Crítica | Nathan Never: Fuzileiros do Espaço e A Última Batalha

Um dos pontos mais fascinantes da série Nathan Never é a capacidade que seus roteiros têm de mostrar com muita clareza e riqueza de detalhes (ou justificativas históricas e sociais) o por quê o mundo do futuro está como está. Para ser sincero, eu sou o tipo de pessoa 100% pessimista em relação ao futuro da humanidade e ao destino do planeta em coisa de poucos séculos. Dessa forma, a ficção científica crítica, que imagina as lutas que poderemos ter no futuro ou que tipo de mundo haverá para se viver, foi algo que sempre me encantou. E é este tipo de abordagem que vemos aparecer no presente arco de duas edições: Fuzileiros do Espaço (Nathan Never #11) e A Última Batalha (Nathan Never #12).

Na primeira edição, o Agente Especial é encarregado de investigar a morte de um cadete dos Fuzileiros do Espaço chamado John Hartman. Mesmo com uma família tendo poucas posses, a mãe do cadete insiste em contratar a Agência Alfa para ir a fundo no que o relatório do Exército diz sobre a morte do jovem: suicídio. A mãe do militar não acredita nessa hipótese. E desde a eletrizante cena inicial do arco, o leitor também não acredita. Há algo realmente estranho acontecendo no treinamento desses soldados e isso ficará claro à medida que o texto de Antonio Serra explora a situação com cuidado.

Nathan se infiltra nos Fuzileiros e conhece a Capitã Susan Connery, responsável pelo treinamento de um grupo que tem as notas e o desempenho imensamente superiores ao restante dos soldados da divisão. A partir daí, o texto explora não apenas a tentativa do agente em descobrir o que está acontecendo (e a dificuldade de comunicação com o mundo exterior + a obrigação de representar com excelência o papel de “militar com respeitável treinamento” torna tudo mais instigante) mas também em salvar a vida de alguns militares que claramente estão em perigo. Embora a arte de Roberto De Angelis me confunda um pouco nos quadros mais fechados, onde em alguns casos não dá para divisar um elemento do cenário e sua interação com o personagem em cena, o projeto visual aqui é muito bom, especialmente na representação dos trajes espaciais e de todo o aparato tecnológico utilizado pelos militares.

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Aqui o autor inventa, de forma muito inteligente, uma versão futurista de patriotismo e nacionalismo. Esse novo tipo de conceito discute o senso de pertencimento dos nascidos na Terra versus os nascidos nas bases espaciais, assim como a diferença de pensamento entre os militares treinados em cada um dos lugares. Note que o ideal de separação flerta, em última instância, com algo similar à xenofobia, mas o que grita mesmo é a genial revisão do que poderá ser um “patriota-nacionalista-interplanetário” no futuro da Terra. E faz total sentido o que temos aqui, especialmente dentro da área militar.

Cheia de excelentes momentos de luta, fuga e suspense ao longo da investigação, o arco mantém o alto nível da série até o momento, com todas as doze histórias sempre acima de “muito bom“. Uma trama de caráter político, em seu alcance maior, mas com um enredo disposto a discutir um problema ideológico capaz de intoxicar qualquer mente sugestionável e moral questionável: garantir a suposta vitória ou suposto sucesso de uma iniciativa através da mentira para a imprensa, da adulteração de documentos, de assassinatos encobertos e, no fim, sempre em nome de um “ideal maior”, o amor ao pedaço de terra onde se nasceu. Quem diria, não é, Samuel Johnson? Eis aí o momento onde “O patriotismo é o último refúgio do canalha“.

Nathan Never #11 e 12: Fanteria dello Spazio + L’ultima Battaglia (Itália, abril e maio de 1992)
Sergio Bonelli Editore

No Brasil: Mythos (agosto e outubro de 2018)
Roteiro: Antonio Serra
Arte: Roberto De Angelis
Capa: Claudio Castellini
196 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.