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Crítica | Nausicaä do Vale do Vento

por Ritter Fan
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Hayao Miyazaki, que já havia trabalhado em animações em diversas capacidades na Toei Animation, começou sua carreira de diretor com a série Lupin III, entre 1971 e 1972, comandando seu primeiro longa – O Castelo de Cagliostro, também tendo Lupin III como protagonista – em 1979. Nesse começo de carreira, ele também escreveu e desenhou mangás, o primeiro deles, Sabaku no Tami, que ele assinou como Akitsu Saburō, tendo sido publicado em jornal entre 1969 e 1970. A convergência dessas duas artes que o futuro mestre da animação mundial sempre dominou viria com  Nausicaä do Vale do Vento, em 1984.

O longa que tornaria possível a fundação do sensacional Estúdio Ghibli, em 1985, nasceu de um mangá que Miyazaki criou para a revista Animage da editora Tokuma Shoten, ironicamente sob a condição de que a obra não poderia ser adaptada para o audiovisual. Com início de publicação em fevereiro de 1982, o sucesso veio imediatamente e, com 16 capítulos publicados, o longa-metragem comandado integralmente por Miyazaki saiu do papel, ainda que a última edição da história só tenha sido publicada em 1994. Nausicaä do Vale do Vento, então, finca profundas estacas que marcariam o estilo do cineasta: designs arrojados e extremamente originais que bebem de uma infinidade de fontes clássicas, estética apurada, fascinantes personagens femininas como protagonistas, universos complexos de fantasia e ficção científica que se mantêm coesos e relacionáveis, preocupação ambiental, posição antibelicista e uma invejável noção de ritmo narrativo.

Baseado primordialmente em um conto do folclore japonês conhecido como A Princesa que Amava Insetos, com o nome da protagonista retirado da Odisseia, de Homero e influenciado pelo terrível Desastre de Minamata, de 1956, em que centenas de pessoas foram envenenadas por mercúrio vazado de uma fábrica de PVC, Nausicaä do Vale do Vento tem ainda claras notas de Duna, de Frank Herbert, Star Wars, da franquia Terramar, de Ursula K. Le Guin (que Gorô Miyazaki, seu filho, adaptaria em 2006), das obras de Tolkien e faroestes, mas com uma impressionante identidade única e própria que estabelece de imediato um universo fascinante que hipnotiza o espectador desde os primeiros fotogramas. A história carrega camadas e mais camadas de complexidade que vão sendo descortinadas sem pressa pelo cineasta, mas, em linhas gerais, ela pode ser resumida como uma Jornada do Herói (da Heroína, para ser mais preciso) em um futuro distópico pós-apocalíptico em que a Princesa Nausicaä, capaz de se comunicar com gigantescos insetos que tomaram o mundo disputando espaço com os humanos sobreviventes, envolve-se em uma luta de facções em guerra como a última esperança de salvação e reconciliação.

O que espanta no longa é a capacidade de Miyazaki de inserir o espectador em seu universo sem solavancos perceptíveis e sem preocupar-se em derramar informações contextualizadoras de antemão. Se a criação de universos completamente diferentes do nosso em obras literárias é uma tarefa complexa, no audiovisual, em razão do curto espaço de tempo e das restrições narrativas naturais da mídia, ela se torna um risco imenso que, aqui, o cineasta simplesmente tira de letra, tornando absolutamente natural toda a fusão de tecnologia steampunk e medieval com elementos modernos e monstros variados (tanto insetos quanto humanos, claro), paisagens estarrecedoras e deslumbrantes, além de personagens inesquecíveis, por meio de traços enganosamente simples e movimentação 2D fluida que contam uma história eminentemente visual, mas sem perder a substância, as críticas e as lições de moral. É como entrar em um mundo cuja maior estranheza é o quão familiar ele pode ser se nos imbuirmos da serenidade necessária para acompanhar a lenta, mas constante construção poética de mundo que Miyazaki e equipe são capazes de fazer.

O bombardeio sensorial – no melhor dos sentidos – é acompanhado pela minimalista e jamais intrusiva trilha sonora composta por Joe Hisaishi que eleva mesmo os momentos mais lentos e contemplativos, algo que o elenco de voz encabeçado por Sumi Shimamoto acompanha maravilhosamente bem, em uma combinação que torna até pecaminoso assistir o longa sem ser no original japonês. A cuidadosa e delicada combinação de elementos visuais e sonoros é, aliás, outra grande característica do cineasta e este longa continua sendo, mesmo tantos anos depois, uma verdadeira aula de como se compor uma narrativa de fantasia com linguagem visual própria que, ao mesmo tempo, consegue ser uma espécie de amálgama triunfal de grandes criações anteriores que mantém o espectador sempre “aconchegado”.

Nausicaä do Vale do Vento pode ser encarado como a gênese efetiva de Hayao Miyazaki e do Estúdio Ghibli como duas das maiores forças criativas do animação mundial, se não as maiores. Poucos cineastas conseguem já começar no ponto mais alto de sua curva criativa e menos ainda conseguem manter essa qualidade. O grande mestre nipônicok sem a menor sombra de dúvida, está neste seleto panteão.

Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no tani no Naushika, Japão – 1984)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki (baseado em seu mangá)
Elenco: Sumi Shimamoto, Goro Naya, Yōji Matsuda, Yoshiko Sakakibara, Iemasa Kayumi, Ichirō Nagai, Hisako Kyōda, Minoru Yada, Mahito Tsujimura, Kōhei Miyauchi, Jōji Yanami, Mahito Tsujimura, Miina Tominaga, Makoto Terada, Akiko Tsuboi, Rihoko Yoshida
Duração: 117 min.

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