentação de câmera, enquadramentos e outros pormenores do setor, também eficiente por não ser prejudicado por edições que seguem a “estética da tesourinha”, isto é, o excessivo número de cortes por cena para dar ao filme um ritmo de videoclipe, tendo em vista, agradar as plateias jovens que adoram tudo que seja muito turbinado.

Diante do exposto, onde habita o real problema de Natal Sangrento? O roteiro de April Wolfe e Sophia Takal é abrupto e nada sutil em seu contorno próximo ao desfecho, provável ponto de desagrado para uma parte dos espectadores que desqualificaram o filme. É algo que preciso confessar, pois ao passo que o filme avançava, minhas expectativas foram solapadas pela entrada de elementos sobrenaturais envoltos no terror puramente físico, produzido por monstros da vida real, mascarados e trajados nos padrões dos clássicos Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Halloween: A Noite do Terror, dentre outros. Sem querer ser filosófico demais diante de uma produção também bastante preocupada com o seu tom de entretenimento, devo dizer que as alegorias da dupla de roteiristas não foi compreendida por uma parte do público. Primeiro, por preguiça mesmo. Segundo, por não aceitar as questões que são levantadas, caras demais para alguns que acham as batalhadas diárias das mulheres uma perda de tempo.

É preciso considerar os acontecimentos expostos na curva final do filme como um punhado de alegorias. A fantasia mesmo, o uso puro da metáfora para explicitar que a atual condição de nossa sociedade misógina, homofóbica, racista e corrupta é algo não apenas enraizado de maneira arbórea, tampouco apenas rizomática, mas também enrijecida como estatuetas bem antigas, expostas em vitrines para as sociedades mais recentes. E, nessa exposição, expõem a sua força vital no engrandecimento de um determinado grupo, em detrimento da existência de outros. É o que ocorre no Hawthorne College, espaço para os 92 minutos de duração de Natal Sangrento. Já adentramos na história sabendo ser o local um ambiente tradicional, machista, voltado para a acomodação, mas que recentemente, teve a sua estrutura abalada pelas assinaturas recolhidas por um grupo de estudantes que questionava o busto do fundador da instituição, exposto num lugar central de passagens dos docentes, estudantes e demais integrantes da instituição de ensino secular.

Vitoriosas diante da missão, as moças alegam que o ato político buscou tirar do corredor, a imagem de um homem que era um aristocrata favorável aos movimentos escravocratas. Elas também questionam o professor Gelson (Cary Elwes), homem que não se sente confortável ao ser confrontado por questões que envolvem a escolha constante de um cânone branco e masculino para a abordagem de todas as questões educacionais em sala de aula. Um aparente seguidor das ideias do crítico literário Harold Bloom, o docente protagoniza um debate sobre o assunto na sala de aula e deixa explicita a sua insatisfação com os boatos sobre a busca destas estudantes por sua derrocada. Temos, então, um óbvio primeiro suspeito. Importante ressaltar que antes disso, uma garota do grupo protagonista é assassinada logo na abertura, algo que segue a cartilha de regras estabelecidas pelo subgênero slasher, um padrão respeitado aqui.

Logo depois, somos apresentados às demais jovens estudantes da irmandade Mu Kappa Epsilon. As férias já chegaram e muitos estão em deslocamento para suas casas. Juntas, elas querem comemorar o natal e durante o período, serão atacadas por um ou mais assassinos mascarados e trajados por uma enorme capa preta que nos remete vagamente ao visual de Ghostface na franquia Pânico. A diferença é que a figura utiliza como arma principal um arco e flecha. Exagero? Talvez, mas é parte da liberdade narrativa que não pede tanta exatidão realista do espectador, afinal, suspensão da crença é uma necessidade desde sempre na seara de produção slasher. Diante do exposto, Riley (Imogen Poots), Kris (Aleyse Shannon), Marty (Lily Donoghue), Jesse (Brittany O’Grady) e outras garotas precisarão entrar na luta e empunhar as mesmas armas para conseguir sobreviver. Enquanto isso, buscam compreender quem pode estar por detrás dos assassinatos já realizados e também os que estão por se estabelecer.

Algumas suspeitas nos levam para um dos rapazes recém-chegados para uma visita, depois da expulsão pelas denuncias de abuso sexual registradas pela final girl Riley, jovem que numa festa do passado, foi drogada e estuprada. Perturbada pelo acontecimento, a personagem ainda precisa enfrentar a descrença de muitas pessoas ao seu redor, pois muitos acreditam que ela talvez tenha provocado, ou então, imaginado a situação, tópicos que endossam uma discussão bastante realista, alinhada com as manchetes diárias de nossos jornais que ainda expõem casos da cultura do estupro voltados ao processo de culpabilização da vítima, sem colocar em questionamento o “fenômeno” e o ato do agressor. Por falar em agressor, o cartunesco antagonista foi concebido de propósito, ironia do texto que também pode ser encarado como descuido narrativa, haja vista a inserção de magia negra numa produção que foge dos padrões de maneira muito arriscada. Esperamos um vilão atropelado no passado, humilhado publicamente, vingativo por causa da amante responsabilizada pelo fim do casamento de seus pais, ou então, uma retribuição pelo filho afogado por causa do descuido de monitores que faziam sexo. Não acontece. Quando a máscara é retirada e a verdade se revela, tomamos um baque.

Para alguns, pode ser positivo. Para outros, pode ser uma viagem absurda e imbecil. Já confessei que fui pego de surpresa e esperava algo mais padrão, no entanto, respeitei a ousadia da dupla dramaturga e da diretora em burlar as regras e trazer algum frescor para o subgênero exaustivamente trabalhado desde os anos 1980. Há um movimento brusco do meio para o final que realmente recorre ao afobamento das escolhas narrativas. Não podemos acusar o texto de nos dar a tal rasteira, pois há ao menos dois momentos desde as primeiras cenas que nos fornecem indícios de algo além de um psicopata mascarado por detrás das misteriosas mortes pelos corredores e quartos do Hawthorne College. São sutis demais e por estarmos acostumados com a contagem de corpos seguida da tal revelação, o filme pode causar desconforto e tirar alguns do eixo. Repito, achei ousado, apesar de ter esperado e desejado outro rumo.

Mergulhado na polêmica mesmo antes de sua realização, o filme foi produzido dentro de um cenário de desconfiança. Durante uma entrevista predecessora, Jason Blum respondeu uma certa pergunta na mídia e revelou não haver muitas mulheres diretoras no meio cinematográfico, principalmente nos filmes de terror. O posicionamento militante já esperado foi parar nas redes sociais, com postagens que criticavam a observação machista do produtor, homem tido como inteligente e cheio de méritos ao resgatar diversos clássicos do terror para as plateias contemporâneas. Dizem, então, que Natal Sangrento e seu roteiro e direção femininos foi uma escolha do produtor para silenciar as criticas e mostrar que acreditava na dinâmica girl power para a execução de uma produção do gênero. O resultado é um filme esteticamente eficiente, com ritmo padrão para o slasher, isto é, corpos enfileirados seguido do ataque próximo ao final, com longas perseguições e embates, seguido do desfecho revelador. A urgência da crítica que parecer berrar no desenvolvimento do filme é fruto das próprias necessidades de uma grande fatia de nossas atuais plateias, sedentas por flashbacks e diálogos expositivos que delineiem cada aspecto do filme para que a recepção venha da explicação exata de tudo, sem espaço para interpretações ou pluralidade de sentidos.

Convenhamos, é como a própria discussão sobre a cultura do estupro na contemporaneidade: às vezes, nem desenhando ou gritando algumas pessoas compreendem. Ou querem compreender, envoltas em suas zonas de conforto que não permitem uma saída sem a sensação de estranhamento ou subtração de conveniências. Os homens supostamente são demonizados, mas há personagens criados para desfazer esta impressão. Landon (Caleb Eberhardt) e Nate (Simon Mead) estão constantemente com as garotas e não compartilham das ideias expostas por seus colegas de classe que acreditam na submissão feminina e na força do poder masculino como algo de ordem biológica. Se observado em linhas gerais, Natal Sangrento será interpretado como uma agressiva leitura feminina exclusivamente acusatória em relação ao fato de que todos os homens não prestam e são agressores por natureza. É preciso olhar cada diálogo, analisar determinados posicionamentos de personagens para que se tenha a compreensão do discurso narrativo da produção como algo além dessa superfície. Por desagradar as pessoas que esperavam uma refilmagem exata do clássico cult dos anos 1970, bem como seguir um arriscado caminho entre o físico e o sobrenatural, Natal Sangrento naufragou nas bilheterias e na opinião de algumas críticas. Vale ressaltar que uma expressão hoje popular diz que toda unanimidade é burra. E também, desde quando a bilheteria define o que é bom ou ruim?

Natal Sangrento (Black Christmas) —EUA, 2019
Direção: Sophia Takal
Roteiro: April Wolfe, Sophia Takal
Elenco: Imogen Poots, Cary Elwes, Aleyse Shannon, Lily Donoghue, Brittany O’Grady, Caleb Eberhardt, Simon Mead, Madeleine Adams, Nathalie Morris, Ben Black, Zoë Robins, Jonny McBride
Duração: 92 min.

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