Crítica | Nemo: Rio de Espíritos (A Liga Extraordinária)

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Alan Moore e Kevin O’Neill encerram sua Trilogia Nemo, spin-off de A Liga Extraordinária focado em Janni Dakkar, filha do Capitão Nemo, com Rio de Espíritos que, novamente, estabelece uma elipse que arremessa o leitor para décadas à frente do magnífico capítulo anterior, mais especificamente para 1975. Agora, a protagonista já é uma senhora idosa, no final da vida, mas ainda cheia de energia e completamente obcecada com Ayesha, sua inimiga desde Coração de Gelo, mas que ela decapitara durante a Segunda Guerra Mundial. Essa sua obsessão é bem trabalhada para apontar sua possível senilidade – certamente é assim que sua filha a vê -, algo reiterado pela constante presença, ao seu redor, dos fantasmas de seu passado, dentre eles, claro, o de seu marido Broad Arrow Jack, com quem interage.

Moore trabalha rápido para suprir as lacunas entre As Rosas de Berlim e a última aventura de Janni, estabelecendo-a como uma líder a quem diversos grupos de seus inimigos, notadamente os nazistas, devem total obediência, como Ursula, filha do Dr. Mabuse, o Coronel Manfred Mors, neto do Capitão Mors e assim por diante. O leitor é obrigado a aceitar essa situação como fato consumado e sem muitos detalhamentos que poderiam atrapalhar a narrativa, que já começa com a partida do Náutilus para a Amazônia, pois é lá que a protagonista acha que encontrará Ayesha novamente. Mas, antes da partida, um novo membro é trazido para o grupo e que funciona não só como guarda-costas de Janni, como também o deus ex machina de plantão: Hugo Coghlan. O personagem é uma amálgama de Hugo Hercules, considerado como o primeiro super-herói americano dos quadrinhos (publicado originalmente entre 1902 e 1903)  e Cú Chulainn, um herói da mitologia irlandesa, ambos, claro, bebendo da mitologia grega e sua chegada é o ponto focal do começo da história, com sua presença sendo constantemente sentida ao longo de toda a narrativa.

Bem-vindos ao Mundo Perdido!

De certa maneira, apesar de por razões diferentes, Rio de Espíritos segue a mesma estrutura de Coração de Gelo, revelando-se uma história bem menos ambiciosa do que o capítulo do meio da trilogia, ainda que Moore e Kevin O’Neill tenham claramente se divertido ao costurar referências a O Monstro da Lagoa Negra, de 1954, O Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle, As Esposas de Stepford, de 1975 (refilmado como Mulheres Perfeitas, em 2004), Meninos do Brasil, de 1978, além de novamente O Grande Ditador e até mesmo Josef Mengele, o monstro nazista da vida real. Quem está acostumado com a série A Liga Extraordinária, sabe como os dois são mestres em reunir referências tão díspares como essas em um conjunto harmônico e perfeitamente dentro da lógica interna estabelecida. Toda a parafernália da tentativa de se reviver o Reich em meio à floresta amazônica não só segue as lendas urbanas do “Reich eterno” como permite o encaixe de tudo como uma continuação crível da edição anterior, sempre com um ritmo bem apertado e grandiosas e destrutivas sequências de ação.

O caminho narrativo, porém, é básico, algo que é o objetivo da Trilogia Nemo, não posso negar, mas os aspectos visuais deslumbrantes que vimos em As Rosas de Berlim não encontram eco neste derradeiro capítulo. Mas não me interpretem erroneamente. A arte de Kevin O’Neill é irretocável, da mais alta qualidade, com alguns splash pages de tirar o fôlego do leitor, mas esse cantinho do universo criado por Moore simplesmente não é tão interessante e visualmente esplendoroso como a Berlim expressionista do capítulo anterior. Sim, há dinossauros e sim, há monstros da lagoa negra (ou rio negro) assim como as “bikinitrons”, mas tudo fica um ou dois degraus abaixo do que veio imediatamente antes, equiparando-se mais ao primeiro número da trilogia também nesse ponto.

Seja como for, a história é um encerramento digno para o arco de décadas de Janni Dakkar, certamente alçando-a a um dos grandes personagens da Liga Extraordinária, mesmo que ela nunca tenha oficialmente feito parte da equipe. Alan Moore e Kevin O’Neill mais uma vez mostram total controle da mídia em que trabalham e entregam uma obra que até pode não chegar ao nível de suas colaborações anteriores, mas que mesmo assim merece toda a atenção de seus leitores.

Nemo: Rio de Espíritos (Nemo: River of Ghosts, EUA/Reino Unido – 2015)
Roteiro: Alan Moore
Arte: Kevin O’Neill
Letras: Todd Klein
Cores: Ben Dimagmaliw
Editoras (originais): Top Shelf (EUA), Knockabout Comics (Reino Unido)
Data original de publicação: março de 2015
Editora (no Brasil): Devir
Data de publicação no Brasil: março de 2019
Páginas: 51

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.