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Crítica | Njangaan (1975)

por Luiz Santiago
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Eu fico imaginando a quantidade de problemas que Mahama Traoré precisou enfrentar por conta de Njangaan, seu filme de 1975. Mesmo que o Senegal seja uma nação onde existe boa convivência geral entre religiões diferentes, o islamismo é a grande força de fé no país, e abordagens ácidas como as que o diretor realiza aqui certamente colocam o dedo na ferida, incomodando bastante. E é válido lembrar o conhecido caso de problemas vindos para um cineasta pela representação pouco ou nada elogiosa do islã nas telas, que foi o caso de Sembène em Ceddo, dois anos depois de Njangaan.

O roteiro, escrito por Cherif Adrame Seck, nos apresenta um garoto de 6 anos de idade que é levado pelo pai para uma escola corânica na periferia da cidade, onde mora um admirado marabuto. O primeiro conflito da obra é a retirada dessa criança de seu meio familiar, onde passa os dias brincando com os amigos e cultivando uma bela ligação com a mãe, para “aprender a ser um homem“, segundo as palavras do pai. O arranjo social aqui é aquele onde a palavra do homem é definitiva, e unicamente dele procedem as decisões que se tomam na casa. Assim, mesmo sob protestos da mãe, o garoto é levado para esse lugar onde aprenderia a tornar-se-ia um homem religioso e cheio de virtudes.

Pode-se fazer uma leitura antropológica e até mesmo moral das atitudes do pai, que acreditava estar fazendo algo bom para o filho, mas cuja fé cega e a clara liberdade que dá para o marabuto e sua família tratarem o menino “da forma necessária” ressaltam um pensamento punitivo na educação. E a partir do momento em que o pai vai embora, notamos que as “aulas” são, na verdade, um processo mecânico de repetição do Corão que as crianças fazem por horas, em pleno sol, recebendo tapas e chicotadas durante o processo.

Uma nova leitura de contexto histórico pode ser colocada nesse ponto, mas sob qualquer ponto de vista que olharmos, vamos ver as ações desses “mestres” como um verdadeiro abuso da fé alheia e repetição de violência física contra os alunos, que também são obrigados a mendigarem e repassarem o dinheiro para seus “professores”. A maneira crua e direta como Traoré dirige essas cenas, especialmente as de agressão, ajuda a criar uma maior sensação de desconforto e raiva no público, fortalecendo a mensagem geral da obra.

SPOILERS!

Podemos separar três colunas centrais aqui no enredo de Njangaan. Na primeira delas, a familiar, temos um tipo de relação entre mãe, pai e filho que ganha diversas camadas ao longo do filme, inclusive não tornando o pai o inimigo da história, apesar de sua parcela de culpa na geração de todo o processo que levou o menino à morte. Na segunda delas, a pedagógica, temos uma crítica do diretor ao método, ao conteúdo e ao encaminhamento que os responsáveis dão para essas crianças que estão ensinando (um ensino que mais parece uma lavagem cerebral, na verdade). Por fim, na terceira coluna, temos o olhar complacente, cínico e odioso daqueles que veem a morte do garoto como uma simples “vontade de Deus” ou como uma oportunidade de servir de cobaia para estudantes de medicina.

Apesar de apresentar alguns problemas de montagem e coesão na forma como o diretor guia os personagens pelo espaço (o fato de o menino fugir da escola e ir para casa, num momento da projeção, é a primeira dessas estranhezas), Njangaan escancara o perigo do fanatismo religioso, especialmente quando dá as mãos à educação. Um filme sobre aqueles que sofrem na pele os desmandes e também a cegueira dos que controlam as instituições sociais ou possuem a palavra final sobre suas decisões em uma sociedade.

Njangaan / N’Diangane — França, Senegal, 1975
Direção: Mahama Traoré
Roteiro: Cherif Adrame Seck
Elenco: Mame N’Diaye, Mody Gueye, Fatim Diagne, Abou Camara, Yvon M’Baye, Malick Gueye Seck, Bassirou Kane, Seydou Barry
Duração: 82 min.

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