Crítica | Náufrago

Somente o fato de Náufrago, de Robert Zemeckis, ser um filme que se passa a maior parte do tempo na praia de uma ilha deserta, onde tenta a sobrevivência um único e solitário homem, já deveria ter sido motivo suficiente para que o grande público o tivesse achado enfadonho. Constrariando as expectativas, o longa-metragem protagonizado por Tom Hanks não só se tornou um enorme sucesso de público e crítica, como já é um dos grandes clássicos norte-americanos dos anos 2000. O sucesso da obra de Zemeckis, que já havia dirigido outra obra-prima – Forrest Gump – anos antes, se deve a uma combinação de fatores. Mas o principal deles ainda penso ser o ritmo impecável do segundo ato, a despeito de elementos pouco palatáveis ao espectador comum, como a total ausência de trilha sonora e de cenas de ação.

O talento de Tom Hanks prevalece, tornando a experiência do protagonista verossimilhante o suficiente para que o público se interesse verdadeiramente por ele e não por uma caricatura tola de um náufrago. Note-se como Chuck Noland jamais torna as dificuldades pelas quais passa um motivo para dramalhões insuportáveis ou lágrimas a granel. O que interessa é mesmo a experiência mais primitiva do protagonista, envolvendo sua sobrevivência e sua saúde não só física como também mental. O roteiro de William Broyles Jr. tem o devido cuidado para elaborar situações que criam empatia por Noland e não pena dele. Torcemos pela sobrevivência do personagem, mas não nos compadecemos dele como uma vítima inerte e incapaz de reagir frente ao acaso. Esse tom geral é profundamente importante na coesão da obra. Caso contrário, o desfecho de Náufrago jamais poderia ter rumado para onde rumou. Abordarei isso adiante.

Nesse sentido, é fundamental também a elipse proposta pelo roteiro ao saltar do primeiro para o último ano do protagonista na ilha. Além de evitar a morosidade da narrativa e a perda completa de ritmo, a opção de Broyles Jr. surpreende o público com a enorme evolução do personagem – do náufrago que a duras penas aprendeu a fazer fogo com gravetos e a comer peixe cru ao homem que se mostra plenamente adaptado ao seu novo mundo. A direção de Zemeckis também é certeira nisso. Destaco o raccord que rima o fogo com a água (dois elementos caros à nova realidade) e transita para um plano fechado sobre um peixe. Um arpão o atinge em cheio e a câmera realiza um tilt para mostrar que quem o caçara era um novo Chuck Noland – com barbas e cabelos enormes e registrados por um plano médio que o afirma como uma espécie de herói esquálido à la Robinson Crusoé. Aqui Zemeckis não deixa margem para dúvidas – seu protagonista atua sobre a realidade. Modifica-a e modifica-se com ela.

A queda do avião da FedEx, que colocou o protagonista em uma situação jamais imaginada, é a hybris perfeita para perturbar a noção de tempo em Náufrago. Noland só se vê impelido a reagir contra uma realidade nova e a se modificar profundamente diante dela, pois tudo o que conhecera desapareceu subitamente. Nada poderia ser mais perturbador para um alto funcionário de uma enorme empresa de correios, obcecado pela ideia de rapidez e ordem. Seu trabalho era esse – otimizar tempo – e sua vida pessoal seguia diretrizes e prazos igualmente rígidos, uma vez que o casamento com sua noiva Kelly (Hellen Hunt) já estava perfeitamente encaminhado. Mas a dimensão trágica da existência (sem nenhum pedantismo nietzscheano) se colocou entre Chuck Noland e seus planos e por isso é tão digno o tratamento que o filme como um todo lhe dá ao torná-lo um factótum de seus próprios caminhos. Noland, recluso na ilha, metaforiza a própria existência, já que sua solidão em cada decisão é a solidão de todos nós. Ele será o único responsável por sua própria sobrevivência ao longo de 1500 dias.

Mas a ideia de responsabilidade, tão bem trabalhada em Náufrago, não exclui o outro. Isso é patente na figura do objeto inanimado mais famoso da história do cinema – a bola de vôlei Wilson. Como ser gregário, Chuck Nolan se vê necessitado de presença humana (ou ao menos personificada). Mas se engana quem vê em Wilson somente um personagem (por que não usarmos o termo?) que serve a ele como companhia para aplacar a solidão. A bola humanizada torna-se tudo o que outro ser humano seria – é para onde o personagem de Tom Hanks canaliza seu afeto, mas também com quem trava discussões, por quem chora de arrependimento ao ofender e lançar ao mar em um acesso de fúria e por quem se sente responsável ao ter de deixar ir embora em alto-mar. O outro aparece como um imperativo em Náufrago. Surge como ancoragem para o amor e como genealogia para os conflitos. De todo modo, necessário.

A fuga do personagem oferece uma bela dica a respeito do que será o desfecho. É através da adaptação do protagonista ao seu novo ambiente que ele passa a conhecer inclusive o comportamento das marés. Em um raro momento de maré baixa, ele se lança ao mar junto com Wilson e consegue vencer as ondas que desafiavam seu avanço. Em uma história tão afeita a temas como o tempo, o acaso e a responsabilidade individual, nada mais natural que a salvação do personagem viesse por suas próprias mãos. A maré baixa surge como uma alegoria das oportunidades. É pela combinação entre a fortuna (oportunidade concedida pelo mar) e a virtù (a longa preparação do protagonista para vencê-lo) que o personagem alcança seu objetivo maior. A sequência em que o protagonista vence esse embate é angustiante, mas recompensadora.

Tive receio de que o terceiro ato de Náufrago se tornasse um grande clichê, na medida em que parecia rumar para um reencontro com óbvio final feliz entre Chuck Noland e sua ex-noiva Kelly (agora casada com outro homem). O desfecho, contudo, subverte completamente essa expectativa. A chave para compreender essa conclusão está no pacote fechado que o protagonsista recolheu do mar e que irá entregar com atraso à sua dona. Retorna a questão do tempo – antes acostumado a prazos, agora ele entregará o enigmático pacote com atraso de quatro anos. Assim, não mais controlando o tempo como antes se propusera, mas apenas aproveitando as oportunidades que o acaso lhe trazia (é precisamente disso que Chuck fala em seu conhecido monólogo sobre as marés), o protagonista encontrará não um final feliz ou o amor eterno nos braços de Kelly. Ele encontrará, tal como em sua fuga da ilha, apenas uma nova oportunidade. Noland não termina o filme em glória, mas literalmente em uma encruzilhada.

É notável como Náufrago não escolhe o caminho mais fácil nem em sua conclusão. E é sempre agradável perceber como um filme mainstream pode deixar para o público bem mais que entretenimento imediato, ainda que ele nos entretenha com um cinema leve e igualmente inteligente por mais de 2 horas – extremamente prazerosas, diga-se de passagem.

Náufrago (Cast Away – EUA, 2000)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: William Broyles Jr.
Elenco: Tom Hanks, Helen Hunt, Lari White, Nick Searcy, Chris Noth, Paul Sanchez, Yelena Popovic.
Duração: 143 minutos.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.