Crítica | No Silêncio da Noite

“Eu nasci quando ela me beijou. Eu morri quando ela me deixou. Eu vivi por algumas semanas enquanto ela me amou.”

Como crer na morte quando o amor surge abruptamente, contrário às normas sociais, em que o pesar é mais comum que o amar? Qualquer detetive culparia o casal protagonista de No Silêncio da Noite pela morte de uma inocente menina, puramente por terem se unido convenientemente por conta do assassinato dessa jovem. Entre um roteirista de cinema, em processo de retomada do seu auge, e uma atriz em início de carreira, é construída uma paixão, mas em meio a um trágico crime, extremamente macabro. Morre alguém e nasce o amor. Qualquer diretor não resistiria em tratar com amargura o que aconteceu com Mildred Atkinson (Martha Stewart) após o seu encontro com Dix Steele (Humphrey Bogart), porém, esse opta por perceber a insolência do amor, possível nascer nos momentos mais inoportunos pensáveis e esvanecer nos mais oportunos para existirem.

O cínico romance, em contrapartida ao crime que aconteceu no silêncio de uma noite qualquer, é o enfoque proposto na obra, um clássico comandado por Nicholas Ray. Nesse longa-metragem, sua prioridade é analisar, entristecidamente, esse outro drama – o romance inconveniente -, permeado por visceralidade e verdade e efemeridade. Isso desponta de uma abordagem subversiva ao gênero, pois, em No Silêncio da Noite, o noir não parte dessa tragédia presumida – encarada com frieza pelo protagonista -, mas de uma camada investigativa mais pessoal e intimista, ousada e tão desoladora quanto. O que importa é o relacionamento entre Dix e Laurel Gray (Gloria Grahame), sua construção e desconstrução. O crime tenebroso presente na premissa é rebaixado em prol de um desenvolvimento bem mais cruel que qualquer assassinato passional. É o assassinato do amor.

Enquanto a investigação policial é sub-texto, narrativamente importante para guiar os passos dos personagens, as minúcias amorosas compõem a verdadeira superfície cinematográfica desse longa. Quem vai atrás das respostas, se é que existam, não é um ordinário detetive, porém, a própria Laurel, desconfiada de que seu amante, agora violento, é realmente o assassino daquela jovem. E por que não seria? Nicholas Ray, portanto, conduz  processos desconstruidores. No que tange Bogart, mostra-se, aos poucos, outras facetas do personagem que o ator interpreta, em um dos grandes papéis de sua carreira. O comportamento do roteirista é ácido demais para ele não ser culpado, como sugere a passagem em que Dix encena como Mildred teria morrido. Por tais transgressões morais, Laurel vai estremecer, cada vez mais amedrontada, ao invés de apaixonada.

Com isso, o conjunto torna-se um retrato devastador sobre a impossibilidade de amar, ao passo que, anteriormente, havia sido sobre a possibilidade de amar. As duas suposições caminham lado a lado, no auge do romance e no auge da tragédia. Com uma escrita impressionante, e uma direção tão cuidadosa e impactante, um só equívoco na sua estrutura que influencia uma total organicidade para o terceiro ato: a costura entre as investigações policiais e as amarras românticas. Um outro ponto, um pouco redundante, é o pesadelo de Laurel, tornando óbvia uma visão da obra que já era consolidada. No resto do longa, sobra a ironia do timing desencontrado, do comportamento animalesco sendo revelado, antes desconhecido. Pois será que Dix matou-a mesmo? Eis a maior catástrofe, muito mais arrebatadora do que a morte do ser: é a morte do amor.

No Silêncio da Noite (In a Lonely Night) – EUA, 1950
Direção: Nicholas Ray
Roteiro: Dorothy B. Hughes, Andrew Solt
Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Art Smith, Jeff Donnell, Martha Stewart, Robert Warwick
Duração: 94 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.