Crítica | Nerve: Um Jogo Sem Regras

Diferente do que é explicitado no título nacional desta aventura cyberpunk, “Nerve” é um jogo com muitas regras. Caso você seja jogador, será preciso segui-las fielmente para não perder o “esquema”. Com altas doses de adrenalina, haja vista a sua estética frenética, Nerve – Um Jogo Sem Regras segue a linha das narrativas tomadas por rebeldia, apostas corajosas, desafios absurdos e “falta de noção” para conseguir o que tanto almeja. No caso dos jogos propostos, o retorno financeiro é o bem almejado, algo sedutor, juntamente às curtidas e a fama diante das pessoas que assistem a sua interação e o tornam uma celebridade instantânea. Mixagem de Pokémon Go, Instagram, Facebook e o voyeurismo típico do estilo reality show, a produção é uma divertida e intrigante jornada que deflagra alguns pontos do comportamento humano, em especial, o juvenil, diante das novas formas de comunicação na atual era da cibercultura.

Sob a direção da dupla formada por Henry Hoost e Ariel Schulman, ambos guiados pelo roteiro de Jessica Sharzer, dramaturga que por sua vez, inspirou-se no romance homônimo de Jeanne Ryan, Nerve – Um Jogo Sem Regras é o nosso ingresso enquanto espectador pela saga de Venus (Emma Roberts), conhecida como “Vee” pelos mais próximos. Ela é filha de uma mãe jovem (Juliette Lewis), mas relativamente conservadora, temerosa pela vida da garota, já que no passado, perdeu um filho. Recatada e tranquila, Vee segue a sua vida comum ansiosa com os novos rumos que pretende tomar, pois será preciso coragem e determinação para conseguir deixar a vida que leva e seguir rumo ao curso de Artes que tanto deseja cursar na faculdade. Para alçar tal voo, no entanto, ela precisará de grana. Por que não ganhar dinheiro mais rápido que o exercício de garçonete, vendedora, dentre outras funções mais tradicionais?

É com este sentimento que a garota, incentivada por Sydney (Emily Meade), a sua melhor amiga, se tornará uma das inscritas no jogo que leva o título do filme. Há duas opções no ato de inscrição: ou você é observador ou segue a linha determinada dos jogadores, sempre em perigo diante dos olhares que anseiam perigos e muitas situações inusitadas. A ideia é cumprir a missão solicitada por que é espectador. As missões vão desde atravessar uma via movimentada de moto com os olhos vendados ou atravessar dois prédios por meio de um fio que os interliga. É um amontoado de coisas insanas, tudo em prol do dinheiro que será enviado como prêmio pelo cumprimento das missões, além da fama que se estabelece diante dos mais corajosos, aqueles que aceitam e vencem os desafios mais perigosos. Tal como se prega nas redes sociais atualmente, em Nerve – Um Jogo Sem Regras, você se torna relevante a cada etapa excêntrica que dribla, numa aventura empolgante, mas também muito perigosa.

Quem também vai ajudar Vee nos desafios é o experiente Tommy (Miles Heizer), juntamente com Ian (Dave Franco), moço atraente e corajoso que se tornará o já esperado interesse amoroso da jovem que há instantes, era recatada, mas tomada por incentivos e ovacionada em seus primeiros desafios. Ela ganha fôlego para cumprir missões num shopping, adentrar espaços inusitados, dentre outras etapas nada fáceis de se realizar. A ideia principal, pelo que perceberemos próximo ao desfecho, é a crítica ao exibicionismo dos usuários das redes sociais, aplicativos e depois vias de comunicação/exposição da cultura tecnológica contemporânea. Sem esconder em momento algum as suas referências, num exercício nada comedido de metalinguagem, “Nerve” flerta com Jogos Vorazes, traz as bases da Jornada do Herói e dialoga com diversos outros ícones da cultura pop contemporânea. Aqui, a missão precisa ser cumprida até meia-noite e o cavalo branco do príncipe encantado é representado pela moto turbinada que promoverá momentos de pura diversão e adrenalina.

Editadas pela dupla formada por Madeleine Gavin e Jeff McEvoy, as cenas de Nerve – Um Jogo Sem Regras são sempre intensas, frenéticas, banhadas pelo tom neon típico das narrativas ao estilo cyberpunk, isto é, tramas vinculadas ao campo da ficção científica que enfocam na Alta Tecnologia, tendo como contraponto a baixa qualidade de vida proporcionada por tais inovações, numa mixagem de ciência avançada, tecnologias da informação, geralmente a exibir uma atmosfera computadorizada ambígua e invasiva, prejudicial aos seres humanos. O termo, cunhado em 1983 por Bruce Bethke, aborda a cultura cibernética por meio da desintegração de alguns parâmetros sociais, tendo nos marginalizados, solitários e os demais sobreviventes à margem da sociedade, o seu foco de desenvolvimento narrativo. É a cultura da distopia, espaço onde a vida cotidiana é impactada pelos movimentos bruscos do desenvolvimento tecnológico.

Esse clima é bastante visível no que concerne os aspectos estéticos da produção, mas claro, com algumas ressalvas, pois a aventura não é distópica em nada. O que nos é apresentado como absurdos do virtual na verdade é parte intrínseca de nossa realidade, por mais ficcional que isso possa parecer. A direção de fotografia de Michael Simmonds acerta em cheio com o tom futurista. É a reiteração do que é exposto constantemente nos diálogos e na base do argumento dramático. Conduzidos pela trilha sonora de Rob Simonsen, os personagens desta aventura circulam pelos espaços concebidos pelo design de produção assinado por Chris Trujillo, um espetáculo no campo da visualidade, setor adornado pelos eficientes efeitos visuais da equipe de Eran Dinur, responsáveis por emular a linguagem dos games diante da tela. Acompanhamos tudo como se fossemos, também, os tais observadores e jogadores. É tudo bastante empolgante e conveniente no processo de desenvolvimento dos conflitos narrativos.

Lançado em 2016, Nerve – Um Jogo Sem Regras é pura fluidez em quase os seus 97 minutos de duração. O final descamba para o moralismo e aposta num tom didático-pedagógico que já estava nas entrelinhas, mas que por alguma necessidade dos realizadores, foi exposto de maneira mais óbvia para tornar o filme um “aviso” para as inconsequências de nossa atua geração voltada às regras ditadas pela fama e suposto poder na cultura das mídias e das redes sociais. No final das contas, o que era apontado como ciberativismo se torna passível de punição, algo comum na sociedade do crime e castigo em que vivemos. A rebeldia é pulsante, mas as forças de contenção parecem estabelecer a ordem no desfecho deste filme de ação que se vende como entretenimento, sem pretensões em ser um documentário sobre os jovens e seus respectivos comportamentos diante da tecnologia. Tudo isso é reflexão nossa, enquanto espectadores críticos, também integrados nesta cultura frenética que há algumas décadas, seria pensada como algo impossível ou parte de elucubrações excessivas de mentes criativas.

Nerve: Um Jogo Sem Regras (Nerve) – EUA, 2016
Direção:
 Henry Joost, Ariel Schulman
Roteiro: Jessica Sharzer (baseado no livro de Jeanne Ryan)
Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emily Meade, Miles Heizer, Kimiko Glenn, Marc John Jefferies, Machine Gun Kelly
Duração: 96 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.