Crítica | Nathan Never: Os Olhos de um Estranho

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Em Os Olhos de um Estranho o roteirista Michele Medda faz um amargo estudo sobre a solidão. Flertando com algumas possibilidades em torno do que seria este “olhar” que vemos elencado na história — super-poderes ou algo parecido estão nas entrelinhas do episódio –, o autor e o desenhista Stefano Casini fazem uma crônica sobre isolamento, carência e manias que vão acabar caindo nas mãos da Agência Alfa, colocando Nathan Never na cola de um assassino em série (ou não seria um?), alguém que está matando mulheres sem familiares, sem amigos e emocionalmente frágeis. Após um raro flerte e algumas promessas, essas pessoas acabam dividindo o mesmo caminho por um tempo. Ao cabo de cada crônica feliz, porém, um assassinato ocorre, como se quisesse punir a quebra de um ciclo vicioso de solidão. A tristeza, nesse Universo, prefere reinar sozinha.

A reflexão proposta aqui é amarga e o ambiente chuvoso do início da história cumpre bem o papel de criar um cenário onde a busca por abrigo e calor (notem a abertura simbólica aí) é a primeira coisa que vem à mente. Porém há mais do que isso. Os desenhos de Casini abordam a cidade de modo a isolar os indivíduos no meio da grandiosidade de prédios, máquinas e afazeres, tornando-os apenas mais um em meio à multidão, status que para algumas pessoas pode parecer uma bênção, mas para outras, se torna uma verdadeira maldição.

À medida que a investigação de Nathan Never avança, o roteiro faz questão de colocar essa problemática também para o protagonista e mostrar como pessoas em diferentes patamares de saúde mental e emocional podem lidar com o fato de estarem sem um par amoroso ou sem a companhia de alguém (um amigo, um familiar, qualquer outra pessoa) em sua vida cotidiana. A cena em que um homem velho conversa com uma máquina de café expresso é o ponto alto desta situação e confesso que foi algo que me partiu o coração.

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Um dos pontos interessantes aqui, em termos de construção da série, é que esta aventura foi a que mais marcas de “vida comum” trouxeram no roteiro, o que influenciou bastante no método de investigação de Nathan Never. Os momentos de reflexão contrastados aos excelentes pontos de ação são um verdadeiro presente. Eu preferiria que o roteiro tivesse deixado menos dúbia a questão do olhar e do caráter de ação para o personagem central, que apesar de criar uma boa dose de suspense e até abertura para um retorno dessa mesma temática na série, acabou se valendo de muitos elementos ocultos para construir as motivações do principal suspeito, o que é um problema quando falamos de um texto tão fortemente psicológico e comportamental como este.

Todavia, isto não é algo que derruba o divertimento que esta leitura nos proporciona. A jornada se encerra criando um padrão comportamental, mostrando que mais dia ou menos dia, mesmo os mais fortes se sentirão completamente sozinhos e desalentados, a despeito de ter muita gente ao seu redor. Não há quem escape de uma eventual crise existencial, seja a pessoa dotada de um “estranho olhar” ou apenas alguém cansado que procura trocar algumas palavras com qualquer pessoa em um pequeno café da cidade… Ser um animal social nos cobra um preço alto demais. Como disse um dos nossos gigantes da literatura, “viver é muito perigoso“.

Nathan Never #9: Gli occhi di uno sconosciuto (Itália, fevereiro de 1992)
Sergio Bonelli Editore

No Brasil: Mythos (abril de 2018)
Roteiro: Michele Medda
Arte: Stefano Casini
Capa: Claudio Castellini
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.