Crítica | No Quarto Escuro de Satã

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Livremente baseado em O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, este giallo do diretor Sergio Martino faz referência a um outro filme que ele dirigiu, O Estranho Vício da Senhora Wardh (1971) onde a frase “O teu vício é uma sala fechada e só eu tenho a chave” é pronunciada. Aqui, esta frase é utilizada como título. A versão brasileira — No Quarto Escuro de Satã — não é algo absurdo ou gratuito, pois alude a um momento do filme, mas acaba perdendo o peso psicológico do verdadeiro título e flerta com algo sobrenatural, o que não é, de fato, a principal linha dramática da obra.

Anita Strindberg interpreta a perturbada Irina, que é maltratada pelo esposo Oliviero (Luigi Pistilli) e passa a sofrer de um medo constante quando assassinatos rondam o marido, cujo comportamento se torna cada dia mais estranho. O roteiro traz diversos ingredientes já vistos em Os Ambiciosos Insaciáveis (Paranoia), mas ainda assim consegue segurar o suspense a ponto de interessar o espectador pelo que está acontecendo, principalmente quando a esperada confusão de papéis e revelação do mistério por trás do assassino é exposta. Claro que não há nenhum traço de ousadia ou mesmo inteligência nessa exposição, sendo ela bastante didática e mal editada, mas esse é o tipo de momento do filme que vale mais pelo seu conteúdo do que por sua forma, então gentilmente “deixamos passar”.

O texto aqui dá uma guinada misteriosa quando Floriana (Edwige Fenech) entra em cena, adicionando dúvidas quanto a verdadeira intenção da personagem e ao mesmo tempo vendo-a se comportar como uma aliada de Irina. Sabemos que um suspense se constrói de maneira ainda mais divertida quando o público desconfia das intenções dos personagens e tem indicações variadas de seu alinhamento moral/comportamental no decorrer da obra, caminho este utilizado por Martino para segurar uma camada de dúvida na relação entre as duas mulheres, na intenção da mais jovem e nas consequências que essa relação poderá ter para ambas. É um jogo interessante de se acompanhar, a despeito dos diálogos que não animam muito, ou mesmo da edição, um dos setores técnicos mais problemáticos aqui, especialmente na hora de compor o ritmo nas cenas de assassinato.

Sergio Martino sempre gostou muito de trabalhar com sugestões através da câmera, filmando indícios de algo e, logo em seguida, mostrando algo gráfico. E vejam que isso ocorre tanto nas cenas de sexo quanto nas cenas de morte. No primeiro caso, o montador Attilio Vincioni consegue valorizar o material filmado. Já no segundo, o espectador se depara com um anticlímax toda vez que alguém é morto. Essas cenas acabam tendo o seu choque psicológico, é verdade, mas a beleza do ritual de morte típica dos gialli é parcialmente minada pela edição, com exceção de um único momento: a segunda parte da noite com a personagem de Enrica Bonaccorti, quando a primeira grande revelação do filme acontece. Sem grandes momentos da trilha sonora, a impressão de falta de peso em parte dessas sequências fica ainda mais evidente.

A ligação com o gato preto e a piscadela sobrenatural que a obra tem não atrapalham ou confundem a história, como alguns desafetos apontam. O que acontece é que o roteiro nunca assume uma posição mais clara em relação ao animal, então ele parece ser mesmo um psicopompo que representa a justiça, algo que o espectador entende perfeitamente na sequência final da obra, que traz um dos melhores momentos da direção de Martino no filme e também de Anita Strindberg no papel principal, descobrindo que a justiça pode se dar de diferentes formas e em seus próprio tempo.

No Quarto Escuro de Satã (Il tuo vizio è una stanza chiusa e solo io ne ho la chiave) — Itália, 1972
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Ernesto Gastaldi, Adriano Bolzoni, Sauro Scavolini (livremente baseado em obra de Edgar Allan Poe)
Elenco: Edwige Fenech, Anita Strindberg, Luigi Pistilli, Ivan Rassimov, Angela La Vorgna, Enrica Bonaccorti, Daniela Giordano, Ermelinda De Felice, Marco Mariani, Nerina Montagnani, Carla Mancini, Bruno Boschetti, Franco Nebbia, Riccardo Salvino
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.