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Crítica | No Táxi do Jack

Um retrato muito vago do trabalhador comum.

por César Barzine
268 views (a partir de agosto de 2020)

Talvez, com exceção de uma ou duas cenas, tudo em No Táxi do Jack é dispensável. É um filme cujas sequências nada acrescentam, sejam na progressão da história ou no mero deleite estético. Não que o longa seja uma produção genérica sem nenhuma originalidade, é um trabalho bem singular no tratamento dado ao seu tema; que é a vida de proletário tanto na terra natal do protagonista (Portugal) quanto em terra estrangeira (Estados Unidos). O roteiro não se decide para qual dos dois lados vai, e acaba misturando esses dois núcleos sem criar uma coesão entre eles.

O que é problema também da montagem, em que a fusão de flashbacks impossibilita absorver um desenvolvimento pleno do personagem presente no título. A sensação é de que ele não aprende nada com a vida e seus passos em meio ao mundo. O roteiro demonstra potencial para construir um personagem forte e com uma progressão de pequenas transformações que seja estimulante e o torne mais ambíguo, porém isso nunca acontece. O espectador, então, permanece preso e se questionando quando que o personagem vai começar a ficar interessante?.

Por outro lado, se não há desenvolvimento por parte de Jack, pelo menos há uma abordagem diferenciada em relação a ele. Ao contrário de outras obras que também possuem a pretensão de formar um retrato social do trabalhador contemporâneo em um contexto de crise – Dois Dias, Uma Noite, O Valor de Um Homem e Eu, Daniel Blake -, No Táxi do Jack entrega um clima mais leve, sem aquele peso dramático tanto visto nos filmes citados. A direção e o roteiro de Susana Nobre não fazem uso da melancolia e nem mesmo de uma visão pessimista. Jack vai vivendo a sua vida com dificuldades, mas conserva um tom sereno dentro de si que é a principal atração do longa.

A interpretação dele, carregada por Joaquim Veríssimo, possui uma dicção arranhada, difícil de entender, mas a imagem que o protagonista sempre transmite não é a de um homem na qual temos que sentir pena a cada minuto. É um personagem mais natural, de atuação sóbria e sem uso de artifícios. O que passa longe de salvar a produção, já que faltam atritos em torno das situações da narrativa. Não necessariamente situações intrigantes, mas com um peso maior ao filme; que na ausência de substância acaba sendo extremamente morno. A narração de Joaquim fica a cargo de fornecer essa substância, mas é justamente o oposto do que o filme precisa: muita descrição e pouca ação.

No Táxi de Jack não é lá um estudo de personagem – ou pelo menos não tem força para sê-lo de modo eficiente. A obra, apesar de semelhanças no argumento, é o oposto de um filme como Arábia – que também acompanha o percurso do trabalhador comum de forma naturalista -, pois, além da ausência de uma abordagem melancólica, nunca sabemos o que Susana Nobre quer entregar. O longa parece estar incompleto, mas não por ter um roteiro simples, e sim por ser simplesmente vazio. Jack trabalha de taxista e motorista particular nos Estados Unidos, estuda inglês, convive com algumas pessoas, vai em busca de auxílio trabalhista em Portugal, procura emprego em sua terra natal, reencontra a sua família e, no decorrer de tudo isso, habita a sensação de que o filme se encontra deslocado, sem rumo e sem saber o que mostrar.

Daí alguém teve a brilhante ideia de dar um verniz experimental à produção adicionando um joguinho cênico de quebra de transparência na narrativa que deixa o espectador transtornado com a falta de coesão desse artifício dentro de sua unidade. A apresentação da produção de No Táxi do Jack em um plano fora da história chega a ser bizarra de tão arbitrária. Diante de tamanha ineficiência, a conclusão mais evidente acerca do trabalho de Nobre é que “a falta do que mostrar” não funciona – ao contrário de outros filmes de gênero semelhante – numa abordagem contemplativa que apenas busque apresentar as coisas com calma. O que a execução desta produção de fato indica é literalmente a ausência do que dizer.

No Táxi do Jack (idem) – Portugal, 2021
Direção: Susana Nobre
Roteiro: Susana Nobre
Elenco: Maria Carvalho, Amindo Martins Rato, Joaquim Veríssimo
Duração: 70 minutos.

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