Crítica | Ninguém Sabe Que Estou Aqui

Me dá a voz de seu filho… eu faço o resto.

A magia do cinema está não só em suas histórias como na forma que elas são contadas. O drama chileno do estreante Gaspar Antillo – merecidamente vencedor do prêmio revelação do Festival de Tribeca, agora disponibilizado na Netflix pela compra dos direitos – respira humanidade, justamente por não cair em armadilhas de apelo melodramático penoso, pelo contrário, ele convida o espectador a participar sentimentalmente das cargas emocionais envolvidas em seu campo mais íntimo.

Para isso, ele adota uma estrutura mais visual de narrativa, trabalhando os aspectos cênicos para a comunicação dos fatos ao invés de necessariamente descrevê-los, observando e contemplando essa rotina silenciosa, carregada de dor e angústias de um passado amargurado. Existe uma cartilha de informações cruciais para entender a dramaticidade acompanhada, mas essas são resguardadas para o momento preciso de sobreposição, de modo que não atrapalhe a envoltura atmosférica da solidão do protagonista. O filme prevê um timing necessário para absorver o excêntrico comportamento de Memo, para depois decompor as origens de cada fração. Nesse aspecto temporal, o diretor comanda a montagem precisamente em sincronia com a mixagem sonora do ambiente, imergindo semioticamente as revelações da história com as escolhas geográficas de cada cena.

É um trabalho extremamente seguro de mise-en-scène, planos longos bastante dosados pelo intuito objetivo, que se revela assim após a soltura de alguma das informações mencionadas, progressivamente significando a obra de forma cada vez mais poderosa. A primeira e única que dá para mencionar é a partícula da premissa, iniciada após o descobrimento que Memo teve, literalmente, sua voz vendida pelo pai na infância. Uma voz belíssima, carregada de brilho, foi aprisionada pela impossibilidade de a indústria musical aceitar que fosse distribuída por alguém de seu porte físico (que só se agravou depois do trauma, possibilitando a excelente escolha de casting de Jorge Garcia). Sendo, então, utilizada como playback para um outro visualmente mais atraente, que consequentemente ganharia os méritos de um trabalho que nunca foi dele.

O filme, inclusive, a partir desse momento poderia visar esse caminho crítico mais óbvio das mazelas da indústria musical, contudo isso não o interessa muito, bem como outras temáticas levantadas através das viradas dramáticas são distanciadas para o filme se manter fiel ao seu propósito, que é finalmente dar a voz que o protagonista tanto queria. O processo primordial é esse, então, elementos como o inevitável reencontro entre ele e o garoto, ele e o pai, ele e a mídia, ou mesmo a pista de um possível romance (não fica claro nem sua orientação sexual), ganham redomas mais simbólicas e secundárias do que pontos de trama a gerar novas possibilidades dramáticas. Pela articulação objetiva e intimista, o cineasta deixa bem claro na execução que esses pontos são mais gatilhos de mistério e complemento motivacional do que algo importante a serem rendidos.

A redenção está na possibilidade de liberdade interna, conduzida espetacularmente em cada etapa interpretativa por Jorge Garcia, na melhor performance de sua carreira ao lado de Hurley, em Lost. As sutilezas dos olhares, a postura cabisbaixa, o sotaque e o posicionamento corporal e reativo são movimentos devidamente estudados e comedidos entre muita naturalidade para o impacto de cada expressão. Impressionante como até mesmo as explosões são equilibradas em um sentido contido, algo construído nas pequenas nuances que ele entrega ao personagem, de modo a ser praticamente impossível remeter o ator ao seu papel mais famoso. O trabalho vocal também merece destaque, não só na emulação de uma voz devidamente talentosa como quando é exigido a contracenar com outro alguém, o tom de desamparo das falas se diferencia a depender do assunto e locutor. Uma das grandes atuações de 2020, sem dúvidas.

Diante de sua esfera específica de enorme sensibilidade, Ninguém Sabe Que Estou Aqui não tem medo de vomitar e colocar para fora as injustiças universais de talentos que nunca tiveram a chance de se provar talentosos por convenções sociais. É um exercício aconchegante de empatia que finaliza fantasiando um mundo onde um desses casos teve a chance de alcançar, nem que por um momento, nem que para si mesmo, o palco a que deveria pertencer.

Ninguém Sabe Que Estou Aqui (Nadie Sabe que Estoy Aquí / Chile, 2020)
Direção: Gaspar Antillo
Roteiro:
Pablo Larraín, Juan de Dios Larraín, Enrique Videla
Elenco:
Jorge García, Alejandro Goic, Eduardo Paxeco, Gastón Pauls, Luis Gnecco, Roberto Vander, Solange Lackington
Duração:
91 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.