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Crítica | Nick Cave: 20.000 Dias na Terra

por Rafael W. Oliveira
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Dentro da persona de Nick Cave, vocalista da banda Nick Cave and the Bad Seeds, peculiar talvez seja pouco para definir a representatividade de sua figura na trajetória do rock. Dono de uma voz que paira entre o cansado e o potente, entre o sussurro e a explosão, Cave sempre se manteve próximo de temas universalmente humanos como morte, religião, violência e amor, elaborando letras e melodias enigmáticas que fixaram seu trabalho como, se não algo exatamente popular, ao menos singular na arte do rock e sua força de simbologia\interpretação.

Nick Cave: 20.000 Dias na Terra nasceu de um estado extremo de auto-consciência de Cave, sobre Cave e para Cave. Como dito em poucas linhas de diálogos já na abertura, o cantor está há vinte mil dias na Terra e já não se define, ou melhor, já deixou de ser humano. Adotando à partir daí uma linguagem narrativa que se diz documentada, mas clara e objetivamente se confunde com a ficção, os diretores  Iain Forsyth e Jane Pollard seguem Cave, durante um suposto dia inteiro, em suas sessões de terapia (metalinguagem óbvia com o aspecto analítico do filme), ensaios da gravação do álbum Push the Sky Away, encontros do artista com figuras colaborativas que passaram por sua vida, como Ray Winstone e Kylie Minogue, e culminando numa apresentação da banda na Ópera de Sidney. 20.000 Dias na Terra é a viagem-testamento de uma figura atrás de sua própria purificação.

E por mais que haja um nítido controle de limite sobre até onde ir na exploração da obra, produzida pelo próprio Cave e com colaboração do mesmo no roteiro, a encenação promovida é competente em seu intimismo ao explanar verbalmente os medos, anseios, sonhos e desejos do artista, aqui num divã para com o público onde nos é permitido contemplar a humanidade por detrás daquela personalidade por vezes fúnebre, por vezes poética, por vezes dilacerante que víamos no palco. Sempre ressaltando sua constante evolução como artista e através de sua arte, e também o seu apego à memória e ao medo de ser esquecido, o cantor caminha por esses viés com uma coragem atípica frente às câmeras, num processo de auto-análise que surpreende pela honestidade, apesar do já comentado controle em alguns momentos sobre até onde ir nessa busca por si próprio.

E é também da confusão entre ficção e realidade promovida pela encenação das cenas que Forsyth e Pollard conferem a liberdade para que Cave brinque com sua própria figura dentro e fora dos palcos, numa brincadeira de identidade que leva o público a uma reflexão temática sobre o que é o interior e o exterior, sobre o que somos para nós e o que somos para os outros.

Assim, 20.000 Dias na Terra escapa, ao seu final, de ser meramente uma análise pessoal para se tornar uma análise existencialista sobre o próprio ser humano enquanto caçador de sua identidade. A finalização musical da obra parece desnecessária diante da densidade a qual a obra nos havia submetido antes, e se há claros excessos nas próprias encenações (algumas poucas extrapolam o senso de objetivo do filme) e alguns diálogos formulaicos espalhados, isso é absolutamente pouco diante do estudo e da desmistificação proporcionada por 20.000 Dias na Terra.

Nick Cave: 20.000 Dias na Terra (20,000 Days on Earth) — Reino Unido, 2014
Direção: Iain Forsyth, Jane Pollard
Roteiro: Nick Cave, Iain Forsyth, Jane Pollard
Elenco: Nick Cave, Susie Bick, Warren Ellis, Ray Winstone,  Darian Leader,  Blixa Bargeld, Kylie Minogue, Arthur Cave
Duração: 97 min.

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