Crítica | Never Rarely Sometimes Always

Escrever sobre um filme como Never Rarely Sometimes Always (2020) é um dos muitos momentos em que fica gritante o meu desejo de que tivéssemos hoje em nosso quadro uma mulher como colunista, para que o texto sobre o filme pudesse ter não apenas um viés analítico-social de abordagem (como o meu), mas também de uma experiência de fala, algo que só uma mulher poderia ter, por motivos óbvios. E veja bem a palavra que eu utilizei aqui: “experiência” e não “lugar” de fala, já que este último é algo que todo mundo tem (ou que deveria ter, em um cenário social onde existe liberdade de expressão), e que como grito hoje muito utilizado por aí (“você não pode falar sobre isso, não é o seu lugar de fala“) termina em silenciamento ou desqualificação de opiniões de indivíduos fora do fenômeno em debate.

O título em inglês dá conta das opções em um questionário sobre a frequência em que certos eventos ocorrem na vida de uma pessoa (nunca, raramente, às vezes, sempre) e no presente longa, escrito e dirigido por Eliza Hittman (Ratos de Praia), referem-se às experiências sexuais e relações afetivas de uma mulher frente aos seus parceiros, a fim de se montar um quadro prático da vida e emoções anteriores à sua escolha pela clínica de aborto. E é por isso que eu citei acima a importância da experiência de fala num argumento central como este. Em minha leitura, como homem, haverá apenas o que é possível em casos assim: uma análise crítica, observacional, caminho tomado por qualquer um extra-pele a quem está no centro de um problema. Aqui no site vocês vão encontrar vários momentos impactantes em que eu também me deparei com isso, mas vou destacar dois, um também sobre o aborto, em 24 Semanas e outro sobre estupro, em Elle.

Bem mais interessante do que o tratamento dado pela cineasta à masculinidade e à homossexualidade em Ratos de Praia, o presente filme retrata com grande poder os efeitos de uma violência ou abuso sexual (embora isso não seja explícito, há muitas indicações ao longo da obra) na vida de uma jovem que, por inúmeros fatores externos a ela, não é devidamente denunciado. A diretora deixa claro que o problema é composto por uma série de camadas envolvendo sistema e atores sociais, e por isso mesmo faz um recorte específico dentro da premissa perfeita para esse tipo de linha narrativa: o estudo de caso. A vítima da violência aqui é Autumn (Sidney Flanigan), que engravida após ser estuprada. Seu silêncio em relação ao ato leva a jovem a um outro patamar, que é o de busca pelo que fazer e como fazer com o bebê que ela não quer.

Embora o roteiro estenda demasiadamente situações que poderiam se beneficiar com a presença de mais personagens ou elementos também conhecidos nesse tipo de cenário, fica evidente que a cineasta procurou basear a sua direção no máximo de nuances e silêncios possíveis. Não vejo tudo isso como um benefício a longo prazo para o filme, mas a sensação pretendida pela diretora está fixa aqui, inquestionável: as horas intermináveis de desespero e dúvida, a angústia de não poder contar com ninguém (ou com pouquíssimas pessoas), o medo de represália social e, por tabela, o medo de qualquer outra violência masculina, a qualquer momento. Evidente que isso aparece no enredo como uma “conveniência neurótica” à mão justamente quando o roteiro mais precisa para delinear a visão emocionalmente perturbada da protagonista e de sua prima, mas tudo é real aqui… do assediador que se exibe no metrô ao bem-intencionado jovem paquerador que só quer dar uns beijos e curtir a presença de uma garota que acabou de conhecer. Depois de uma violência e com a vítima ainda tendo que lidar com as consequências do que foi cometido conta ela, tudo, à primeira vista, causa medo.

O roteiro não está interessado em discutir o aspecto ético, moral, legal ou de qualquer outra ordem do aborto, assim como não se propõe a discutir uma luta da mulher contra o sistema e contra seu algoz pessoal. A angústia maior do filme é esse sentimento de “resignação” desesperada, marcada, claro, por uma tomada de atitude, mas sempre às custas da mulher. Essa sensação de abandono está o tempo inteiro no filme, como já citei, fortemente costurada pelo silêncio, mas também por um trilha sonora econômica, uso mais restrito de diálogos e muitas ações, expressões e sentimentos transmitidos apenas através das atuações. A novata Sidney Flanigan não desperdiça o papel, mas não tem o alcance dramatúrgico necessário para levar nas costas um filme onde pelo menos metade das emoções são transmitidas apenas pela forma como a atriz constrói seu personagem. A mensagem final, no entanto, está dolorosamente talhada. E ela alcança um nível ainda maior de impacto por sabermos que é um retrato cruel da nossa realidade.

Never Rarely Sometimes Always (Reino Unido, EUA) — 2020
Direção: Eliza Hittman
Roteiro: Eliza Hittman
Elenco: Talia Ryder, Sidney Flanigan, Ryan Eggold, Sharon Van Etten, Aurora Richards, Rose Elizabeth Richards, Brian Altemus, Lizbeth MacKay, Mia Dillon, Drew Seltzer, Théodore Pellerin
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.