Crítica | New York, New York

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Celebração de um relacionamento, da vida na cidade e de uma carreira, New York, New York (1977) é um filme desengonçado de Martin Scorsese, com uma história comercial cheia de cortes, relançamentos e má recepção do público e de parte da crítica, o que é perfeitamente compreensível. Seu corte original de 155 minutos sofreu uma alteração (retirada de 20 minutos) após o fracasso inicial nas bilheterias, mas nem isso ajudou a impulsionar o filme.

O texto de Earl Mac Rauch e Mardik Martin começa com uma grande festa de comemoração pelo fim da guerra (ou seja, com a rendição do Japão, em 15 de agosto de 1945) e desde os primeiros minutos o espectador percebe a intenção do diretor em nos guiar para este cenário de fantasia dentro da realidade, com indicações claras a partir do suave filtro da fotografia (que tem excelentes momentos no decorrer da fita, assim como os figurinos e a direção de arte, tipicamente gloriosa nos filmes de Scorsese) mais a óbvia indicação de que estamos em um musical. A câmera segue dando destaque para diversas fontes sonoras como microfones, locução e instrumentos musicais, que se misturam ao riso e às conversas dos habitantes de Nova York. Era o fim da guerra, afinal.

Mas não demora muito para lamentarmos que esse mundo tenha alguém tão insuportável como Jimmy Doyle, um daqueles personagens que a gente só consegue assistir porque tem um ator do peso de Robert De Niro por trás. E o mais curioso é que na reta final do filme — e só aí! — nós até engolimos o personagem, talvez por perceber nele alguma mudança, talvez porque o foco do roteiro, misturando algo de melancolia à promessa de amor na cidade e através da música, indica uma mudança no ar. O fato é que De Niro e (principalmente) Liza Minnelli, que está soberba em seu papel de Francine Evans, é quem verdadeiramente segura o filme nas costas, ao lado dos setores técnicos. Mas é absolutamente fatigante ver o que acontece com esses personagens, porque o roteiro é de uma bagunça, de um desencontro de foco que chega a irritar.

O que entendemos pelas referências utilizadas no longa (com chamadas belíssimas a Rua 42Eles e ElasAmor, Sublime Amor) é que o diretor procurou mergulhar nesse Universo e fazer com que os personagens amadurecessem, sofressem e fossem felizes nele, um processo que depende de música, dança, cor e mudança de cenários através do tempo para que se dê de modo satisfatório. Esses desencontros, no entanto, são demasiados a ponto de só nos atermos à excelência técnica da obra (exceção à montagem) e às atuações. Toda a longa jornada para a “história de amor impossível” acaba saturando muito rápido e quando o texto resolve focar nas vidas separadas de cada um, o espectador sente o vazio deixado pela falta de desenvolvimento em outras áreas. Aí o peso da duração da obra se faz sentir com intensidade. E a impressão de produto bagunçado se fixa.

Existem piscadelas visuais (na direção e fotografia) que nos fazem rememorar O Ponteiro da Saudade (1945), Um Dia em Nova York (1949) e até Cantando na Chuva (1952), de modo que a beleza e o referencial de New York, New York acaba valendo bastante a sessão. Mas o seu pior ponto continua sendo a inconstância e insistência da história numa mesma linha amorosa que acaba trazendo mais melodrama do que deveria para o musical. O resultado é um filme visualmente irresistível, mas que demora imensamente para nos engajar e com uma jornada de vida a dois que não consegue muita coisa sozinha. Um charmoso elefante branco de Martin Scorsese.

New York, New York (EUA, 1977)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Earl Mac Rauch, Mardik Martin
Elenco: Liza Minnelli, Robert De Niro, Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place, Georgie Auld, George Memmoli, Dick Miller, Murray Moston, Leonard Gaines, Clarence Clemons, Kathi McGinnis, Norman Palmer, Adam David Winkler, Dimitri Logothetis
Duração: 155 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.