Crítica | Nó do Diabo

A democracia racial no Brasil continua ocupando o seu lugar de mito em nosso tecido social. Para três ações que avançam diante desta celeuma, quatro apareceram para nos dar trabalho e excluir qualquer convicção de mudança. A tal Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, aparentemente, garantia liberdade para o povo negro escravizado, contingente excluído de seu território e alijado de suas particularidades culturais, sociais e políticas. É com este pano de fundo que Nó do Diabo desenvolve a trajetória de Seu Vieira, uma espécie de personagem que atravessa gerações e perpetua o seu lugar de opressor.

Inicialmente organizado para ser uma minissérie, O Nó do Diabo utiliza o horror, gênero em alta no Brasil contemporâneo, para falar sobre política e sociedade. Convenhamos, é uma das únicas maneiras de expurgar, concorda? Com o acúmulo de golpes no bojo da política, terreno que se tornou a maior piada dos últimos tempos para um país visto de maneira respeitosa nos últimos anos, não é de se admirar que o horror lateje e impulsione nossos realizadores, como uma válvula de escape, isto é, sessões terapêuticas para lidar com tanta atrocidade, canalhice e loucura.

Sob a direção de Anacã Agra, Ian Abé, Gabriel Martins e Ramon Porto, o filme nos apresenta cinco histórias orquestradas por quatro idealizadores, todas escritas por quem assumiu a cadeira de diretor. O tema central é a reflexão sobre os impactos da escravidão no Brasil. Com projeto da produtora Vermelho Profundo, da Paraíba, O Nó do Diabo apresenta ao público cinco histórias interessadas em refletir o legado da diáspora africana, em especial em nosso território com memórias manchadas de sangue, suor e com ecos dos sons de açoites e outras ferramentas de tortura e violência.

Acompanhados pela direção de fotografia de Leonardo Feliciano, os personagens do filme atravessem um ciclo aparentemente interminável de escravidão, indo de 2018 a 1818, numa apresentação do caos entre brancos escravocratas e negros escravizados, apresentados de maneira panorâmica e em ordem decrescente. Ao invés de começar no passado e seguir para analisar o futuro, o filme prefere começar na contemporaneidade e gradativamente visitar o tenebroso passado para entender por qual motivo determinadas situações ainda continuam vigentes.

Tal como apontado, nas idas e vindas entre presente e passado, o grupo de realizadores envolvidos entregam para Daniel Bandeira, editor responsável, um feixe de histórias desequilibradas em termos estéticos e temáticos. Algumas pendem mais para a forma, outras para o conteúdo. Não há uniformidade, tampouco primor narrativo nos diálogos e resolução de conflitos ofertados, mas ainda assim, a trama consegue tratar dos seus temas à sua maneira, num tom introspectivo e pouco preocupado com a compreensão geral dos espectadores. As informações são disponibilizadas e cabe a nós, enquanto contempladores ativos, realizarmos as devidas inferências.

Gravado em torno de Pilar, cidade conhecida por ser a terra natal de José Lins do Rego, O Nó do Diabo ganha maior impacto contextual por suas imagens na região que segundo dados históricos, foi um dos últimos locais a extinguir a escravidão em território brasileiro. Com grande extensão de engenhos açucareiros, a região passou por uma fase decadente com os avanços industriais e as ordens prescritas pelo governo, documentos que ditavam a necessidade dos senhores de engenho em assalariar os homens que até então eram os seus escravos.

Há, ainda hoje, pessoas que questionam as reparações contemporâneas, haja vista os desdobramentos do regime escravocrata na dinâmica da população negra nos grandes centros urbanos brasileiros. Diante do que foi exposto, tópicos comprovados diariamente nos jornais, telejornais e redes sociais, não sabemos se as maiores expressões de horror estão na ficção ou se a nossa realidade é potencialmente mais assustadora, aberrante e sádica que o filme, narrativa que se expressa ao longo de extensos 128 minutos.

Nó do Diabo dialoga com tais problemas e oferta ao espectador uma reflexão panorâmica destas demandas que precisamos dar conta dia após dia. Com a condução sonora de uma equipe extensa, formada por Carlos Montenegro, Daniel Jesi, Vito Quintans, Rieg Rodig, dentre outros, acompanhamos a trajetória de Seu Vieira pelos espaços erguidos por Manoeli Scortegagna, responsável pelo design de produção que emula com eficiência o clima de horror dos personagens vitimados pelas monstruosidades históricas que ainda insistem em se perpetuar.

O Nó do Diabo — (Brasil, 2018)
Direção: Anacã Agra, Ian Abé, Gabriel Martins, Ramon Porto, Jhesus Tribuzi
Roteiro: Anacã Agra, Ian Abé, Gabriel Martins, Ramon Porto, Jhesus Tribuzi
Elenco: Ariclenes Barroso, Camila Morgado, Diego Avelino, Eduardo Gomes, Ernani Moraes, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Jiddu Pinheiro, Luciana Paes, Murilo Benício, Thais Aguiar
Duração: 128 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.