Crítica | Ninguém Tá Olhando – 1ª Temporada

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Criação do trio formado por Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs e Turma da Mônica: Laços), Carolina Markowicz e Teodoro Poppovic (TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva) a série cômica Ninguém Tá Olhando estreou na Netflix em 22 de novembro de 2019, elencando um tema que é divertido já em sua concepção: os bastidores celestiais; mais precisamente, todo o processo de atribuição de tarefas para os anjos da guarda. E como esse sistema funciona na prática.

A temática não é nem de longe uma novidade — nem na TV, nem no cinema –, mas com o tempero brasileiro acaba conseguindo um nível de identificação bem maior, incrementado pela brincadeira com a caricatura desses seres celestiais. Aqui, a história começa com uma curiosa ação do Chefe: depois de muitos séculos ele resolve criar um novo guardião de humanos, um novo Angelus (e não anjo, como se costuma falar hehehe). Esse recém nascido de asinhas (e que não voa) é Ulisses, ou Uli, e recebe uma interpretação elogiável de Victor Lamoglia, passando da criatura meio perdida para alguém que sofre as dores de ter feito muita coisa errada logo nos primeiros meses de vida.

A comédia aqui vem pela clara exposição (às vezes óbvia, às vezes forçada, mas sempre voltando aos trilhos) de dilemas, desejos e situações questionadoras dos humanos, colocando todas as falhas possíveis das pessoas num contexto onde seres celestiais também interagem e, nesse caso, também procuram por algo. Uma situação mais ou menos parecida pode ser vista na fantástica The Good Place, mas Ninguém Tá Olhando coloca de lado as forças malignas e lida apenas com Angelus e humanos, fazendo do cotidiano de uma espécie as provações e milenar jornada burocrática de outra.

O desenho de produção não poderia ser mais irônico, com maquinários antigos, uma rodinha de hamster e a maior cara de galpão abandonado como o lugar de vida desses imortais protetores, tudo iluminado por uma sóbria fotografia de tons frios. Trabalhando como se fossem funcionários públicos, tendo que entregar relatórios para o chefe da seção e posteriormente descobrindo algo que coloca todo o Sistema Angelus em xeque, o trio principal de seres celestiais da temporada — o já citado Uli, Greta (Júlia Rabello) e Chun (Danilo de Moura) — passam por uma espécie de grande revelação, um momento de suas vidas onde começam a desobedecer regras e, sem uma punição imediata, entram em crise existencial, fazem mais coisas que não deveriam fazer e adicionam ainda mais questionamentos à lista. Até que algo preocupante realmente acontece.

No todo, estamos diante de um projeto simples, que funciona pelo absurdo de parte das cenas, pela linha cômica sustentada com grande competência por Lamoglia e Rabello e também porque os roteiros não ficam apenas num único tema, mas expandem a questão celestial para o lado dos humanos e assume dois diferentes caminhos de resolução, terminando num ponto onde um ajuda o outro e onde os problemas se tornam algo engrandecedor. Sim, tem um quê de moralismo bobo aí, mas acreditem: a coisa funciona bem. O peso dramático tem relevância nos episódios finais da série e os ciclos que precisam ser fechados aqui ganham um bom encerramento, ao passo que coisas ainda mais legais são mostradas e deixadas para uma próxima temporada, com destaque para a situação final da personagem de Kéfera Buchmann e a pequena surpresa que os Angelus têm no finalzinho do derradeiro episódio.

Relacionamentos complicados em diversos níveis, questões básicas de teologia misturadas com nonsense e uma base dramática e cômica que funciona tirando sarro das fraquezas e erros das pessoas entram aqui com uma grande leveza e o espectador terá momentos de demonstração de amizade, de ação orgulhosa e babaca e de situações misteriosas que só uma série com Angelus em contato com humanos pode trazer. Como disse no começo, o humor dá uma forçada em alguns momentos, mas na maioria das vezes Ninguém Tá Olhando é uma série bastante divertida. Taí uma produção brasileira para a Netflix que realmente merece uma Segunda Temporada.

Ninguém Tá Olhando – 1ª Temporada (Brasil, 22 de novembro de 2019)
Criação: Daniel Rezende, Carolina Markowicz, Teodoro Poppovic
Direção: Daniel Rezende, Fernando Fraiha, Marcus Baldini
Roteiro: Mariana Zatz, David Tennenbaum, Fernando Fraiha, Leandro Ramos, Cauê Laratta
Elenco: Victor Lamoglia, Júlia Rabello, Kéfera Buchmann, Augusto Madeira, Danilo de Moura, Leandro Ramos, Telma Souza, Priscila Sol, Wallie Ruy, Maurício de Barros, Hermínio Ribeiro
Duração: 8 episódios entre 19 e 30 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.