Crítica | Ninja Xadrez

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A difícil fase escolar de um garoto dinamarquês é mudada quando ele ganha do tio um presente de aniversário bem peculiar: um boneco ninja fabricado na Tailândia e com um histórico… mágico, por assim dizer. Dirigido por Thorbjørn Christoffersen e pelo comediante Anders Matthesen (que também escreve o roteiro), o filme aborda duas realidades distintas para grupos de crianças, uma em um país na periferia do capitalismo, onde os pequenos trabalham horas por dia e outra no centro do sistema, onde um brinquedo feito da exploração do trabalho infantil pode fazer a diferença para a vida de uma criança.

Por mais que esse aspecto social esteja escancarado no primeiro momento, o roteiro não desenvolve a trama em torno disso. É evidente que o que ocorre na fábrica tailandesa tem um papel importante nessa questão — até porque gera as condições físicas e “místicas” para a criação do Ninja Xadrez –, mas há um tratamento inicialmente distanciado e progressivamente crítico de como esse tipo de relação de trabalho nos países pobres, com frases como “se eu não exploro, alguém vai explorar“, acaba tendo correlações nos países ricos, não necessariamente no modo de vida das crianças, mas em certos âmbitos de relações sociais — no filme, isso é colocado no tráfico de drogas e uso de crianças e adolescentes nesse meio, mas claramente pode ser pensado em diversas outras camadas do crime.

O garotinho protagonista é, portanto, alguém que teve a sorte de nascer em uma família bem estabelecida num país central e pessoalmente não tem nada a ver com a exploração do trabalho de crianças na Tailândia. Seus problemas são os típicos problemas de criança que tem uma vida normal, com as dificuldades esperadas no meio escolar, uma paixão por uma bela colega da escola e intrigas familiares que o roteiro aborda de forma bem engraçada. Do segundo ato pra frente, o texto traz personagens demais e situações demais que não têm uma real funcionalidade na história, tomando espaço de coisas mais importantes, especialmente na relação entre o Ninja Xadrez e seu “dono”, que é a melhor coisa do filme. Não é uma relação fácil e acaba tendo uns elementos pouco críveis e exagerados no meio do caminho (como a bizarra internação do menino) mas no todo é algo fascinante de se ver.

Pouco a pouco a missão do Ninja é revelada para o garoto dinamarquês; a lenda dos ninjas é contada e o espírito desse fictício e importante antepassado chamado Taiko Nakamura é trazido à tona. Daí para frente vemos um interessante cruzamento entre a realidade que criou o boneco animado e a vida do menino que o ganhou de presente, mostrando o aprendizado de algumas lições, o exercício da empatia e a luta contra a injustiça, tudo abordado de um modo próximo ao conto super-heroico, que é para onde o longa caminha. As canções no decorrer da projeção também são interessantes, mas a que melhor funciona é o rap, trazendo um fantástico sentido de ritmo e um delicioso anacronismo que funciona bem junto à mensagem que se está tentando passar.

Dois grandes blocos no uso de cor e de elementos dentro dos quadros podem ser vistos na animação, o primeiro na Tailândia (mais escura, suja, cheia de elementos em tela) e o segundo na Dinamarca (mais clara, limpa, tendendo para uma harmonia na composição dos quadros), com exceção das sequências na casa do tio e no parquinho que o garoto e o ninja constroem para colocar em prática um plano de vingança. O fim de Ninja Xadrez é muito bonito, até emocionante. Mostra uma forma justa de lutar contra a injustiça, mesmo para alguém que não precisava fazer nada a respeito. Empatia e impulso para fazer a coisa certa: é disso que o mundo precisa mais e é neste tom que o presente filme termina, com uma bela mensagem sobre as vitórias que o trabalho em conjunto pode trazer a fim de buscar justiça para quem precisa.

Ninja Xadrez (Ternet Ninja) — Dinamarca, 2018
Direção: Thorbjørn Christoffersen, Anders Matthesen
Roteiro: Anders Matthesen
Elenco (vozes): Anders Matthesen, Emma Sehested Høeg, Alfred Bjerre Larsen
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.