Crítica | Nordeste Sangrento

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Nordeste sangrento
Que o céu esqueceu
E a prece dos homens no ar
Se perdeu.

Nota: este filme é originalmente em cores.

Wilson Silva já tinha assinado Depois do Carnaval (1959) e Eles Não Voltaram (1960) antes de assumir a direção de Nordeste Sangrento (1962), filme da Produtores Unidos que abordava uma das tendências mais interessantes do cinema brasileiro após o lançamento de O Cangaceiro (1953): a abordagem de temáticas centrais do western americano em dramas rurais (ou similares) envolvendo diretamente o cangaço, explorando a geografia da região Nordeste, falando sobre seca, vaqueiros, fazendas, religião (cristã e de matriz africana), disputa por poder local e um tipo peculiar banditismo e vigilantismo.

Abraçando a toada realista da primeira fase do Cinema Novo (embora não fizesse parte do movimento e sim do ciclo dos nordesterns), Nordeste Sangrento nos faz acompanhar o vaqueiro Zé Piedade (Paulo Goulart), que foge da miséria do sertão em direção ao litoral. Embora esta jornada seja importante para o personagem, o roteiro pouco toca no assunto após estabelecê-lo, mas fica para o espectador a visão de que Zé Piedade é um homem solitário, corajoso e determinado, pego no meio de uma guerra entre militares descontentes com o poder político e religioso de Padre Cícero em Juazeiro e os cangaceiros devotos ao padre e que estão dispostos a tudo para defendê-lo e à sua cidade.

O enredo é bastante dinâmico e desde o início percebemos a forma como Zé Piedade servirá de guia moral para a obra, sempre agindo de forma pacífica até ser provocado de um modo que sua vida é ameaçada. Essa abordagem está ligada a uma outra visão interessante do texto, que é a de colocar os cangaceiros como heróis e os “macacos” (como eram apelidados os militares), como vilões. Claro que existem as exceções dentro de cada grupo, mas o tratamento aqui é consideravelmente diferente daquele que temos em outros feijoada westerns, sendo a visão do presente filme similar àquelas dos faroestes americanos que abordavam os povos indígenas como amigos, não como uma ameaça maligna em si mesma.

Infelizmente o filme sofre bastante nas mãos da montagem, do elenco e da direção, às vezes perdendo o fôlego em cenas de muita ação ou tendo estranhas passagens entre sequências de festividade ou procissões religiosas para cenas de tiroteio ou preparação para um embate. Isolados, alguns momentos da obra entretêm bastante, especialmente na segunda metade da fita, mas quando contextualizados, esses pontos acabam não conseguindo muita coisa, o que é uma pena. Ainda assim, os tropeços não impedem que Nordeste Sangrento seja um bom filme, fazendo valer o título e dando uma outra visão para o papel dos cangaceiros nessa região do Brasil, ao menos quando relacionados à figura de um dos líderes religiosos mais importantes do país.

Nordeste Sangrento (Brasil, 1962)
Direção: Wilson Silva
Roteiro: Sanin Cherques, Francisco Pereira da Silva, Ismar Porto, Wilson Silva
Elenco: Jacy Campos, Leovegildo Cordeiro, Jackson De Souza, Carlos Dias, Roberto Duval, Leda Figueiró, Luely Figueiró, Paulo Goulart, Armindo Guanais, Waldir Maia, José Silva, Milton Vilar, Irma Álvarez
Duração: 72 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.