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Crítica | Ninja, a Máquina Assassina

por Ritter Fan
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Roupa interessante. Quem é seu alfaiate?
– capanga do vilão, minutos antes de morrer

Obra da quase mítica produtora B Golan-Globus que, depois, seria transformada em Cannon Films, Ninja, a Máquina Assassina, aproveitou-se da xepa da feira da febre dos filmes de artes marciais nos EUA ao longo dos anos 70 (não é nenhuma coincidência o título original ser Enter the Ninja…) e criou um micro nicho de filmes de ninja que povoaram a primeira metade da década de 80, inclusive uma trilogia de películas estanques que começou com este aqui e continuou com A Vingança do Ninja e Ninja 3: A Dominação, com cada um fazendo todo o esforço possível para ser pior que o anterior. Cortesia do gênio marketeiro Menahem Golan que inclusive dirigiu o longa, trazendo não só Franco Nero para o papel principal, como o lendário Sho Kosugi como antagonista e coreógrafo das lutas.

Mas Ninja, a Máquina Assassina é, sem dúvida alguma, um desperdício de oportunidade, um filme que se enquadra perfeitamente na famosa categoria de longas que, se você viu quando jovem, gostou e deseja preservar essa memória, não deve de forma alguma assisti-lo novamente. Golan é um diretor tenebroso que não consegue criar uma sequência que seja com mínima competência, um enquadramentozinho que não seja dolorosamente hilário e que não tem nenhum controle sobre progressão narrativa e montagem. Tudo o que o israelense tinha de tino comercial, ele não tinha de mise-en-scène e este longa aqui é uma das várias provas dessa limitação dele.

Seja como for, o negócio é tão constrangedor que chega a divertir. Entre a canastrice absoluta de Nero e seu bigodón e a história desinteressante em que seu personagem, Cole, depois de se formar na “escola ninja”, parte para Manila para ajudar um casal de amigos com problemas, tendo que enfrentar o chefão do crime local que, claro, contrata exatamente o ninja inimigo dele como final boss, há muita coisa para rir de vergonha em Ninja, a Máquina Assassina. Considerando que Nero não tem a vantagem de dar chutes e socos trajado com seu uniforme ninja na cor branca (só Storm Shadow é aceitável como ninja vestido nessa nada discreta cor) além de na sequência de abertura e na luta final, permitindo o uso completo de dublê, é hilário ver o ator fingindo ser um artista marcial com a mesma flexibilidade que mostrou ter no clássico Django. Da mesma maneira, a sonoplastia histérica para as espadas, arcos, shurikens, nunchakus e todos os aparatos letais usados em tese por ninjas (Hattori Hanzo teria um ataque cardíaco fulminante vendo o que fizeram com seus shinobis…) e que funciona tão bem nos filmes orientais dos anos 60 e 70, além das mortes teatrais, daquelas que crianças fazem quando brincam, transforma o longa em uma versão pastelão das obras do gênero que a antecederam.

E o pior de tudo – e nesse ponto a graça vai para o ralo – é que Golan simplesmente não consegue aproveitar em nada a presença de Sho Kosugi na produção. Não só ele apenas aparece em dois momentos razoavelmente breves, como toda a coreografia que ele criou fica limitada aos momentos em que ele efetivamente está diante das câmeras (inclusive na boa sequência dos créditos, em que ele aparece usando as mais variadas armas), pois eu prefiro acreditar que ou ele não criou os movimentos de Nero ou que Nero simplesmente ignorou tudo o que foi criado e resolveu fazer o que ele achava melhor.

Pelo menos o longa muito claramente não se leva a sério. Isso retira o peso das costas do espectador e permite que ele relaxe vendo uma bobagem trash que tem chamarizes aqui e ali – ninjas codificados por cor, Kosugi e Nero, basicamente -, mas que não funciona de verdade como uma obra coesa. Talvez seja por isso que Cole pisca para a câmera no frame final, finalmente revelando que tudo não passou de uma brincadeira descompromissada feita por alguém que não tem ideia de como segurar uma câmera.

Se pensarmos dessa maneira, Ninja, a Máquina Assassina pode ser encarado como um daqueles filmes que são tão ruins que acabam sendo bons para serem assistidos sem maiores pretensões ou expectativas. Não há nada ofensivo, nada que irrite o espectador (a não ser que você seja um ninja, aí pode ficar irritado, claro) e nada que não seja uma sucessão infinita de corpos sendo empilhados, algo comum nos anos 80, temos que lembrar, por um ator que faz seu supostamente atlético ninja trajado de branco da mesma maneira que fez um pistoleiro estoico e durão que carrega um caixão 15 anos antes.

Ninja, a Máquina Assassina (Enter the Ninja – EUA, 1981)
Direção: Menahem Golan
Roteiro: Dick Desmond (baseado em história de Mike Stone)
Elenco: Franco Nero, Susan George, Sho Kosugi, Christopher George, Alex Courtney, Will Hare, Zachi Noy, Constantine Gregory, Dale Ishimoto, Joonee Gamboa, Leo Martinez, Ken Metcalfe, Subas Herrero
Duração: 99 min.

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