Crítica | Nick Raider: A Vítima Sem Nome

NR #1 - plano critico Nick Raider A Vítima Sem Nome (1988)

Dos títulos da Sergio Bonelli Editore que tive a oportunidade de conhecer a estreia (considerando que minha jornada pelas “primeiras aventuras” de cada criação da casa italiana ainda está no início — escrevo esta crítica em 7 de março de 2018), todas, diferente de A Vítima Sem Nome, tiveram avaliações no mínimo acima da média para mim, e vejam estou falando de obras bastante diferentes em proposta de personagens, espaço e tempo, vistos pela primeira vez em O Totem Misterioso (1948), Encontro na Floresta (1961), Mister No (1975), Rifle Comprido (1977), Os Homens de Negro (1982), O Despertar dos Mortos-Vivos (1986), Agente Especial Alfa (1991), Forte Ghost (1997), Os Olhos do Abismo (1998) e Os Saqueadores do Deserto (2007).

Nesta trama de nascimento de Nick Raider, lançada originalmente na Itália, em 1988, me deparei com um tipo de abordagem e valores de personagem que quase fogem ao que a própria Bonelli adota como norte em sua linha editorial. Com roteiro de Claudio Nizzi e arte de Gustavo TrigoA Vítima Sem Nome tem como base narrativa um assassinato em condições muito organizadas e moduladas para enganar a polícia de Nova York, da qual Nick Raider é agente do Departamento de Homicídios. Bastante focado em narrativas policiais americanas, o roteirista procurou explorar o máximo de cenas de ação e pequenos mistérios adicionais a fim de desviar a atenção do leitor. Como a implementação da dúvida é uma das principais iscas desse gênero, aproveitamos a deixa e esperamos para ver o que o protagonista fará até chegar aos bandidos.

Lançadas as bases do assassinato, somos colocados na Delegacia e conhecemos alguns coadjuvantes, parceiros de trabalho de Nick, cuja inspiração artística na figura do ator Robert Mitchum nos faz ter um pensamento curiosamente dúbio em relação ao caráter do personagem. A premissa, até esse momento inicial da investigação, se mantém interessante. As voltas para o estabelecimento dos “atores do crime” são demasiadas, mas nada exatamente desagradável. O problema começa logo depois da visita de Nick e do “Velho Art” à suposta viúva da história. Todas as boas cartas daí então são rapidamente postas em segundo plano, o roteiro enxugado nos momentos que deveria ser expandido e a intriga principal diluída em dramas paralelos que, a rigor, não contribuem para o crescimento da história.

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Nick chega à delegacia.

Um leitor mais apaixonado poderia defender esses momentos dizendo que eles servem para “dar mais camadas dramáticas a Nick” ou para “intensificar a atmosfera de perigo“, mas sejamos sinceros: a primeira cena na delegacia, que é muito bem escrita, por sinal, mesclando bom humor e elementos de narrativa policial, já tinha feito tudo isso. Não havia a menor necessidade de colocar “bolsões de drama” no decorrer da história apenas com a desculpa de fazer algo que a investigação em si já traria para o personagem. Querem exemplo maior disso do que a cena final, especialmente no — terrível, em minha opinião — tratamento de Nick para com a criminosa, no trem? A mensagem de Nizzi no desfecho de A Vítima Sem Nome é bem clara, colocando muito mais amargor e doses de anti-heroísmo em Nick Raider do que deveria, marcando uma linha que certamente afasta uma parte dos leitores (eu estou nesse meio), especialmente porque, ao menos nesta aventura, tal regulagem moral e ética foi mais um tropeço na investigação do que uma ajuda.

A arte de Gustavo Trigo funciona muitíssimo melhor nos planos abertos e contextos espaciais, no subúrbio da cidade e em lugares visualmente medonhos, do que em quadros fechados no rosto de personagens. Mas é um bom projeto artístico, também elogiável pelas ótimas cenas de perseguição e fuga (importante ressaltar que são ótimas cenas nos desenhos, não no roteiro) e por trazer mais uma referência cinematográfica americana, na apresentação do novo parceiro de Nick, Marvin Brown, visualmente inspirado no ator Eddie Murphy. Apesar do desempenho geral, a chegada de Marvin acende a curiosidade no leitor. Independente do modo como foi apresentado, é bem difícil largar o título só por esta aventura. As possibilidades para o futuro da série nos acenam. Vamos ver o que acontece em O Mistério da Mão Cortada.

Nick Raider #1: La Vittima Senza Nome (Itália, 1988)
Publicação original:
Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record, 1991
Roteiro: Claudio Nizzi
Arte: Gustavo Trigo
Capa: Giampiero Casertano
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.