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Crítica | Nomadland

por Kevin Rick
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Em Nomadland, a sempre deslumbrante, e agora restrita, Frances McDormand, interpreta Fern, uma recente viúva que perdeu seu emprego e decidiu vender seus poucos bens e pertences para comprar uma van, viajando pelos EUA em busca de algo, topando em serviços temporários, pessoas com passados dramáticos similares e uma grande comunidade de viajantes modernos, conhecidos como nomads. A cineasta Chloé Zhao compila uma expansiva e simultaneamente íntima observação da vida pela ótica de personagens que escolheram um divergente estilo de vida.

A parte mais interessante da jornada contemplativa de Fern está nos múltiplos, ou então simplesmente falta, de significados. Acredito ser uma visão incomum para esta película, justamente pelo fato de grande parte da audiência encontrar um tema que ecoe consigo mesmo ou algum pensamento que leve à reflexão filosófica da vida. Mas a maneira como Zhao carrega a fita abre um espaço gigantesco para interpretações, e não digo apenas no campo do Cinema, mas da vida em si, logo, grande parte da abordagem meditativa da direção serve a um exercício introspectivo do espectador.

Fern nunca verdadeiramente encontra respostas, e por grande parte da história ela sequer está procurando, e o tom documentarista que Zhao assume para os vários encontros da melancólica protagonista preenchem esse ideal de autorreflexão e autodescoberta da nossa perspectiva. Talvez você ache o filme uma jornada de descobrimento, uma obra sobre exilados buscando conforto na liberdade, uma odisseia americana contra o sistema capitalista, ou até mesmo uma simples vagarosa meditação da vida. A verdade é que nenhum posicionamento configura-se como uma perspectiva errada ou certa da proposta fílmica, pois a poesia cinemática de Zhao é uma viagem sobre escolhas e experiências, e todo o subjetivismo que circunda suas consequências, no qual a contemplação é apenas um meio de abrir um diálogo com o espectador sobre sua temporária vivência, da mesma maneira que Fern é um fio condutor para aprendermos sobre o acúmulo do passado e ficar (ou não) em paz com o presente e o futuro dos vários personagens do filme.

Obviamente que o senso comunitário do Movimento Nomad estadunidense e o contexto americano da classe trabalhadora que sofreu – e ainda sofre – com a crise econômica no final dos anos 2000 cria uma linha narrativa específica à obra, com contornos de comentário social do lado podre do sonho americano, mas enquadrar Nomadland nessa caixinha de desigualdade americana é um grande desserviço à linguagem universal da fita. Dessa forma, a busca da vida alternativa de Fern é um instrumento artístico e transcendental para desdobrar e expandir o existencialismo, independente do contexto. Para mim, o filme é sobre fuga.

O passado de Fern é raramente tocado na obra, mas nós sabemos que ela tinha raízes, uma fundação “normal” com seu marido, e a perda do seu parceiro, sua cidade e seu emprego estável estabelecem essa dissociação do comum para a personagem. Fern toma toda essa tragicidade para si e decide fugir ao invés de reconstruir, se é que seu estilo de vida nômade não é uma reconstrução de certa forma. Os empregos sazonais, as amizades temporárias e a falta de contenção de um lar deixam a personagem livre da perda, sempre em constante movimento e mudança, fugindo das suas próprias experiências enquanto acumula histórias da vastidão. Essa instabilidade da subcultura nomad serve perfeitamente às escolhas fugitivas da protagonista, ainda que o ideal proposto pelos nomads seja se encontrar na magnitude.

Eu realmente gostaria de ter visto Nomadland em uma sala de cinema, pois a direção naturalista de Zhao é uma experiência imagética que merece as telonas. A diretora é certamente minimalista, e o filme tem um ritmo relaxado e até descompromissado, que, aliás, consegue ser arrastado em determinadas sequências, mas o poder da direção está na estética de “diário de viagem” que pega elementos de contemplação física e emocional, os belos desertos do meio-oeste americano, a honestidade dura dos planos aproximados do personagens e da panorâmica abordagem em planos abertos, a cinematografia respaldada por elementos naturais e geográficos, as várias belas sequências em torno de Fern caminhando na imensidão, e cria uma poesia audiovisual que passa o sentimento de espaço e continuidade. Não acredito que Nomadland seja um obra-prima – duvido muito que será um filme com várias revisitações -, mas é certamente Cinema em uma de suas formas mais puras. 

Frances McDormand entrega uma de suas melhores performances com Fern, onde a atriz é contida e emocional, transpondo fragilidade com sutileza sem cair numa interpretação caricata ou apelativa. Quietude contemplativa é um papel difícil de acertar, mas McDormand faz sua mágica, acompanhada pela poesia de Chloé Zhao. Nomadland é o tipo de obra que ecoará de diferentes formas para cada espectador a partir de suas próprias experiências e da maneira que absorve aquelas vistas em tela. Uma jornada meditativa sobre a vida através da subcultura nomad.

Nomadland – EUA, 2020
Diretor: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao (baseado no livro Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century, de Jessica Bruder)
Elenco: Frances McDormand, Linda May, Patricia Grier, Gay DeForest, Angela Reyes, Carl R. Hughes, Douglas G. Soul, Ryan Aquino, Teresa Buchanan, David Strathairn, Charlene Swankie, Annette Webb, Rachel Bannon, Bob Wells, Makenzie Etchverry, Brandy Wilber, Matt Sfaelos, Roxanne Bay, Derek Endres, Donnie Miller, Suanne Carlson, Forrest Bault, Merle Redwing, Sherita Deni
Duração: 107 min.

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