Crítica | New Amsterdan – 1ª Temporada

Numa dessas navegações sem bússola pela internet, levado para os vários lados das entrecruzadas correntezas de informações que dominam o espaço virtual, lembro-me de ter encontrado uma reflexão no cantinho da tela, parte integrante do acervo de determinado site que trazia ideias comuns ao primeiro ano da série New Amsterdan, drama médico que segue o esquema semelhante aos demais programas do estilo, tendo como diferencial a inspiração num livro que narra as experiências reais de um médico e sua gestão num caótico hospital. Semelhante aos traumas e tensões da série brasileira Sob Pressão, os profissionais e pacientes (nem sempre) sobrevivem ao que podemos chamar de “apocalipse social”.

Mas, de volta ao texto convergente comentado, do que se tratava? Explico. Era uma reflexão do midiático e competente médico, escritor e filósofo Dráuzio Varella, alegando que as formaturas do curso de medicina deveriam acabar de vez com o juramento de Hipócrates. Em seu texto, Varella questionava o tom sacerdotal deste juramento, algo que na prática tornou-se impossível de ser praticado há eras. Considerando que obviamente há metáforas e elementos filosóficos no texto, a concepção do juramento parece focar no altruísmo de salvar vidas, algo que na medicina contemporânea deveria ser a finalidade secundária, afinal, o mais importante seria aliviar o sofrimento humano de quem procura ajuda hospitalar.

A reflexão goza dos privilégios de um médico que se tornou pensador contemporâneo brasileiro, isto é, alguém que pode trazer tais pontos e coloca-los em debate sem necessariamente enterrar a sua carreira já bem estabelecida. Mas ainda para os que discordam de suas observações, devo dizer que como leitor, há muita pertinência nas observações, principalmente quando lida e associada ao longo da maratona de episódios da primeira temporada de New Amsterdan e do desfecho da brasileira Sob Pressão, séries com abordagens humanísticas e médicas similares. Criada por Peter Horton, um dos produtores de Grey’s Anatomy, o primeiro ano trouxe textos de David Foster, Shaun Cassidy e Eric Manheimer, dirigidos pelo criador e sua equipe que teve Michael Slovis, Laura Belsey e Darnell Martin como responsáveis pela maioria dos episódios.

Assim, adentramos especificamente nos elementos narrativos de New Amsterdan. Na série, acompanhamos o cotidiano dos médicos inspirados no livro 12 Pacientes: Vida e Morte no Hospital Bellevue, de Eric Manheimer, profissional que precisou enfrentar um câncer e gerenciar um hospital, semelhante ao que acompanhamos ao longo dos 20 episódios da primeira temporada do programa. Além da responsabilidade que se apresenta como uma bomba prestes a explodir em sua vida, ele precisa lidar com o nascimento de seu filho e seu casamento que carece de ajustes. Como todo líder, há ainda a resistência dos colegas ao seu modelo de trabalho, bem como as inconsistências sistêmicas que envolvem corrupção e celeumas semelhantes. Na série, Manheimer é transformado em Dr. Max Goodwin (Ryan Eggold). Responsável por gerenciar o hospital mais antigo de Nova Iorque, Goodwin busca levar otimismo onde o caos está enraizado, dar jeito nas enormes filas de um sistema pouco interessado em resolver as demandas de saúde, além de tentar resolver os problemas ligados ao sucateamento das macas e demais utensílios básicos para atender a gama de pacientes que busca o centro hospitalar. Junto com ele há a Dra. Helen Sharpe (Freema Agyeman), Dra. Laureen Bloom (Janet Montgomery), Dr. Floyd Reynolds (Jocko Sims), etc.

Os pacientes funcionam como uma representação do caldeirão de culturas estadunidenses. Negros, latinos, italianos, brancos e pessoas pobres surgem em clemencia por atendimento, juntamente com outros casos que representam as maiores preocupações da política do local: indivíduos contaminados por perigosos vírus e bactérias oriundos do descontrole em alguma viagem internacional, feridos por armas de fogo e outras ocorrências da violência urbana que cresce vertiginosamente, etc. Em meio aos pacientes com suas diferenciadas necessidades especiais há a médica que adora dar depoimentos para a mídia, o pediatra em busca de um revolucionário tratamento para a depressão, uma médica que se apaixona por um paciente, dentre outros casos que coadunam com um dos temas centrais: a necessidade de empatia no ambiente hospitalar, espaço para gerenciamento de tensões.

No que tange aos elementos estéticos, New Amsterdan mantém a padronização das séries médicas. A condução musical de Craig Wedren segue o bordão popular “dançar conforme a música” e emprega melancolia para os momentos de trauma e dor e aposta em sons pulsantes para as cenas de adrenalina. Trajados pelos figurinos de Tina Nigno, os personagens circulam pelos ambientes erguidos por Kristi Zea e Audra Avery, profissionais responsáveis pelo design de produção que aposta nos tons hospitalares (branco, verde, azul), sem deixar de trazer adereços e outros elementos para reforçar a sensação de caos de um lugar “caindo aos pedaços”. Tais elementos são captados pela direção de fotografia assumida por Stuart Dryburgh e Andrew Voegeli, eficientes para o que é solicitado dramaticamente pelos roteiros.

Na seara das relações com a realidade, retornamos ao texto polêmico de Dráuzio Varella. Humanizar o paciente, mas como anda a humanização do médico? Há o desprezo com a saúde em plantões longos demais. O luxo e a sofisticação de Grey’s Anatomy e The Resident aqui encontram a escassez de elementos básicos. Aliviar o sofrimento, como dito pelo texto, é mais sensato que necessariamente vestir o jaleco como capa de super-herói, tendo em vista curar o paciente e, ao mesmo tempo, curar a si mesmo no que concerne aos “demônios pessoais”, tudo isso enquanto o ego é massageado pelos demais colegas que o alicerçam ao posto de herói competente e exemplar. Quem não quer isso, não é mesmo? Mas nesta profissão, infelizmente, não dá para ganhar a batalha o tempo inteiro e a série não deixa de reforçar tal detalhe a cada episódio e atendimento realizado pelos personagens. Com renovação para sua segunda temporada, New Amsterdan deve manter o mesmo padrão. Momentos frenéticos, casos mirabolantes e decisões nem sempre éticas para conseguir dar conta das demandas hospitalares.

New Amsterdan – 1ª Temporada (idem, Estados Unidos/2018).
Criação: Peter Horton
Direção: Michael SlovisLaura Belsey, Peter Horton, Darnell Martin, Jamie Payne, KateDennisAndrew McCarthy, Jonas Pate, Ellen S. Pressman
Roteiro: Joshua Carlebach, Shaun Cassidy, Cami Delavigne, David Foster, Aaron Ginsburg, Eric Manheimer
Elenco:Ryan EggoldJanet Montgomery,Jocko Sims, Zabryna Guevara, Anupam Kher, Tyler Labine, Lisa O’Hare, Margot Bingham,
Duração: 45 min (cada episódio – 22 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.