Crítica | Nightflyers – 1ª Temporada

A nova série do SyFy, distribuída com exclusividade em streaming pelo Netflix fora dos EUA e baseada em novela de 1980 de George R.R. Martin, mais conhecido como o escritor que aparentemente nunca acabará As Crônicas de Gelo e Fogo, não é fácil de ser apreciada. E não quero dizer com isso que ela é particularmente complexa ou ambiciosa a ponto de tornar-se hermética ou ininteligível, pois isso ela definitivamente não é, ainda que não seja trivial ou genérica. Falo mesmo é da ambientação, de seus personagens e de seus roteiros.

Desagradável é a palavra mais simpática que consigo achar para caracterizar os três pontos nevrálgicos acima. Nightflyers não “dá gosto de ver” e não permite verdadeiramente que alguém torça pelo sucesso de alguém e, mais do que isso, não é capaz de deixar ninguém nem remotamente feliz ao final. A 1ª temporada, de apenas 10 episódios de milagrosa duração regulamentar (só o primeiro tem mais do que 43 minutos!), é um desfile de pessimismo, niilismo, egoísmo e todos os demais “ismos” de conotação negativa que você puder imaginar que acompanham a tripulação da nave do título (só que sem o “S” no final) em uma missão para tentar fazer primeiro contato com os misteriosos Volcrym (quase um MacGuffin), que pode significar esperança para uma Terra moribunda.

Daniel Cerone, que desenvolveu a série e trabalhou como showrunner, começa pelo seu final, trazendo uma sequência à la O Iluminado em que um homem barbudo, de machado em punho, persegue uma loira, que foge em desespero. Segue tragédia e, então, somos arremessados para o passado de forma que possamos caminhar na direção desse momento misterioso e sanguinolento. É um artifício batido, não tenham dúvida, mas que funciona, até porque o quebra-cabeças que acaba resultando nesse cenário mortal não é dos mais óbvios e é no mínimo divertido notar os encaixes aqui e ali ao longo da progressão narrativa.

Existem duas narrativas bem diferentes em sua superfície, mas que se entrelaçam desde o começo. A primeira e mais imediatamente transparente, é a viagem interplanetária em si, que coloca uma equipe de cientistas encabeçada pelo astrofísico Karl D’Branin (o irlandês Eoin Macken esforçando-se, mas falhando em esconder seu sotaque nativo) fazendo de tudo para provar que os Volcrym são realmente alienígenas (seus pares na Terra duvidam disso) e para estabelecer contato. A segunda tem relação com a nave propriamente dita, comandada pelo misterioso e holográfico (sim, literalmente) Capitão Roy Eris (David Ajala), que esconde um baú de segredos por trás de meias palavras e aparecimentos e desaparecimentos a seu bel-prazer.

A primeira linha narrativa é a que ganha desenvolvimento mais frenético no começo da temporada, com a introdução imediata do telepata de nível máximo Thale (Sam Strike), basicamente temido por toda a tripulação, que passa a vê-lo como responsável por tudo o que dá errado na expedição e acreditem quando digo que muita coisa dá errada logo de início. Thale, que vive enjaulado e dopado, é acompanhado de sua psiquiatra Agatha Matheson (Gretchen Mol, a loira do flashforward que abre a série) e sua função é tornar possível a efetiva comunicação com os Volcrym, já que eles emitem o mesmo tipo de ondas que os telepatas manifestam. O conflito base é essa presença odiada do telepata, o que permite um começo movimentado para a temporada.

Mas a segunda linha narrativa vai “correndo por fora”, vagarosamente tornando-se mais e mais relevante. O entrelaçamento que mencionei que existe logo no início se dá quando olhamos em retrospecto e entendemos, já conhecedores de boa parte do mistério, sua influência já na partida da Nightflyer. Diria, porém, que os subtextos que lidam com a memória e a noção de legado são os que fazem as duas histórias comungarem com constância e relevância, de certa forma fundindo conceitos que vemos de maneira mais filosófica em 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Solaris, dois marcos “rivais” do sci-fi. As influências dessas duas obras são visíveis e Cerone não tenta escondê-las, até mesmo trazendo um vigilante “olho vermelho” tipo HAL 9000 que existe por toda a nave, além das visões mnemônicas que influenciam todos os personagens, notadamente D’Branin, muito na linha da obra de Andrei Tarkóvski.

No entanto, quem não aprecia os dois filmes citados acima como sustentáculos inspiradores para Nightflyers não precisa se preocupar. A temporada vive por si mesma, construindo sua própria mitologia e desenvolvendo seus próprios personagens. Mas é provavelmente nesses dois aspectos que muitos também poderão encontrar obstáculos para mergulhar na série, já que o showunner fez a arriscada escolha de tornar tudo muito pesado, triste e desesperançoso, a começar pelo livre uso de sangue e violência, além de momentos particularmente “nojentos” como quando a sonda enviada por D’Branin e pelo xenobiológo Rowan (Angus Sampson, o sujeito enloquecido do machado do começo da temporada) ou quando há o salto temporal de oito meses mais para a frente.

E toda aquela camaradagem entre a tripulação de uma nave que nossa mente coletiva internalizou por anos de influência de Star Trek, Star Wars e outras franquias simplesmente não existe aqui. No máximo é possível dizer que o grupo de cientistas se tolera, mesmo quando há relacionamento amoroso (sempre distantes), mas só. A dinâmica é na base do “cada um por si e Deus por todos” ou algo bastante próximo disso, o que é, francamente, uma diferença em relação ao que já existe por aí que caiu muito bem para mim. Vemos, em Nightflyers, relacionamentos mais “verdadeiros”, mais próximos do que lidamos, gostando ou não, em nosso dia-a-dia (a não ser que se tenha muita, mas muita sorte), algo que nem mesmo séries sci-fi que trabalham fortemente com o realismo como The Expanse e Battlestar Galactica (o reboot, claro) costumam abraçar.

Acompanhando essa pegada desagregadora, o design de produção cria ambientes claustrofóbicos, com as câmeras evitando, durante quase que a integralidade do tempo, lidar com espaços abertos fora da Nightflyer. Isso gera desconforto ao espectador que torna ainda mais difícil lidar com os personagens que “temos” que gostar. Tudo é nos proverbiais tons de cinza e a natureza de ambiente “vivido” não tem, aqui, conotação positiva. É, em termos de abordagem estética, o exato oposto de 2001 de Stanley Kubrick.

Além dos problemas inerentes que essas escolhas trazem, e que considero como um ponto de ruptura relevante para muitos espectadores (não foi o meu caso como a avaliação final deixa claro), há alguns problemas de roteiro causados provavelmente pela necessidade – pela escolha, na verdade – de se manter vários segredos guardados a sete chaves por um significativo tempo (ainda que seja possível deduzí-los com maior ou menor grau de dificuldade e atenção), como diversas conveniências narrativas, especialmente a falta de diversos equipamentos e características que uma nave com essas características simplesmente não poderia deixar de ter, como por exemplo uma forma razoável de se fazer acoplamentos no espaço. Além disso, quando toda a poeira baixa, apesar de sempre termos claro em nossa mente a motivação de D’Branin para chegar aos Volcrym, ficamos com um ponto de interrogação no caso de Eris. O arco macro que se encerra na verdade no nono episódio, abrindo espaço para quase que um novo começo no derradeiro episódio, não aborda satisfatoriamente essa questão, deixando-a no ar até com uma certa contradição às grandes revelações que tocam o personagem já nos estertores da temporada.

Mesmo assim, Nightflyers é um sci-fi sólido que trafega bem entre gêneros e cria uma atmosfera própria e diferente, apesar de repleta de clichês e referências do gênero, o que, se bem trabalhados como são, não é uma característica negativa. Sim, é uma temporada desagradável. Mas é agradavelmente desagradável, se é que me entendem…

Nightflyers – 1ª Temporada (EUA – dezembro de 2018 originalmente nos EUA; 1º de fevereiro internacionalmente pelo Netflix)
Showrunner: Daniel Cerone
Direção: Mike Cahill, Andrew McCarthy, Nick Murphy, Maggie Kiley, M. J. Bassett, Damon Thomas, Mark Tonderai, Stefan Schwartz
Roteiro: Jeff Buhler, Daniel Cerone, Lindsay Sturman, Brian Nelson, Terry Matalas, Christopher Monfette, David Schneiderman, Michael Golamco, Amy Louise Johnson (baseado em obra de George R. R. Martin)
Elenco: Eoin Macken, David Ajala, Jodie Turner-Smith, Angus Sampson, Sam Strike, Maya Eshet, Brían F. O’Byrne, Gretchen Mol, Phillip Rhys, Gwynne McElveen, Zoe Tapper, Miranda Raison
Duração: 42 a 44 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.