Crítica | ‘Non’, ou A Vã Glória de Mandar

PLANO CRÍTICO MANOEL DE OLIVEIRA NON OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR CRÍTICA

Terrível palavra é um non. Não tem direito, nem avesso; por qualquer lado que a tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela por que o não mordesse, disse-lhe Deus que a tomasse ao revés, e logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha. O non não é assim: por qualquer parte que o tomeis, sempre é serpen­te, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio que deixou a natureza a todos os males. Não há corretivo que o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que confeiteis um não, sempre amarga; por mais que o enfeiteis, sempre é feio; por mais que o doureis, sempre é de feno.

Padre Antônio Vieira

Para os meus netos“, diz a dedicatória de Manoel de Oliveira logo nos créditos iniciais de ‘Non’, ou A Vã Glória de Mandar, drama histórico com aparências de documentário (e sequência musical, operística) sobre a História de guerras, engenhos, conquistas e principalmente derrotas de Portugal. Em muitos sentidos, trata-se de uma anti-epopeia sobre as raízes culturais, de fundação nacional e sobre uma parte da identidade do país, diante das quais o diretor olha de maneira crítica e historicamente coerente, mantendo, inclusive, o tom ultrapassado de certas conclusões historiográficas e sociológicas que ouvimos da boca do Alferes Cabrita (um solene e emotivo Luís Miguel Cintra) e também de seus amigos soldados. A mentalidade bélica e o ideal geral de motivações para as conquistas de Portugal ao longo da História são vistas aqui sob um olhar assumidamente conquistador e, dentro dessa mesma perspectiva, lírico, trágico e engajador.

Além de se basear numa premissa do Padre Antônio Vieira em um de seus Sermões sobre a palavra “não“, o título do filme também deriva de um trecho de Os Lusíadas, de Camões, num momento do Canto IV onde o poeta ironiza os críticos negativos, aqueles que olhavam de maneira trágica para as conquistas ultramarinas e territoriais de Portugal. A este tipo de indivíduo o poeta criou o eu-lírico de Velho do Restelo, sobre o qual Manoel de Oliveira também realizaria um filme, em 2014. Segundo o poeta, assim começa a dizer o pessimista sobre a saga militar dos lusitanos:

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

O diretor escolhe aqui um “tempo presente” (às vésperas da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974) e nele, dirige um grupo de atores em cima de um caminhão do Exército, rumo a uma missão numa vila africana, em plena guerra de reconquista. A discussão sobre a História se dá diante desta empresa e pelo menos nesse bloco de narração e caminhos para se pensar a História de Portugal, não há pompa alguma na direção. A fotografia é simples e a assinatura de Oliveira mantém apenas uma boa combinação de enquadramentos para os soldados. Nesta parte, o filme é bastante ordinário e seus maiores destaques são a discussão levantada pelo soldado-historiador e a montagem. De certa forma, o lado dos desafetos do filme que dão conta de um “imenso simplismo” da obra não está errado, ao menos no ponto de partida para as memórias. A justificativa para isto, no entanto, se vê justamente quando as cenas do passado começam a aparecer, adicionando dramas de época num formato de curtas-metragens à narrativa crua e visualmente insossa dos soldados em campanha na África.

Com base no “non” — divino e social — e entre pensamentos sobre os laços humanos e sobre a validade da vida, somos levados para outros tempos e presenciamos o assassinato de Viriato (líder de destaque da tribo lusitana que desafiou os romanos em 139 a.C.); para a Batalha de Toro (1476), durante a Guerra de Sucessão de Castela; para uma cena de encontro com as “novas terras”, onde um trecho de Os Lusíadas é encenado no melhor modelo operístico, sendo este um dos grandes momentos do filme na direção de fotografia e trilha sonora; e por fim, para a Batalha de Alcácer-Quibir (1578), onde desapareceu o rei D. Sebastião.

O texto histórico escrito pelo Padre João Marques (que voltaria a trabalhar com Oliveira como consultor bíblico em A Divina Comédia e novamente como consultor histórico em Palavra e Utopia e O Quinto Império) curiosamente levanta suspeitas pertinentes diante da condução de Sebastião frente à guerra em território africano, algo que a direção de Oliveira consegue reproduzir muitíssimo bem, inclusive na tática de formação das tropas — que o filme corretamente mostra como um misto de soldados portugueses, espanhóis, italianos, alemãs, belgas e mouros — tendo novamente um momento elogioso por parte da fotografia, trilha sonora e dos figurinos, com ótima reconstituição dos estandartes e detalhes para cada uniforme. Infelizmente esse segmento demora bastante tempo em uma preparação para a qual a câmera oferece poucas mudanças ou movimentações que despertem a nossa atenção — isso, antes da batalha, obviamente. Somado à sondagem histórica em off, certamente se torna o ponto mais fraco e sonolento da obra, embora eu não o classifique como ruim, apenas aquém dos segmentos anteriores. Por ser o maior deles, esperava-se que o diretor trabalhasse melhor com os cortes ou com os eventos internos, como ocorrera em todos os outros “curtas históricos” dentro do filme. Essa diferença de abordagem com certeza acabou tendo um preço para a obra.

Tratando-se de Manoel de Oliveira, estava claro que um choque de realidade mais uma ácida crítica viriam na conclusão do filme, e isso se dá em uma batalha (uma das últimas) da chamada Guerra Colonial Portuguesa (1961 – 1974), onde o roteiro finaliza o arco dos soldados, demarca o território de novos tempos pretendido pelo diretor e nos leva para uma conclusão antibelicista, mas nada utópica. Com a Revolução, o fim de uma parte dos horrores que marcaram a História recente do país. O grande “non” para as liberdades individuais que, em seus últimos momentos, viu, na reprodução do longa, sua vida militar passar diante dos olhos. Com a Revolução, a chegada da democracia, a constatação da epopeia de uma nação vista pelo avesso, a tragédia da grandeza e o lamento (mudo, no leito de morte, em sofrimento) pelos mortos deixados. Uma solene homenagem para aqueles que foram vítimas de um Estado de negações e ordens que não saíram bem. Pessoas cujo sangue regou as sementes da vã glória de mandar.

‘Non’, ou A Vã Glória de Mandar (Portugal, Espanha, França, 1990)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira, P. João Marques
Elenco: Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Miguel Guilherme, Luís Lucas, Carlos Gomes, António S. Lopes, Mateus Lorena, Lola Forner, Raúl Fraire, Ruy de Carvalho, Teresa Menezes, Leonor Silveira, Paulo Matos, Francisco Baião, António Lupi, Ricardo Trêpa, Sofia Sá da Bandeira
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.