Crítica | Nathan Never: Inferno

Conceitualmente baseada em A Divina Comédia, de Dante, esta décima edição da série Nathan Never coloca o principal profissional da Agência Alfa em busca de um ativista político que, ao lado dos mutantes, assaltou um banco. Durante o roubo, seu parceiro mata uma pessoa e é a partir deste evento que Hans Schneider se torna um procurado pela polícia. Nesta edição, que tem roteiro de Bepi Vigna e arte eficiente de Dante Bastianoni, voltamos a uma aura bem mais ligada à ficção científica, com uma base investigativa mais ampla e uma história de forte caráter social e ligada ao racismo, elemento muito forte e já debatido nas primeiras edições desse título.

Aqui também há o lembrete dos eventos de Os Homens-Sombra, quando Never passou maus bocados na Ilha do Diabo. E de fato há uma boa semelhança entre as duas histórias, inclusive com a presença de um monstro (que uma notinha de rodapé promete ter explicação futura) e oposição do agente especial a um grupo que está à procura da mesma coisa que ele, nesse caso, o jovem Hans. Uma das coisas que eu mais gosto em Nathan Never, e que está muito bem trabalhada aqui, é como os enredos conseguem explorar mazelas sociais bastante complexas dentro de uma estrutura de ação, investigação e até um pouco de terror ou giallo (dependendo de qual é a investigação em andamento), mas nunca esvaziando a discussão.

Neste caso, problemas como vigilantismo, discurso armamentista, sensacionalismo midiático, racismo e homem com discurso de ódio à guisa de pré-campanha política são coisas que refletem o nosso tempo (e já refletia o tempo do autor, em 1992, na Itália) em par com a criação de uma incrível base de ação que vai desde luta corporal até os mais distintos caminhos e formas de fuga, o que faz a edição ter um ritmo intenso e um caminho final amargo, exatamente como no cotidiano de grandes cidades com tantos crimes ocorrendo, dentro e fora do alcance da mídia ou de demagogos sedentos de sangue, dinheiro, poder e privilégios para os seus.

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A relação com A Divina Comédia é outro aspecto chamativo do texto, sendo usado como narração-ponte entre as mudanças de cenário do protagonista, mas isso de maneira bem orgânica, sem se sobrepor à ação e sem aquela carga preguiçosa de narração off, apenas para fazer de maneira rápida o trabalho da narrativa gráfica. Isto não é um problema aqui em Inferno. Eu me incomodei mais com a forma como a história termina — este ponto sim, com uma passagem pouco elegante da sequência final, no julgamento de Hans, para a igreja onde Nathan deixou o padre — do que com a variação rápida de ambientes no decorrer da história. Aliás, o caráter de movimentação do personagem pedia esse tipo de estrutura narrativa e o resultado conseguido pelo texto e pela arte aqui é muito positivo.

O debate sobre a importância de um sistema jurídico independente do show das grandes redes de TV e influência de grandes nomes da política é o meu momento favorito da reta final. Entre a gritaria da milícia e uma discussão sólida e humana da aplicação da lei frente a um crime, terminamos Inferno fazendo ligações temáticas demais com o Brasil contemporâneo, seja pela falta ou pelo excesso de certos acontecimentos. Ligações demais para a nossa saúde político-emocional se manter calma, acreditando que… “é só um quadrinho, é só um quadrinho“.

Nathan Never #10: Inferno (Itália, março de 1992)
Sergio Bonelli Editore

No Brasil: Mythos (junho de 2018)
Roteiro: Bepi Vigna
Arte: Dante Bastianoni
Capa: Claudio Castellini
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.