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Crítica | Ninfomaníaca: Volume 2

por Marcelo Sobrinho
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Se os críticos consideraram frustradas suas expectativas por uma maior ousadia no primeiro volume de Ninfomaníaca, certamente foi em seu segundo capítulo que eles tiveram aquilo que tanto esperaram. No Volume 2, Lars von Trier clarifica as suas intenções e aprofunda a jornada de autodescoberta e autopunição de Joe. A personagem segue seu relato a partir da maior desgraça que se abateu sobre ela – a insensibilidade ao sexo. Joe torna-se esposa e mãe e deixa-se cair no vazio que já havia suspeitado. É interessante sua fala de que não lhe faltava amor materno, mas que sentia denunciada nos olhos do filho a sua sexualidade impudica (certamente um prato cheio para uma abordagem psicanalítica, que foge bastante do escopo dessa crítica). Naufragando no vazio e asfixiada pelo “conforto doméstico”, Joe radicaliza em sua experimentação – o que ela denomina como encontros com “os homens proibidos”.

Ela tenta redescobrir o prazer naquilo que considera de mais abjeto na sexualidade feminina. O prazer lhe é restaurado, mas Lars von Trier não tarda a retomar a imagem da mulher que abdica da maternidade em função do próprio gozo. O prólogo de O Anticristo ressurge como um eco, mas Jerôme consegue evitar o fim trágico que serviu de leitmotiv ao filme anterior. Se a personagem feminina do filme de 2009 se converte em uma espécie de bruxa medieval, provando de sua sexualidade infame como Eva do fruto proibido, Joe fará inicialmente o caminho oposto. Ela se penitenciará por sua natureza destruidora e condenada e procurará ajuda em um grupo de apoio a ninfomaníacas. Nesse momento, Joe se vê no espelho como criança. Uma das digressões de Seligman aponta para a ideia freudiana de que a criança é um ser de sexualidade polimórfica, cujas perversões vão sendo abafadas ao longo da vida. Quando Joe se olha no espelho, ela contempla a sua luxúria potencial, em estado embrionário, mas já capaz de constranger seus esforços proibitórios de adulta. A grande virada se dá exatamente aqui.

Ninfomaníaca: Volume 2 chega aos dois principais pontos que desejava alcançar. Se já fica claro, desde o primeiro volume, que o amor, a maternidade e a família aprisionaram Joe na insuportabilidade do nada, também não é na perspectiva patologizante de sua própria sexualidade que ela encontrará algum sentido sobre si mesma. A metáfora sobre a representação da individualidade da alma humana pela singularidade da forma de uma árvore se materializa e Joe encontra, por fim, a sua correspondente. Se ela chama de hipocrisia a supressão de palavras para esconder a putrefação social que elas representam, não parece menos cínica a sua tentativa de auto-categorização psicopatológica. Vale observar que Joe jamais é diagnosticada, em nenhum dos dois volumes, como uma ninfomaníaca de fato, a não ser pelo seu próprio diagnóstico, que ela confessa a Seligman no começo de seu relato. Lars von Trier escarnece esse discurso psicopatológico desde O Anticristo, cujo personagem masculino – um psicólogo – fracassa retumbantemente em seu intento terapêutico. Para o dinamarquês, há muito nos recônditos da alma humana que não se pode compreender apenas pelo binômio função-disfunção.

Ao longo das quatro horas de projeção, a personagem de Charlotte Gaingsbourg enfrenta sua via crucis para compreender que suas idiossincrasias são a única prisão que lhe cabe. Sim, eis o segundo endpoint de Ninfomaníaca: Volume 2 e, possivelmente, o mais interessante deles. Lars von Trier consegue desmontar tudo o que se entendeu por libertação sexual nos últimos cinquenta anos. Joe não experimenta, em nenhum momento, a sua sexualidade atípica como um exercício de liberdade. Sua busca incessante pelo gozo é sua mesma busca pelo sofrimento e pela dor. Joe é uma árvore tortuosa e solitária. O sexo não é uma simples enfermidade para Lars von Trier, mas também não liberta nem redime a sua protagonista. Ele a aprisiona em algo borderline. Em um certo limbo. O cineasta dinamarquês não realiza nenhum ataque militante ao feminismo, é bom que se diga. Ele apenas entrega a perturbadora suspeita de que há nesse terreno muito mais camadas do que fomos capazes de enxergar. Joe não luta por sua emancipação sexual. Ela luta por sua imanente condenação.

Embora eu considere a inserção da personagem “P” bastante desnecessária nesse segundo volume, já que ela apenas funciona à conclusão da obra, sem lhe dar qualquer profundidade, acho o ato derradeiro do filme bastante contundente. Se, até então, Seligman apenas havia acompanhado o relato de Joe, agora ele agirá. Lars von Trier é inteligente o suficiente para não abandonar as ambivalências que usou para costurar seu filme. No singelo quarto de hóspedes, agora é o personagem de Stellan Skarsgard quem iniciará uma tentativa malograda de libertação. Em Ninfomaníaca: Volume 2, descobrimos que Seligman também está condenado, mas por uma sentença de vetor contrário. Ainda que o filme se alongue demais em seus minutos finais, acho que sua conclusão não poderia ser mais interessante. Se o desfecho de Melancolia expõe a derrota da humanidade diante do cosmo, agora o homem tombará sozinho. Apocalipticamente, mas destruído por si mesmo.

Ninfomaníaca: Volume 2 (Nymphomaniac: Volume 2) – Dinamarca/Alemanha/Reino Unido, 2013
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco:  Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Willem Dafoe, Michael Pas, Jamie Bell
Duração: 123 min.

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18 comentários

jv bcb 9 de maio de 2017 - 01:42

péssimo filme, horrível, era só ruim até o final, quando acaba vira vergonha alheia. Vazio e pseudointelectual, eu já não tinha gostado do primeiro filme, mas esse conseguiu ser pior.

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Diogo Maia 26 de junho de 2016 - 03:16

Engraçado, eu já curti o final do filme, bem surpreendente.

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Diogo Maia 26 de junho de 2016 - 03:16

Engraçado, eu já curti o final do filme, bem surpreendente.

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𝙾𝚣𝚢𝚖𝚊𝚗𝚍𝚒𝚊𝚜_𝚁𝚎𝚊𝚕𝚒𝚜𝚝𝚊 ⚔️ 25 de dezembro de 2014 - 21:06

Creio que tivemos um equivoco aqui, se o sr parar para analisar, a Parte 1 de Ninfomaníaca é um filme “leve” em relação aos que o Trier faz, provavelmente ele fez assim de modo a brincar um pouco com os indecididos que foram assistir pensando que ele já entregaria algo na densidade visual de “Anticrist” de primeira, tanto que quando eu assisti a parte 1 com um amigo meu, eu disse para ele “Ele só ta aquecendo, a porrada mesmo vem na segunda parte” e realmente vem. A segunda parte para mim é ainda mais interessante que a primeira. E não esqueça da versão de 5 horas sem cortes que não sei se ainda vai sair, se sair, eu de certeza vou assistir.

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Guilherme Coral 25 de dezembro de 2014 - 23:31

Concordo que o filme é mais pesado, isso ele é sem a menor sombra de dúvidas. Ainda assim, só porque ele é mais condizente com o tom usual do Von Trier, não quer dizer que ele seja bom como filme em si.
Acredito que, enquanto o Trier buscava chocar nesta segunda parte, ele acabou cometendo alguns deslizes. O twist final com o Dr. Selvig é uma prova disso, simplesmente inseriu um twist no fim sem a menor construção.
O restante mesmo está em minha crítica.

De qualquer forma, cinema é sentir e fico mesmo feliz que outras pessoas, como você, tenham gostado do filme. Quero conferir a versão de 5h ainda. Também não sei se já está disponível, infelizmente.

Abraço!

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Monica Chio 30 de abril de 2014 - 12:49

Os comentaristas são mais inteligentes e sensíveis que o crítico em si que só ficou chamando atenção ao fato do filme ser em 2

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Guilherme Coral 30 de abril de 2014 - 15:21

Obrigado pelo comentário, Monica! Espero que ele tenha feito você se sentir inteligente e sensível.

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Betina Toledo 26 de março de 2014 - 12:59

Assisti ontem esse mas não assisti ao primeiro ainda. Adorei. A dor da personagem entre ser mãe, esposa, e ao mesmo tempo ceder à sua condição de ninfomaníaca é bem visível e suas próprias concepções de quem ela é são muito interessantes. Notei que as críticas em geral são bem mais positivas para o volume I, mas acredito que as pessoas talvez devessem separar uma obra da outra. Lars Von Trier tem intenções muito peculiares para seguir um padrão mesmo se tratando de uma continuação. Enfim, quero ver o primeiro !!!

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Betina Toledo 26 de março de 2014 - 10:56

Ontem eu tinha que fazer hora e coincidiu de assistir a parte 2, sendo que nem vi a parte 1. Achei o filme muito bom, inclusive, em meio a uma sessao cult, notei que todos sairam satisfeitos com a obra tambem. Fico bem ansiosa para ver o primeiro, que é o preferido da crítica. Acredito que há mudanças na segunda parte que não deixaram o público muito satisfeito por justamente terem esperado uma continuação com a mesma abordagem da primeira parte. Acho que se levarem como filmes distintos terão uma ideia mais rica do filme e de tudo que o envolve.

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Guilherme Coral 26 de março de 2014 - 21:52

Assista o primeiro Betina, se eu fosse apostar diria que sua percepção do segundo irá piorar, mas posso estar enganado. Esse é realmente um longa que divide os espectadores!

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Betina Toledo 27 de março de 2014 - 12:13

Achei o primeiro o máximo. Conseguiu arrancar várias risadas de mim. Achava que seria uma sequencia de cenas gritantes de sexo, um clima meio deprimente ou algo do tipo. Mas os diálogos eram bem inteligentes e divertidos e as cenas que achei que fossem chocar passaram por mim numa boa. Confesso ter achado o segundo melhor mesmo assim. Muito mais complexo e rico em diversos aspectos. Por conter uma “Joe” mais velha na maior partes das vezes, achei mais maduro e menos vazio que o primeiro nesse sentido. A personagem jovem é um pouco duvidosa, não fala muito, só faz muito sexo. No segundo ela se revela mais. Só que o primeiro começa com Rammstein e isso faz muito diferença realmente rs…

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Guilherme Coral 27 de março de 2014 - 12:55

Que bom que gostou, Betina! Agora a mudança no tom deve estar bem clara para você. Como nosso editor-chefe, Luiz, já disse o máximo do cinema é justamente essa diferença de percepção e opinião que cada um de nós tem sobre cada filme, vou tentar fazer como você é assistir o segundo e depois o primeiro, de repente mudo minha opinião. Em Berlim exibiram o filme completo sem cortes, por volta de cinco horas de projeção!

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Oliver 26 de março de 2014 - 10:14

Péssima essa crítica, me desculpe. E desculpe também por dizer, mas os filmes do Lars não são voltados para erga omnes. Nunca foram. Lars é um diretor hermético e enxerga a condição humana sob um prisma que transcende os conceitos estabelecidos do senso comum.
Assim, a estranheza É do volume 1, em que há um show pirotécnico de pop, que não é a marca do Lars. No volume 2, embora ainda haver resquícios de uma onda normativa da cultura cinematográfica atual, o diretor volta à forma que lhe deu fama e entrega um produto final do jeito que seu público gosta: com um zumbido na cabeça por horas e horas depois do fim da projeção.

(não vou me ater aqui ao debate psicológico excepcional que o filme provoca, já que sua crítica ficou presa a aspectos formais do cinema tradicional que te impediram de embarcar nessa experiência formidável)

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Guilherme Coral 26 de março de 2014 - 21:50

Oliver, é uma pena que não tenha gostado da crítica, realmente. Concordo quando disse que os filmes do Lars não são para todos. Uma coisa que você esqueceu de levar em consideração é que Ninfomaníaca é um filme só que foi dividido em dois por questões de mercado – minha crítica, portanto, permeia esse aspecto do longa. Já assisti a diversos outros do cineasta e realmente fiquei com o “zumbido” que você citou, mas não nesta segunda parte de Ninfo.
Em relação ao psicologico devo discrodar em relação à sua excepcionalidade – acredito que tal aspecto dentro de Ninfomaníaca é abordado de forma rasa, ao contrário de outros filmes do Lars, como seu longa anterior, Melancolia.

Muito obrigado pelo comentário e volte sempre!

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Gil Newmarks 17 de março de 2014 - 09:36

Concordo plenamente! Gostei do primeiro volume e o segundo foi muito ruim. Sem falar no desfecho… Que Bosta!

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Guilherme Coral 17 de março de 2014 - 09:53

Realmente uma pena que tenha caído tanto assim na qualidade.

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Diogo Domiciano 13 de março de 2014 - 10:56

Discordo totalmente! O filme desce fundo na degradação de Joe, como já era esperado. A mudança brusca e que vc chamou de inverossímil com certeza não é uma falha e sim a intenção de Trier, que eu entendo metaforicamente : o “envelhecimento” rápido da alma da personagem, completamente infeliz e atormentada naquela situação de casamento e maternidade, enquanto Jerome continua jovem e belo.

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Guilherme Coral 15 de março de 2014 - 09:31

Diogo, concordo em relação à degradação, mas acredito que ele poderia ter mantido a ironia da primeira parte, ao invés de abandoná-la quase que por completo.
Não sei dizer se realmente é intencional a mudança ou não, mas não me convenceu essa mudança.
Obrigado pelo comentário!

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