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Crítica | No (2012)

por Fernando Campos
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Promover uma ideia obviamente positiva, como, por exemplo, a democracia, pode parecer tarefa fácil. Afinal de contas, quem escolheria viver em uma ditadura, não é mesmo? No entanto, momentos históricos e, infelizmente, a atualidade mostram que nem todos apreciam a liberdade, preferindo o autoritarismo. Até o óbvio precisa ser transmitido de forma atrativa, caso contrário, perde força mesmo diante do banal.

Em No, filme dirigido por Pablo Larraín, temos uma dessas disputas. Em 1988, o Chile passou por um plebiscito para decidir se o país continuaria sob regime militar, comandado pelo ditador Augusto Pinochet, ou se migraria para o regime democrático. O “sim” era para a continuidade da ditadura e o “não” representava o término. Escolha óbvia, certo? Errado. Como a obra mostra, graças ao trabalho do publicitário René Saavedra (Gael García Bernal), o indeciso povo chileno optou pelo “não”.

Ainda que o longa funcione perfeitamente como um retrato do fim da ditadura de Pinochet, mostrando que isso ocorreu mais por pressão externa do que por boa vontade dos militares (mesma pressão externa, aliás, que incentivou o golpe no Chile décadas antes), No encanta mesmo pela abordagem sobre publicidade e comunicação. Por isso, o roteiro inteligentemente deixa de lado figuras políticas para focar em Saavedra e seu processo criativo. Aqui, a montagem acerta ao optar por um ritmo lento, fazendo-nos entender que as melhores ideias demoraram a ocorrer, mostrando como o protagonista era brilhante, mas necessitava de tempo como qualquer profissional talentoso. Além disso, em conjunto com a fotografia, que reflete o estilo videoclipe da época, No transmite veracidade e realismo, como se o público fosse transportado para aquela época e estivesse acompanhando um documentário da vida de René. Aliás, isso funciona também graças a atuação sensível de Gael García Bernal, que surge sempre com um olhar curioso, como se a cada momento estivesse pensando em uma ideia diferente, mas ressaltando os momentos de frustração quando suas propostas não são compreendidas.

Curiosamente, além do claro antagonismo exercido pelos militares, o longa corajosamente coloca alguns membros da oposição em posição antagônica. Sendo óbvia a crueldade do regime militar, Larraín se preocupa mais em destacar o que impede os democratas, e principalmente a esquerda, de cair no gosto da população. Problemas, aliás, que ocorrem até hoje. Vemos, por exemplo, como a posição elitista de alguns pensadores tornam informações importantes pouco atrativas para o público, exemplificado na cena que um político se recusa a participar da campanha por julgar as ideias “de mau gosto”. Outro exemplo disso está no menosprezo que alguns membros da campanha tem pelas ideias humorísticas de René, com uma pegada no pop, mostrando como a distância da cultura popular afasta qualquer movimento da população. Ou seja, movimentos democráticos e de esquerda se preocupam mais em discutir o “produto” do que em vendê-lo, abrindo espaço para outros no “mercado”.

Também chama a atenção o olhar cético de Larraín para a vitória no plebiscito, algo que pode ser visto na estrutura do roteiro. O filme encerra da mesma forma que inicia, com o protagonista dizendo dizendo “este comercial está inserido em um contexto social. Hoje o Chile é um país que pensa no futuro”. Isso porque, para a obra, ainda que a eleição tenha sido um passo importante para o Chile, como podemos ver na bela cena da população comemorando nas ruas, o status quo no país continua o mesmo. Não à toa, a conclusão da película traz o publicitário apresentando uma peça com atores de novela no topo de um edifício para divulgar um novo programa de TV, que ele estava trabalhando desde a ditadura, como se o filme nos mostrasse que os poderosos continuam no topo.

Diante disso, vemos que, para Saavedra, tudo não passou de uma campanha publicitária. Acompanhar seu talento profissional é, ao mesmo tempo, testemunhar a ineficácia política da oposição chilena. Por isso, até hoje, vemos o Chile colhendo consequências negativas da ditadura, como o empobrecimento de aposentados, vítimas de um cruel sistema de capitalização. A ditadura de Pinochet não foi vencida da forma que deveria. Inclusive, ele mesmo passou a faixa para seu sucessor, como o longa mostra. Será que o Chile está pronto para finalmente discutir seu futuro? 

No – Chile, 2012
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Pedro Peirano
Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Antonia Zegers, Jaime Vadell, Diego Muñoz, Alejandro Goic, Marcial Tagle
Duração: 118 min

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