Crítica | Nemo: As Rosas de Berlim (A Liga Extraordinária)

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A Trilogia Nemo, spin-off de A Liga Extraordinária focada em Janni Dakkar, filha do ilustre Capitão Nemo que foi introduzida na mitologia desse universo em Século: 1910, pode ser vista como a versão simplificada e menos ambiciosa do trabalho de Alan Moore e Kevin O’Neill em torno do conceito da Liga. Paradoxalmente, porém, isso não quer dizer que são obras piores ou que não devam ser lidas, pois o material, ao contrário, é muito bom, divertidíssimo mesmo. Ele tem apenas uma pegada mais direta, aventuresca, sem tramas particularmente complexas.

Se em Coração de Gelo vemos uma Janni já consolidada como capitã do mítico submarino Náutilus, mas mesmo assim querendo reafirmar-se como digna de ser quem é, resultando em uma aventura na Antártica que bebe principalmente de Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft, em As Rosas de Berlim somos catapultados 16 anos para a frente, exatamente para 1941, com Janni já madura, casada com Broad Arrow Jack (de um penny dreadful de E. Harcourt Burrage) e com uma filha adolescente Hira, já casada com Armand Robur, francês retirado de obra menos conhecida de Jules Verne, Robur, O Conquistador.

Janni, Jack e a tripulação do Náutilus continuam com seus atos de pirataria, mas agora focados exclusivamente em alvos nazistas, da da germânia-tomânia, o que traz para a vida o nazista de Charles Chaplin em O Grande Ditador, com direito até mesmo à presença de Adenoid Hynkel (!!!) e à suástica trocada pelo XX. Em uma dessas ações, eles recebem a informação que Hira e Armand tiveram seu dirigível derrubado e foram capturados pelos alemães. Sem hesitar um segundo sequer, Janni e Jack partem para Berlim em um mini-submarino navegando o rio Elba para libertá-los. Simples, não é mesmo? E a história continua assim sem grandes complicações até o final, havendo uma conexão direta com a ponta solta deixada no volume anterior. Mas, claro, como tudo que Moore cria no universo da Liga Extraordinária, o que realmente chama a atenção é o que ele faz com a Alemanha nazista: uma cornucópia fascinante de referências cinematográficas do expressionismo alemão. Ah, e o autor também não economiza em páginas inteiras escritas em alemão sem qualquer tradução…

(1) os Schlafkommandos e (2) a Maschinenmensch.

Só para o leitor ter uma ideia, quando a dupla desembarca em Berlim, ela já está sendo aguardada por uma tropa nazista, mas não uma tropa comum e sim uma formada pelos schlafkommandos ou comandos do sono. O que é isso? Ora, se a campainha das referências não soou, por favor pare tudo e assista o absolutamente espetacular O Gabinete do Dr. Caligari, em que somos apresentados ao sonâmbulo Cesare, personagem vivido por Conrad Veidt. Uma tropa de choque inteira baseada nesse conceito e, ainda por cima, com o Dr. Mabuse e  o próprio Caligari no comando? Impossível resistir mesmo considerando que o que Moore faz, em sua essência, é transformar todos esses personagens em nazistas, pecado que dá perfeitamente para perdoar, porém.

Outra obra-prima muito referenciada é, como não poderia deixar de ser, Metrópolis. A Berlim que vemos é a cidade do filme de Fritz Lang e há menções diretas a Carl Rotwang e, claro, ao robô feminino criado por ele e que marcou a História do Cinema. Se a narrativa peca pela simplicidade e até por um certo didatismo, a construção dessa bem alemanha nazista bem específica que mistura Chaplin com Expressionismo é realmente incrível, quase me fazendo “gostar” dos nazistas…

E, claro, com essas deixas sensacionais, Kevin O’Neill faz a festa na arte. Se o Expressionismo Alemão já é esteticamente incomparável, o artista, que vem acompanhando Moore e a Liga Extraordinária desde o começo, tem um playground imaginativo extremamente fértil para criar a melhor arte dele em muito, muito tempo. Ele usas e abusa da iconografia desse movimento cinematográfico, transplantando-a como um grande mestre para as breves páginas da aventura, sem esquecer de fazer sua própria versão da robô de Rotwang e que um dia inspiraria C-3P0 e também da máquina Moloch como sede da Gestapo. É de literalmente fazer o queixo cair, em uma daquelas experiencias da Nona Arte que chega a dar tristeza quando acaba.

As Rosas de Berlim, mesmo com a proposta simplificada da Trilogia Nemo, é quadrinhos para se abraçar com ternura e lágrimas nos olhos pela sensacional abordagem de Moore e O’Neill para a Alemanha nazista. Vários passos a frente do primeiro volume, este aqui merece realmente figurar ao lado de seus pares na série principal.

Nemo: As Rosas de Berlim (Nemo: The Roses of Berlin, EUA/Reino Unido – 2014)
Roteiro: Alan Moore
Arte: Kevin O’Neill
Letras: Todd Klein
Cores: Ben Dimagmaliw
Editoras (originais): Top Shelf (EUA), Knockabout Comics (Reino Unido)
Data original de publicação: março de 2014
Editora (no Brasil): Devir
Data de publicação no Brasil: outubro de 2018
Páginas: 55

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.