Crítica | Neymar Jr. – O Tubarão

No território da linguagem a missão da paródia é ir além das possibilidades de fornecimento de entretenimento aos que conferem os seus resultados expressivos. Apontada como uma releitura cômica de alguma obra artística, a paródia faz uso da ironia e do de boche para estabelecer o diálogo com o “original”, considerado adequadamente como ponto de partida. Assim, ao ser bem conduzida, empregada sentidos diferentes ao proposto, geralmente associados aos elementos críticos, políticos e reflexivos. É uma espécie de recriação de algo consagrado, largamente conhecido e estabelecido em nosso imaginário, neste caso, o filme Tubarão, de Steven Spielberg.

Lançada em março de 2015, Neymar Jr. – O Tubarão é uma edição do personagem com 98 quadrinhos, a nos mostrar um dia na vida do personagem que após assistir ao clássico filme inspirado no romance de Peter Benchley, tem a sua vida transformada. Tomado pelo horror, a praia, um de seus locais favoritos para jogar bola e desanuviar, torna-se o seu maior pesadelo. Em diálogo com o imaginário do filme, de grande repercussão no tecido social dos espectadores desde 1970, Neymar Jr. – O Tubarão utiliza bom humor, diálogos leves e divertidos, bem como adequado design de diálogos e imagens para estabelecer a metalinguagem de maneira eficiente e dinâmica.

Neymar é um menino saudável, apaixonado pela vida e extrovertido ao longo de seu cotidiano de brincadeiras com os amigos, futebol, sonhos e paixões. Por morar perto da praia, constantemente circula de pés descalços, trajado de bermuda e camiseta. Certo dia, durante a noite, ele assiste ao filme Tubarão apavorado no sofá diante da televisão. A sua irmã, ciente da situação, alega que ele não deveria ter assistido, pois vai ter pesadelos constantes e tornar a vida de quem convive com ele um transtorno. Desdenhoso, Neymar diz que sonha apenas com futebol. Assim, seguem para dormir e ao amanhecer, deslocam-se para a praia.

O clima de verão é estabelecido pelas cores dos quadros, um jogo semiótico de intensidades entre alegria e desconfiança, medo e delírio. Tal como as considerações teóricas sobre imaginário que considera o mito uma sucessão de imagens arquetípicas organizadas numa sequência coerente, similar ao que observamos nas histórias em quadrinhos, a trajetória de Neymar diante do mito do tubarão-branco assassino é hilária, sem deixar de ser coerente e crítica. Os tons paródicos estão nas onomatopeias, nos balões que saem da televisão e brincam com os absurdos de filmes de tubarões que além de atacar no mar, agarram helicópteros, dentre outros absurdos.

Assim, em sua crise de medo, Neymar vai causar maior transtorno na praia, até conseguir esquecer o filme. Estruturalmente, a elipse de movimentos funciona bem, ao promover adequadamente a passagem do tempo, bem como a complementaridade e alternância da narrativa e da visualidade. Os neologismos dos aspectos linguísticos também estão em bom tom, tal como as linhas imaginárias que dividem os quadros, que funcionam como uma câmera eficiente em sua “direção de fotografia”. Sem elipses bruscas, a história se desenvolve de maneira humorada e com interessante diálogo intertextual diante de um dos filmes mais bem estruturados visualmente da nossa história cinematográfica.

Com projeto editorial da Panini Brasil Ltda, a produção editorial da edição foi comandada por Alex Yamaki, gestor do designer de Henrique Ozawa e Marcos Tachhi. Maurício de Sousa, como em todos os seus produtos, cumpre a função de supervisor geral. Os quadrinhos da Turma da Mônica são publicados no Brasil desde 1959, tendo Bidu e Franjinha como os primeiros personagens, antecipadores de Cebolinha, Cascão, Magali e Mônica, a última, não protagonista inicialmente, personagem que conquistou sucesso ao passo que suas situações foram ganhando a simpatia do público. Neymar é um produto do mesmo segmento, mas navega na linha de Penadinho, Horácio e Chico Bento, isto é, gravitam dentro deste universo expandido.

Neymar Jr. – O Tubarão – Brasil, 2015
Roteiro: Maurício de Sousa, Felipe C. Ribeiro
Arte: Tatiana M. Santos e Wagner Bonilla
Cores: Diogo Nascimento, Giba Valadares, Marcelo Conquista, Mário Souza
Editora: Panini Comics, Mauricio de Souza Editora
Páginas: 66

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.